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Esquistossomose, ou barriga d'água, é considerada doença endêmica no país

Fábio de Oliveira

Da Agência Einstein

22/02/2020 15h36

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que um número um pouco maior do que o total da população brasileira, ou mais de 220 milhões de pessoas ao redor do mundo, requer um tratamento preventivo contra a esquistossomose, doença causada pelo Schistosoma mansoni, um verme encontrado em água doce.

Ele vai parar em rios e lagos via fezes de pessoas contaminadas. Esses dejetos levam os ovos do verme, que eclodem na água, liberando larvas que infestam seu hospedeiro intermediário, o caramujo.

No Brasil, o problema é considerado endêmico, com cerca de 1,5 milhão de pessoas vivendo em áreas de risco de contaminação. As regiões mais visadas do país são o Nordeste e estados do Sudeste como Minas Gerais e Espírito Santo.

Por que essa enfermidade, também conhecida como barriga d'água, persiste entre nós? "O principal motivo é a presença do caramujo, cuja erradicação não é simples", explica Luis Fernando Aranha, professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

Além disso, entram nessa conta os pacientes não tratados, que são transmissores do verme, e os hábitos higiênicos, em parte derivados da ausência de saneamento básico. Isso afeta até a indústria do turismo.

Otávio Sarmento Pieri, professor titular de saúde pública do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, cita artigo das pesquisadoras Constança Simões Barbosa, Mariana Sena Barreto e Elainne Christine de Souza Gomes, da Fundação Oswaldo Cruz em Pernambuco, sobre o caso de indivíduos da zona rural parasitados com o Schistosoma mansoni e que foram trabalhar em áreas turísticas no litoral daquele estado, como Porto de Galinhas.

Os caramujos foram introduzidos por meio da areia retirada de um rio e usada na construção civil. Sem falar nas condições sanitárias inadequadas. Em 2000, já existiam 15 focos de transmissão de esquistossomose, sendo registrado o primeiro surto epidêmico da doença na região. Hoje, o problema é considerado endêmico, não só lá, mas também em outros pontos do litoral do Brasil.

Daí a necessidade de se investir em saneamento. "Sem dúvida, é o ponto mais relevante, associado a identificação e tratamento de portadores e combate ao hospedeiro", diz Aranha. Para ter uma ideia, 83,6% da população do país têm acesso ao abastecimento de água. Já a rede de esgoto atende a 53,2% dos brasileiros. E apenas 46,3% do esgoto gerado recebe tratamento no país.

"O saneamento é fundamental, mas só ele não vai resolver o problema", diz Otávio Pieri. De acordo com o professor de saúde pública, na década de 1950 tentou-se eliminar o caramujo jogando sulfato de cobre nas águas. "Mas é um metal pesado que fica ali pelo resto da vida." Veneno em pó também é outra possibilidade, porém o impacto ambiental é grande. "É necessário descobrir uma substância que só mate o caramujo", diz Pieri.

O grande problema para a saúde da pessoa com esquistossomose é presença dos ovos do Schistosoma mansoni no fígado. Ali, como explica Luis Fernando Aranha, ele causa uma reação inflamatória que provoca um aumento da pressão no sistema venoso do órgão e seus tributários, o sistema porta —ou seja a veia de mesmo nome, que transporta o sangue dos intestinos para o fígado e outros vasos. Esse quadro também pode acometer as veias dos pulmões.

O comprometimento do fígado leva à hipertensão da veia porta. Isso se manifesta ao longo dos anos com o crescimento do volume abdominal. Eis a razão da alcunha barriga d'água.

"Quando há acometimento pulmonar, a pressão dos pulmões se eleva, o que se manifesta por falta de ar grave e progressiva", explica Aranha. Na forma aguda da doença, acontece transmissão maciça dos agentes infecciosos, ocorrendo febre alta, aumento no sangue de eosinófilos, células de defesa que atuam contra parasitas, e lesões de pele, onde há entrada dos protozoários, completa o especialista.

Para debelar a esquistossomose, a droga mais eficaz é o praziquantel, um antiparasitário. "Os tratamentos em geral são curtos e eficazes, exceto em situações onde já existe lesão orgânica avançada", diz Aranha. A eficácia da droga é de 60% a 70% e ela não é indicada para grávidas. Ela é distribuída pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Como ocorre a transmissão

  1. A pessoa contaminada elimina os ovos do Schistosoma mansoni por meio das fezes
  2. Quando entram em contato com a água, esses ovos eclodem e liberam larvas. Elas infectam os caramujos. Ali, se reproduzem assexuadamente
  3. Depois de quatro semanas, milhares de larvas, chamadas de cercárias, deixam o caramujo e vão parar nas águas de rios, lagos, córregos e ribeirões. A contaminação ocorre ao se entrar em contato com essas águas. As cercárias penetram pela pele.
  4. Dentro do organismo, os vermes fixam residência nas veias mesentéricas, no intestino, as responsáveis por drenar o sangue cheio de nutrientes e conduzi-lo ao fígado. Naquele local, botam ovos, que são excretados via fezes. (Fonte: Ministério da Saúde)
Errata: o texto foi atualizado
A foto que ilustrava o texto não era do caramujo vetor da esquistossomose, a imagem já foi alterada.

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