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Legado da pandemia, SUS amplia rede e serviços em áreas carentes no N e NE

O Hospital Metropolitano, em Maceió, foi inaugurado em maio e destinado somente para casos de covid-19. A partir deste mês destina seus 30 leitos de UTI e 130 clínicos para ser referência estadual em cirurgias nas áreas de ortopedia, neurocirurgia, vascular e cardíaca. - Márcio Ferreira/Divulgação
O Hospital Metropolitano, em Maceió, foi inaugurado em maio e destinado somente para casos de covid-19. A partir deste mês destina seus 30 leitos de UTI e 130 clínicos para ser referência estadual em cirurgias nas áreas de ortopedia, neurocirurgia, vascular e cardíaca. Imagem: Márcio Ferreira/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

15/09/2020 04h00

Estados do Norte e do Nordeste que historicamente enfrentam mais dificuldades estruturais no atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) já estão herdando parte da rede criada para tratamento da covid-19 e incorporando ao atendimento usual a pacientes. Isso é possível porque as duas regiões vêm apresentando redução no número de casos da doença, o que levou à desativação de muitos dos serviços criados emergencialmente.

Além da partes física e humana ampliadas, os estados esperam que o governo federal siga com repasses financeiros dos leitos habilitados de UTI (unidades de terapia intensiva) durante o período de pico da pandemia.

"Diria que essa é a pauta do dia de todos os secretários para que a população tenha como legado um melhor tratamento de terapia intensiva pós pandemia", afirma André Longo, secretário de Saúde de Pernambuco, que é vice-presidente do Nordeste do Conass (Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde).

Para Longo, é importante que as estruturas físicas que foram ampliadas sejam mantidas. "Estamos discutindo isso no âmbito de Conass; temos levado essa questão para o Ministério da Saúde, porque muitos leitos de UTI foram credenciados e estão sendo pagos por três meses. Precisamos garantir que boa parte desses leitos ao menos tenha continuidade, inclusive no seu financiamento", explica.

Em Pernambuco, por exemplo, Longo diz que deve haver uma renovação do parque de tecnologia e mobília hospitalar por conta dos investimentos feitos durante a pandemia. "Os hospitais de campanha montados pelo estado, tão logo aconteça a resolução da covid, terão esse conjunto de materiais e equipamentos disponibilizados para os nossos hospitais permanentes", diz.

Após caos, Amazonas avança

Respirador - Bárbara Paludeti/UOL - Bárbara Paludeti/UOL
Número maior de respiradores foi ganho da pandemia
Imagem: Bárbara Paludeti/UOL

Um dos principais avanços que a pandemia deve deixar é relacionado a estruturação de assistência que inclui respiradores. Um bom exemplo está no Amazonas, que enfrentou colapso na rede de saúde e funerária por conta da explosão de casos em abril e início de maio.

Antes da pandemia, na rede estadual, Manaus possuía apenas 480 respiradores e o interior, 65. "Foram recuperados equipamentos, além do acréscimo de 215 respiradores entre aquisições do estado, do Ministério da Saúde e doação, fazendo com que a rede da Susam [Secretaria de Estado de Saúde] passasse a dispor de 899 respiradores, sendo 720 na capital e 216 no interior", informou a pasta ao VivaBem.

Com os equipamentos, o Amazonas quase triplicou a quantidade de UCIs (Unidades de Cuidados Intermediários), saindo de 49 para 116 em 33 municípios. Em Manaus, o Hospital Delphina Aziz —hoje ainda referência no tratamento da covid-19— saiu de 132 para 350 leitos, entre clínicos e de terapia intensiva.

Nos municípios, a situação pós-pandemia é de melhora da rede. "Conseguimos melhorar bastante. Todos os municípios hoje contam com unidade de suporte ventilatório", afirma Januário Cunha Neto, presidente do Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde) do Amazonas.

Há estados na região que ainda analisam o que fazer com a rede ampliada. No Pará, a Secretaria de Saúde diz que ainda realiza um levantamento desse quantitativo e "após a desmobilização dos equipamentos empregados no combate à covid-19 no Pará será feito o redirecionamento para as unidades regionais de saúde." Acre e Roraima também informaram que a definição ocorrerá somente após a pandemia.

Nordeste melhora e aumenta rede

No Nordeste, os estados já sentem que as redes estão melhores e maiores pós pandemia. "Essa estruturação na rede ocorreu na questão de exames de imagem, com mais profissionais capacitados em urgência e emergência. Isso possibilita aparelhar nossos hospitais como um todo, e também permitirá que hospitais que não estavam preparados para atender determinadas patologias tenham recursos e estejam capacitados para atender a população", afirma Alderico Tavares, superintendente da média e alta complexidade da Secretaria de Saúde do Piauí.

No Maranhão, a Secretaria de Estado da Saúde informou que 101 leitos de UTI covid-19 abertos devem ser incorporados à rede estadual após a pandemia. Dos 13 novos serviços inaugurados, sete hospitais, uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) e uma policlínica serão mantidos para entender a população.

No Rio Grande do Norte, o governo montou um plano de transferência gradativa de leitos de UTI covid para atendimento de outras patologias. O processo começou com a reversão dos leitos nos Hospitais Tarcísio Maia e Rafael Fernandes, em Mossoró, e esta semana chegou ao Hospital João Machado, localizado em Natal.

Os novos leitos, segundo o secretário Cipriano Maia, são uma alternativa para solucionar o problema recorrente de lotação no hospital Walfredo Gurgel —referência em atendimento de urgência e emergência em Natal. "A unidade começou a receber pacientes, em sua maioria da ortopedia, aguardando cirurgia, ajudando a desafogar a unidade referência de trauma do estado", diz.

Na Bahia, a secretaria também diz que pretende manter parte dos 2.800 novos leitos para pacientes com covid-19 —1.129 de UTI. No caso dos leitos que foram criados dentro da rede assistencial existente (em hospitais próprios, privados e filantrópicos), "necessitarão de financiamento para que não venhamos perder o legado de forte ampliação."

Além disso, na Bahia foram abertas 21 UPAs em diversas localidades do interior e que anteriormente estavam fechadas. "A maior parte dessa infraestrutura criada ficará como legado", afirmou a Secretaria de Saúde ao VivaBem.

Hospital Metropolitano, em Maceió - 2 - Márcio Ferreira/Divulgação - Márcio Ferreira/Divulgação
Hospital Metropolitano, em Maceió
Imagem: Márcio Ferreira/Divulgação

Em Alagoas, houve uma situação diferente, já que havia dois grandes hospitais em obras no estado que tiveram a inauguração antecipada para atender ao período de emergência. O maior deles, o Hospital Metropolitano, em Maceió, inaugurado em maio e destinado somente para casos de covid-19, a partir deste mês destina seus 30 leitos de UTI e 130 clínicos para ser referência estadual em cirurgias nas áreas de ortopedia, neurocirurgia, vascular e cardíaca.

No Ceará, o secretário de Saúde Carlos Roberto Sobrinho, o Dr. Cabeto, afirma que a rede criada ainda está sendo utilizada por conta da covid-19, mas haverá legado à população.

"Ainda temos 500 leitos aproximadamente destinado à covid, mas garantimos que mais 100 vão ser definitivamente à rede de secretaria de saúde, isso vai melhorar o acesso, a qualidade e a humanização do atendimento", diz.

Estrutura poderia ser maior

Para Bernadete Perez, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e sanitarista, o legado não será tão grande porque a maior parte dos investimentos foram feitos em estruturas provisórias.

"Não tenho otimismo de grandes legados para o SUS da forma como o Brasil respondeu. Se os investimentos fossem na atenção básica, vigilância epidemiológica, leitos de enfermaria e UTI nas estruturas já existentes seriam um projeto de continuidade, mais de longo prazo", afirma.

Um ponto que ela espera um legado é no âmbito do conhecimento, com a vigilância da prevenção. "Precisaremos mais do que nunca de conhecimentos que considerem os aspectos diversos da vida: biológico, subjetivo e ecossocial. Esse legado seria importante: a formação e a estrutura das equipes de saúde para lidar com fenômenos cada vez mais complexos", pontua.

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