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Novo tratamento reduz complicações das doenças cardiovasculares

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Imagem: iStock

Bárbara Paludeti

Do VivaBem, em São Paulo

20/04/2020 04h00

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo. Estima-se que 17,7 milhões de pessoas morreram por doenças cardiovasculares em 2015, representando 31% de todas as mortes em nível global.

No Brasil, cerca de 300 mil pessoas morrem por doenças cardiovasculares todos os anos, de acordo com a SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia).

Entre os diferentes tipos de enfermidades estão a DAC (Doença Arterial Coronariana) e a DAP (Doença Arterial Periférica), causadas pelo acúmulo de placas de gordura, cálcio e outros elementos na parede das artérias do coração e de outras partes do corpo. Ambas não são muito conhecidas, mas são potencialmente perigosas.

Recentemente, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou um novo protocolo de tratamento para pessoas que já tenham DAP e DAC: trata-se da combinação de um anticoagulante, a rivaroxabana (Xarelto) mais o ácido acetilsalicílico, a famosa aspirina. A combinação é baseada no estudo de fase 3 Compass1, publicado em 2017 no The New England Journal of Medicine.

O objetivo era avaliar se o anticoagulante sozinho ou combinado com a aspirina seria mais eficaz do que a aspirina sozinha para prevenção cardiovascular secundária.

A aspirina é amplamente utilizada por pessoas que já tiveram AVC ou infarto, ou que já passaram por cirurgias de bypass ou colocaram stent nas artérias coronárias, em doses baixas e diárias para reduzir o risco de recidivas.

Ao lado da prevenção secundária, o ácido acetilsalicílico tem outra indicação importantíssima em cardiologia: quando administrado nas primeiras 24 horas depois de um infarto do miocárdio, reduz pela metade o risco de morte ou de ocorrer um segundo infarto.

Como o estudo foi feito?

O estudo foi realizado em 33 países e incluiu cerca de 27 mil pacientes com alto risco para as doenças em 602 centros de pesquisa, inclusive no Brasil, que contou com 1.500 participantes.

O médico responsável por liderar o Compass no Brasil foi o cardiologista Álvaro Avezum, diretor da divisão de pesquisa do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese (SP).

Os pacientes foram divididos em três grupos que tomaram respectivamente: rivaroxabana e aspirina, somente rivaroxabana e somente aspirina.

"O público-alvo do estudo foram pacientes com DAP ou DAC e alto risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, geralmente pessoas com histórico familiar, obesidade, diabetes, sedentários e fumantes", explica John Eikelboom, líder global do estudo, professor associado do Departamento de Medicina da Universidade McMaster e hematologista no serviço de trombose do Hamilton General Hospital, em Ontário, no Canadá.

A pesquisa mostrou que, entre os pacientes que receberam rivaroxabana mais aspirina, houve diminuição de 24% no risco de infarto, AVC e morte em comparação ao apresentado por aqueles que receberam aspirina sozinha.

"Muitos estudos vinham sendo realizados ao longo dos últimos anos, porém nenhum se mostrou suficientemente eficaz ou não salvou vidas, e por isso o tratamento se manteve o mesmo por muito tempo: cerca de 70% a 80% dos casos, ou seja, a maioria, era tratada apenas com aspirina", diz Eikelboom.

Além disso, no caso de pacientes com DAP, os dados mostram que a nova abordagem previne a amputação, com redução de aproximadamente 70% dos casos, 46% de eventos graves em membros e 28% no risco de infarto, AVC e morte cardiovascular.

Por que ele é importante?

O estudo foi interrompido antes do prazo previsto pela eficácia mostrada no grupo rivaroxabana mais aspirina após um acompanhamento de 23 meses.

"A primeira coisa a lembrar é que paramos mais cedo do que o planejado porque os resultados eram robustos e claros. Foi a primeira vez, desde a aspirina, que pudemos salvar vidas. Foi muito efetivo", salienta Eikelboom.

O resultado do estudo foi alcançado pela combinação dos efeitos da rivaroxabana e da aspirina sobre o processo de formação de coágulos, chamado inibição de dupla via.

Eles são produzidos como uma resposta do corpo após o rompimento das placas que obstruem as artérias e contribuem para o entupimento dos vasos. Por isso, é importante reduzir sua chance de aparecimento por meio do uso de anticoagulantes, que junto da aspirina atuam em etapas diferentes da formação dos trombos, o que faz com que as ações se complementem, potencializando o efeito de anticoagulação e antiagregação plaquetária.

O médico afirmou que as orientações de tratamento "certamente vão mudar e já estão mudando". A Sociedade Europeia de Cardiologia já passou a recomendar o novo protocolo de administração dos fármacos. "Deve mudar no mundo todo, mas isso leva tempo, é normal", explica.

"Fiquei muito feliz com os resultados, e de estar envolvido em algo que deve mudar as orientações de prática. E foi a primeira vez que fui líder global de um estudo, e que será revolucionário. Foi animador ver isso acontecendo. Nós vamos poder salvar até centenas de milhares de vidas. A mágica da prevenção cardiovascular é ter uma terapia efetiva", finaliza.

O que é DAP e DAC

A DAC acontece quando placas de gordura se acumulam nas artérias próximas ao seu coração. Isso diminui o fluxo sanguíneo, o que pode causar dor no peito ou um ritmo cardíaco estranho (chamado arritmia). Um bloqueio total pode causar um ataque cardíaco.

A DAP é semelhante à DAC, mas afeta os vasos sanguíneos mais distantes do coração, como os dos braços, pernas, cabeça ou estômago. Você pode sentir dores ou cãibras nas pernas, geralmente quando você anda ou sobe escadas.

Ela também pode deixá-lo cansado. A dor pode desaparecer quando você descansa e voltar quando você se move. Se não for tratada, a DAP pode trazer problemas mais sérios, como derrame, úlceras e perda de circulação nas pernas, o que pode causar amputação.

Ambas as doenças estão diretamente relacionadas aos hábitos de vida: pessoas que não se alimentam bem, não se exercitam, não tem uma boa saúde mental ou sono regular tendem a ter mais chances de desenvolvê-las.

Elas afetam aproximadamente 202 milhões de pessoas no mundo, porém, um número grande não as conhece e o fato de elas serem geralmente silenciosas, especialmente em estágios iniciais, as fazem ser ignoradas.

"Nunca tivemos tanta informação sobre saúde e tantas opções de tratamentos disponíveis como temos hoje. Porém, ao mesmo tempo, grande parte da população continua negligenciando a própria saúde e não adota um estilo de vida saudável", lembra Eikelboom.

"Também estamos ficando mais velhos. Ou seja, temos mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares, o que faz com que esse índice aumente cada vez mais. Quanto mais tempo vivemos, mais riscos. E junto vem a gravidade dos casos. Atualmente, os pacientes apresentam estados mais críticos em comparação com o que era observado 10 anos atrás, muito por conta da idade", observa o médico.

Parar de fumar, reduzir o sal na dieta, consumir mais frutas e vegetais, praticar atividades físicas regulares e evitar o uso nocivo do álcool têm se mostrado medidas eficazes para reduzir o risco de doenças cardiovasculares.

Além disso, o tratamento medicamentoso de diabetes, hipertensão e hiperlipidemia pode ser necessário para reduzir os riscos cardiovasculares e prevenir ataques cardíacos e AVCs.

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