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O que significa a descoberta do subtipo do HIV? É preciso novo tratamento?

Imagem de microscópio mostra o vírus HIV se conectando à superfície de uma céula do sistema imune - AFP/Instituto Pasteur
Imagem de microscópio mostra o vírus HIV se conectando à superfície de uma céula do sistema imune Imagem: AFP/Instituto Pasteur

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

12/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A existência de diferentes subtipos do HIV já era conhecida na área da saúde. A descoberta da versão "L" significa uma nova variação rara do vírus
  • Segundo os autores, a maior relevância da descoberta é auxiliar os cientistas a entender melhor o vírus e ajudar na prevenção e no tratamento
  • Não há estudos indicando se o novo subtipo é resistente aos tratamentos ou métodos de prevenção disponíveis

No início de novembro deste ano, um grupo de cientistas publicou um artigo informando a descoberta de um novo subtipo de HIV. A pesquisa, disponível no periódico Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, é a primeira a encontrar uma nova variedade do vírus desde 2000.

Para o meio científico, é um grande passo. Mas o que significa para a população em geral a descoberta? O subtipo é como uma nova doença em curso?

Na verdade, nada muda. Os pesquisadores já sabiam que há uma diversidade muito grande do vírus. "Essa inclusive é uma das razões para não existir uma vacina contra o HIV. Ele sofre mutações constantes", diz Melissa Medeiros, especialista em HIV e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Essas mutações transformam o vírus "original" em outros subtipos, mas que pouco têm de diferente do tradicional. Medeiros exemplifica a diferenciação do HIV com uma família: "Todo mundo tem o mesmo sobrenome, mas o José tem o olho verde, o João o olho azul e a Maria, castanho. Todos são seres humanos, geneticamente parecidos, mas com características diferentes".

Isso quer dizer que o subtipo, na verdade, é só uma "cor de olho diferente" do HIV, e não um novo vírus.

Helio Bacha, infectologista da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein, diz que o trabalho tranquiliza. "Ele mostra que estamos vigilantes a respeito do vírus. Isso é bom, é como o da gripe, que estamos sempre observando sua evolução".

Segundo os autores do estudo, a maior relevância da descoberta é auxiliar os cientistas a entender melhor o vírus, o que pode ajudar na prevenção e no tratamento. "Para acabar com a pandemia de HIV, devemos continuar a pensar à frente desse vírus que muda constantemente, e usar os últimos avanços na tecnologia e nos recursos para monitorar sua evolução", afirmou uma das coautoras, Carole McArthur, à AFP.

"Não foi uma surpresa para a gente"

A comunidade científica divide o vírus em dois tipos, 1 e 2, com base em suas diferenças genéticas. O 1, por exemplo, é o que está mais disseminado no mundo e tem nove grupos, entre eles o M, responsável por mais de 90% dos casos de Aids no mundo. A nova variante, chamada de L e revelada em novembro, é um outro subtipo, dentro do M, por isso recebeu o nome HIV-1, grupo M, subtipo L.

No Brasil, há diferentes grupos concentrados em suas regiões. Um estudo publicado em setembro deste ano e desenvolvido por pesquisadores da UFSCar (Universidade federal de São Carlos) e da Uminho (Universidade do Minho), em Portugal, mostrou que o grupo C é mais comum na região Sul, enquanto o tipo B é mais disseminado nas demais regiões do país.

Quanto ao atual subtipo L, a comunidade científica já tinha suspeitas sobre sua existência, mas era necessário que ele fosse identificado em pelo menos três indivíduos para que pudesse ser classificado cientificamente.

A terapia PrEP, disponível no SUS desde 2017, é um método de prevenção à infecção por HIV - Getty Images
A terapia PrEP, disponível no SUS desde 2017, é um método de prevenção à infecção por HIV
Imagem: Getty Images

Bacha conta que desde 2001 a comunidade científica já havia identificado essa variação e que ele devia circular pela República Democrática do Congo, na África, desde os anos 1980. É por esse motivo que não houve novidade para os pesquisadores. "A novidade, na verdade, é a parte burocrática da virologia, ou seja, agora ele está classificado".

"Não foi uma surpresa para a gente", confirma Medeiros. "Só precisávamos de uma tecnologia avançada para validar a informação".

"Identificar novos vírus como esse é como procurar uma agulha no palheiro. Ao avançar nossas técnicas e usar a nova geração de sequenciamento, puxamos essa agulha com um ímã", disse Mary Rodgers, uma das autoras do estudo, em comunicado oficial.

Medicação é a mesma

Em entrevista à revista Scientific American, Rodgers afirmou que o novo subtipo é extremamente raro, o que diminui as preocupações de que ele seja resistente aos tratamentos ou métodos de prevenção disponíveis.

Segundo Medeiros, realmente, alguns subtipos têm comportamento diferente à medicação, mas aparentemente não parece ser o caso do L. "Ele faz parte do tipo 1 do vírus, que é justamente a base para o tratamento usado hoje. Isso significa que as medidas de prevenção e tratamento continuam as mesmas".

O método mais recomendado de prevenção é o uso de preservativos (masculino ou feminino) durante as relações sexuais. Com o avanço da medicina, ainda há a possibilidade de intervenções com antirretrovirais logo após a exposição ao vírus (PEP) ou mesmo de forma preventiva (PreP), voltada para grupo de pessoas que tenham maior chance de entrar em contato com o vírus.

Além de ser transmitido por meio de relações sexuais desprotegidas, o vírus também pode ser passado pelo compartilhamento de seringas contaminadas, pela transmissão vertical (de mãe para filho durante a gravidez, parto ou amamentação) e por meio de transfusão com sangue contaminado. Por isso é importante que todas as pessoas realizem o teste com frequência.

O que vem por aí

É provável ainda que novas mutações apareçam. "São capacidades de adaptação e mutagênese desse vírus", diz Medeiros. Segundo ela, ainda é possível que ele evolua para uma forma até menos agressiva. "Os patógenos precisam se adaptar aos seres humanos. É como o primeiro HIV encontrado, nos macacos. Nos animais, ele não é agressivo. Os bichos podem passar a vida inteira com o vírus em latência".

Foi o que aconteceu com o vírus da herpes, que consegue viver no corpo pelo resto da vida sem demonstrar agressividade ao organismo. Mas até chegar a esse estágio, demora. "Pelo que sabemos, geralmente o vírus leva um século para um adaptação mais razoável e menos agressiva. Os da herpes, por exemplo, estão há mais de cem milhões de anos em mutação".

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