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Celular, TV, computador: como lidar com o excesso de telas na quarentena

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Imagem: iStock

Chloé Pinheiro

Colaboração para o VivaBem

27/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Brasileiros aumentaram o tempo passado nas redes sociais durante a pandemia
  • Tudo bem ficar mais tempo online (sem cobranças!), mas há efeitos colaterais, como problemas no sono e sintomas de ansiedade
  • Especialistas dão dicas para fazer as pazes com a tecnologia durante a quarentena

Do celular para o computador, do computador para a TV, da TV para o celular. No fim do dia, exausto e estressado. Se você pode estar em casa praticando o distanciamento social devido a pandemia de covid-19 e novo coronavírus, é bem provável que já tenha se visto na mesma situação de Catarina Mendes, 32 anos, de Mauá (SP).

"Antes eu chegava em casa e desligava um pouco, agora acordo e durmo de frente para uma tela", comenta a auxiliar de recebimento. "Me sinto mais ansiosa e fico nessa pressão de que preciso absorver mais conteúdo".

A professora de artes Suzana Mendonça, 31 anos, vive situação semelhante em Santo André (SP). "Mesmo que seja para algo produtivo, tenho dor de cabeça, meus olhos chegam a ressecar e parece que não descanso nunca", relata. "Aí, quando vou relaxar, é em uma tela de novo, assistindo algo".

O aumento do uso de mídias eletrônicas é esperado em um momento como esse, em que não temos outro meio de realizar uma série de outras tarefas e de interagir com as pessoas. Por outro lado, também é natural que bata o cansaço.
"Normalmente, temos outras válvulas de escape, vida social, exercício, passeio. Agora, nossa energia é toda direcionada para esses canais", comenta Luiz Sperry, psiquiatra e blogueiro do VivaBem.

Prejuízos no sono, na produtividade e na saúde mental

Um dos principais prejuízos é no sono. "A exposição constante à luz artificial das telas atrapalha nosso ciclo circadiano, que já está bagunçado porque perdemos boa parte da exposição à luz solar", destaca Sperry. Trata-se de um problema e tanto, pois a privação de sono pode abalar não só a saúde mental, mas a própria imunidade.

Além disso, quando telefone e redes sociais estão 'por perto' durante o dia, a produtividade do trabalho é afetada. "Minha energia de concentração fica dividida mesmo que eu não esteja de fato mexendo no celular ou checando as redes", aponta o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e também blogueiro do VivaBem.

Sem falar dos momentos de trabalho e ensino, nas redes sociais e internet o próprio conteúdo consumido tem suas repercussões. "Se estou o tempo todo consumindo e lidando com más notícias, meu cérebro interpreta isso como um risco iminente e passo a ter uma resposta fisiológica ao estresse", continua Nabuco.

Quando esse mecanismo é desencadeado toda hora, há maior risco de doenças crônicas, como problemas cardíacos e depressão, além de surgimento de sintomas de ansiedade. Vale lembrar que já estamos mais tensos por uma série de outros fatores, como as incertezas sobre a própria vida, a preocupação pelo próximo e a situação política.

Nesse contexto, o consumo indiscriminado de informações é mais uma gota d'água em um copo quase cheio (de problemas). E, mesmo sabendo de tudo isso, muitas vezes seguimos conectados. "Essa obsessão vem da ideia de que poderemos fazer algo a respeito e de que, quanto mais soubermos, melhor, mas não temos controle sobre tudo", pontua Sperry.

Distanciamento social? Tem certeza?

Mais de 55% dos brasileiros ouvidos em uma pesquisa feita pela empresa Global Web Index afirmaram ter aumentado o uso de redes sociais ou aplicativos de mensagens durante a pandemia. O levantamento entrevistou 15 mil pessoas de 17 países sobre o tema —e o Brasil é um dos líderes do ranking.

Manter a conexão é de fato importante como nunca. "Precisamos dos vínculos afetivos construídos para suavizar nossa resposta ao estresse", comenta Christiane Karam, psicóloga da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Mas há o lado negativo do excesso.

Primeiro, interagir online é mais cansativo. "75% da comunicação ocorre por comportamentos não verbais, que são gestos, entonação, ritmos de respiração. Quanto não tenho esses sinais, dá mais trabalho para absorver e compreender totalmente a mensagem transmitida", aponta Nabuco.

O excesso, favorecido pelo aspecto viciante da coisa, também preocupa. "Se você deixa de investir em outros aspectos da vida para passar o tempo nessas ferramentas, elas passam a ser prejudiciais", completa Karam. E vamos concordar que é difícil resistir à tentação de descer a linha do tempo ou passar os stories para o lado nos momentos ociosos, certo?

Repensando a relação

Se tem gente exagerando, também tem quem aproveite o momento para rever o comportamento digital. "Meus primeiros dias em casa foram até melhores do que antes, mas ficava mal quando começava a pensar muito no que estava acontecendo lá fora, sem contar a quantidade enorme de mensagens em grupos e o tempo no Instagram", relata Caroline Betella, publicitária de 29 anos.

"Cheguei à conclusão de que precisava cuidar mais de mim em vez de ficar monitorando tudo o que acontecia. E foi a melhor coisa que poderia ter feito", comemora. Além de investir mais em atividades offline, como o violão, Carolina agora busca preencher o tempo vago com... nada. "Estou usando o ócio para ter ócio mesmo".

Os especialistas ouvidos pela reportagem confirmam a tendência. "Temos percebido que pessoas que antes exageravam nas mídias eletrônicas agora estão saturadas", destaca Nabuco. "Pode ser um período importante para repensarmos nossa relação com a tecnologia, já que antes da pandemia vivíamos um momento crítico, de ficar a todo momento com o celular na mão", palpita Karam.

E, quem sabe, o movimento não leve a reflexões ainda mais profundas sobre a própria vida. "Quando estamos o tempo todo conectados e ocupados, não temos espaço para entrar em contato com nossas insatisfações com vida", diz Nabuco. "E a quarentena, por outro lado, nos expõe diretamente a elas".

Como usar a tecnologia a nosso favor?

Por último, é super importante dizer que tudo bem passar mais tempo nas telas na frente desse período, mesmo que não por motivos profissionais e acadêmicos. "Não podemos, nesse momento, criar mais uma paranoia nas nossas cabeças", pontua Sperry.

"Mas há uma diferença entre autoindulgência e esbórnia", completa. Por exemplo, tudo bem maratonar uma série ou assistir mais TV agora. Só que, se você só faz isso o dia inteiro, pode estar desenvolvendo um quadro de compulsão ou uma válvula de escape justamente para não confrontar as inquietudes da cabeça —mais escancaradas do que nunca.

Veja algumas dicas para usar a tecnologia a seu favor durante o isolamento:

  • Eleja períodos do dia para ver notícias e escolha dois ou três sites de credibilidade para fazer isso;
  • Se você não trabalha atendendo ou falando com pessoas, tente dividir o tempo entre "produção" e "interação", deixando o celular longe da mesa nos períodos em que não precisará dele;
  • Desconecte-se das telas cerca de duas horas antes da hora de ir dormir;
  • Busque atividades manuais, que proporcionam a conexão com o tempo presente e consigo próprio;
  • Uma ou duas vezes por dia, sente-se em um local tranquilo, sem distrações e concentre-se na respiração por alguns minutos. A meditação e as técnicas de atenção plena são ótimas para reduzir a ansiedade provocada pelos estímulos eletrônicos constantes.

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