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Pandemia da covid pode impactar nos diagnósticos de HIV e preocupa médicos

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Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

04/09/2020 04h00

Entre as inúmeras questões causadas pelo novo coronavírus na área da saúde, uma que chama a atenção da comunidade médica e tem sido tema de pesquisas é o impacto da pandemia da covid-19 no número de diagnósticos de outra pandemia, a do HIV.

De acordo com o Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde, os estados têm informado que, devido à sobrecarga dos serviços em função da pandemia do conoravírus, houve uma redução importante das ações de prevenção, incluindo testagem para o HIV.

Além disso, informa o documento, "observou-se que, de janeiro a maio de 2020, houve uma redução de 17% no número de pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral (TARV), em comparação com o mesmo período do ano anterior".

"A falta de diagnóstico em tempo hábil é muito preocupante, pois se sabe que as pessoas vivendo com HIV são enormemente beneficiadas pelo tratamento antirretroviral e que, mesmo sem acesso precoce, podem permanecer assintomáticas ou paucisintomáticas (com poucos sintomas) por anos. Isto trará o risco de ter o diagnóstico só quando do aparecimento de doença definidora da Aids, além do aumento da possibilidade de transmissão do HIV exatamente pela falta de diagnóstico e não uso de medicamentos antirretrovirais eficazes", alerta Dirceu Greco, infectologista, professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), presidente da Sociedade Brasileira de Bioética e vice-coordenador da Comissão Internacional de Bioética (2018-2021) Unesco, Paris.

Segundo Rico Vasconcelos, infectologista da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e colunista de VivaBem, a interrupção em qualquer uma das etapas no cuidado contínuo do HIV por conta da pandemia do coronavírus poderia impactar negativamente no controle do HIV e nos avanços que foram conquistados ao longo das últimas quatro décadas.

"Esse cuidado vai desde a educação em saúde sexual, passando pela promoção da prevenção, distribuição de preservativos, PrEP, PEP, autotestes, testagem rápida de HIV, chegando até o tratamento de quem já vive com esse vírus", comenta Vasconcelos.

Estudos já avaliam impacto

A redução na capacidade de atendimento para pacientes com HIV e seus impactos já foram abordados em alguns estudos. Em abril deste ano, uma pesquisa com 200 membros da Associação Britânica de Saúde Sexual e HIV apontou que, com o fechamento de 54% das clínicas, os atendimentos e serviços de saúde sexual voltados à prevenção, testagem e tratamento de HIV foram reduzidos em 80%.

Recentemente, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou uma pesquisa em que prevê os possíveis efeitos da interrupção de programas e da prestação de serviços de HIV no número de mortes e de novas infecções por esse vírus na África Subsaariana, em decorrência da pandemia da covid-19.

Em uma das projeções, o estudo aponta que a interrupção no fornecimento do antirretroviral no período de seis meses poderia levar a 500 mil mortes por causas relacionadas com a Aids entre 2020 e 2021. Outro estudo, do Imperial College of London, no Reino Unido, estima que haverá um aumento da mortalidade (10%) por Aids nos próximos cinco anos em países de renda baixa e média —aí incluso o Brasil.

Pausa no atendimento preocupa

De acordo com Adele Benzaken, diretora do Programa Global da AHF (Aids Healthcare Foundation), existem alguns motivos pelos quais houve a diminuição do acesso ao diagnóstico de HIV.

Ela cita alguns: restrições de mobilidade na época mais rigorosa da quarentena; medo das pessoas saírem de casa para ir na unidade de saúde com receio de serem contaminadas pela covid-19; fechamento total ou parcial dessas unidades —com o cancelamento de algumas atividades de atendimento clínico, mantendo apenas a entrega do tratamento pela farmácia.

E, por último, a realocação de alguns profissionais de saúde para atuar na linha de frente do coronavírus, reduzindo o atendimento de testagem.

Diante do atual cenário, Greco aponta a importância de se buscar alternativas para que o atendimento nas unidades básicas seja separado ou tenha horários específicos. "Se não se estabelecerem fluxos específicos para facilitar o acesso, os dois riscos são reais: atrasar o diagnóstico de pessoas que desconhecem seu estado sorológico (efeito individual) e também de novos casos de HIV e outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) —efeito comunitário".

"Existem inúmeros exemplos no mundo e no Brasil de manutenção de serviços abertos com todas as precauções de proteção dos profissionais de saúde e higiene sendo tomados. Isso é o que me refiro quando abordo a reconstrução do programa de HIV (o novo normal)", defende Benzaken.

Para a médica, as atividades de testagem devem ser priorizadas para aqueles que realmente necessitam, como, por exemplo, para indivíduos sintomáticos com IST; que apresentam sintomatologia suspeita de Aids, tuberculose e quadro de desnutrição; para pessoas em PrEP; para crianças expostas (mães portadoras de HIV); durante o pré natal; e para parceiros sexuais de PVHIV (Pessoas Vivendo com HIV).

Importância do autoteste

Autoteste de HIV é vendido em farmácias e tem amplo acesso - iStock - iStock
Imagem: iStock

O Brasil tem incorporado no SUS o autoteste, que é uma opção a ser utilizada neste momento de distanciamento e crise sanitária. "Nesse sentido, os programas deveriam desenvolver alternativas para assegurar esta distribuição de autotestes utilizando plataformas online, pelo correio, pelos pares e comunidades, em locais onde as populações-chave se reúnem", sugere Adele.

Já Rico Vasconcelos reforça a importância de pessoas que têm vida sexual ativa manter uma rotina de testagem de HIV e outras ISTs, independentemente da pandemia e de suspeitarem terem se infectado ou não, pois mesmo que não tenham sintomas a infecção pode ter ocorrido.

Quanto mais cedo uma infecção por HIV é diagnosticada e tem seu tratamento iniciado, menor é o impacto da infecção na saúde do indivíduo.

"As mortes em decorrência da infecção por HIV ocorrem, em geral, muitos anos depois dela se instalar, quando não é tratada adequadamente. Assim, a interrupção no tratamento de quem vive com esse vírus por conta da pandemia do novo coronavírus poderá ter grande impacto na mortalidade por Aids, maior ainda do que a interrupção nos diagnósticos", reforça Vasconcelos.

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