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Fobia social: quando até dizer oi é difícil

A fobia social, ainda vista como uma "fraqueza moral", afeta 13% da população e pode gerar dependência química e problemas cardíacos - ljubaphoto/iStock
A fobia social, ainda vista como uma "fraqueza moral", afeta 13% da população e pode gerar dependência química e problemas cardíacos Imagem: ljubaphoto/iStock

Nicola Ferreira

Da Agência Einstein

11/12/2019 11h46

"Já deixei de ir em aniversário de amiga. Comecei a ficar incomodado pelo fato de ser em uma balada e ter muita gente que eu não conhecia. Contudo, já tinha confirmado minha presença. Quando chegou o dia, estava prestes a entrar no carro quando comecei a hiperventilar e a chorar. Avisei minha amiga, mas mesmo ela sendo super compreensiva continuei chorando por um tempo."

A história do estudante, R.S, 20 anos, é parecida com a de muitas outras pessoas que sofrem com fobia social. Geralmente confundida com ansiedade ou timidez um pouco acima da conta, a fobia, conhecida entre os médicos como Transtorno de Ansiedade Social, é decorrente principalmente de agravamentos de medos criados na infância e adolescência: 75% dos casos de fobia social em adultos teve início no período da adolescência.

"É comum que muitos pacientes tenham sofrido restrições dos pais, como não deixar que a criança frequentasse festas dos amigos de escola", explica o psiquiatra Márcio Bernik, professor da Universidade de São Paulo. Além do desenvolvimento solitário que atrapalha essas crianças, suas poucas experiências sociais podem ter sido traumatizantes (presenciar casos de violência doméstica e/ou sofreram regularmente com bullying), gerando maior reclusão.

O medo dos outros

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a Fobia Social como o medo de ser observado por outros, levando a pessoa a evitar situações sociais. Quando a timidez impede o indivíduo de manter o convívio com os amigos, de ir à escola ou até de sair de casa, é fobia e precisa ser tratada. Isso é o que diferencia a timidez da doença. Atualmente a condição afeta 13% da população mundial. De acordo com a Royal College of Psychiatrists, do Reino Unido, as mulheres têm duas e três vezes mais chances de desenvolver o transtorno.

Seu diagnóstico está associado à presença de três aspectos: sofrimento, incapacitação e desvantagens. A angústia é observada quando a pessoa sofre de forma excessiva para fazer uma atividade cotidiana, a incapacidade está associada principalmente a não conseguir falar em público e as desvantagens se mostram quando o medo atrapalha em seu desenvolvimento pessoal. "Para ser diagnosticado com o transtorno é necessário ter pelo menos um desses sintomas, caso tenha mais de um o grau aumenta", explica o psiquiatra Bernik.

R.S, o estudante que não conseguiu ir à festa da amiga, não sabe em que momento desenvolveu a fobia. O universitário só começou a perceber que algo não estava correto quando notou que tinha dificuldade para fortalecer amizades e relacionamentos amorosos.

Ainda há muito preconceito em relação ao transtorno, como boa parte das doenças psicológicas, a Fobia social é tratada com desprezo ou até mesmo como uma "fraqueza moral". O desapreço pela condição da pessoa é responsável direto pelo sofrimento e principalmente pelo agravamento de inúmeros casos.

Consequências

A solidão, resultante da fobia social, permite o desenvolvimento de diversas doenças e vícios. Várias pesquisas comprovaram que cerca de 70% dos portadores têm chances mais elevadas de desenvolverem depressão, crise de pânico e distimia (mudança de humor caracterizada por problemas cognitivos e físicos presentes na depressão, em menor intensidade, porém mais prolongados). É comum também que os pacientes sofram com problemas cardiovasculares agravados pelo alto nível de estresse em que vivem. E muitos evitam entrar em contato com médicos.

Além das doenças, outra consequência muito comum em pessoas que possuem essa fobia é o vício em álcool e drogas. Muitas vezes, o consumo dessas substâncias funciona como um antídoto temporário contra a fobia e o paciente acaba recorrendo a elas em busca de alívio.

As consequências sociais são dramáticas. É comum que os portadores tenham dificuldades para permanecer nos estudos e no mercado de trabalho. Pesquisadores alemães constataram que o desemprego atinge três vezes mais pessoas que têm fobia social. O resultado é atribuído à baixa performance que geralmente essas pessoas apresentam.

Tratamentos

As medidas mais recomendadas por psiquiatras é o tratamento psicoterápico acompanhado de medicamentos. Existem quatro modelos mais seguidos pelos psiquiatras:

Treinamentos de habilidades sociais: O tratamento se baseia no uso de técnicas que ensinam os portadores a desenvolverem habilidades verbais e não verbais necessárias à convivência social.

Terapia de exposição (comportamento): Esse formato se baseia na premissa de que expor a pessoa a situações que lhe causam desconforto de forma repetida pode reduzir os sintomas. Pesquisas indicam que para o tratamento ter efeito prático, é necessário ser repetido muitas vezes.

Terapia cognitiva: Busca corrigir os pensamentos irracionais que contribuem para o desenvolvimento da fobia. Ela está solidificada no conceito de fazer com que a pessoa, juntamente com seu médico e psicoterapeuta, análise aspectos que atrapalham a pessoa e trabalharem em conjunto para modificar esse estado.

TCC (Terapia cognitiva e comportamental): A forma mais estudada e utilizada por psiquiatras, a TCC mistura conceitos da terapia de exposição com a cognitiva. Usando métodos de restruturação cognitiva (exercícios que façam a pessoa ter conhecimento dos seus pensamentos) e exposição a situações problemáticas. Pesquisas já comprovaram que essa metodologia é mais efetiva que tratamentos farmacológicos, apresentando menor quadro de reincidência.

Cerca de 70% das pessoas apresentam melhora importante no quadro. Outros 30%, apenas melhora parcial. Mas elas tendem a se perpetuar.

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