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Estudo acha biomarcadores da psicopatia. Dá para reconhecer um psicopata?

Psicopatas são conhecidos por serem sedutores e perigosos - iStock
Psicopatas são conhecidos por serem sedutores e perigosos Imagem: iStock

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

05/09/2019 04h00

A análise biomarcadores pode ajudar os médicos a criar novos medicamentos para tratar a psicopatia, considerada uma forma extrema do transtorno de personalidade antissocial.

Em um novo estudo, publicado no final de agosto no periódico Molecular Psychiatry, do grupo Nature, cientistas da University of Eastern Finland, da University of Helsinki e do Karolinska Institutet na Suécia compararam células-tronco de psicopatas violentos e de pessoas normais para analisar a expressão de alguns genes e algumas proteínas associados ao transtorno no cérebro de psicopatas violentos.

O resultado mostrou que a psicopatia está associada a alterações importantes na expressão de alguns genes e nas vias moleculares relacionas à resposta imune do organismo. A expressão desses genes explicou entre 30% e 92% na variação de sintomas da psicopatia. O transtorno também foi associado à expressão alterada de proteínas relacionadas ao metabolismo da glucose e do sistema opioide, presente no sistema nervoso humano.

Com essa descoberta, os cientistas acreditam que o uso por longos períodos de medicamentos como naltrexone ou buphrenorphine, que regulam o sistema opioide, podem ser um tratamento com bons resultados para quem sofre do transtorno.

Entre o medo e a sedução

Por ser pouco compreendida, é comum que a psicopatia desperte sentimentos contraditórios como medo e curiosidade. Não à toa, muitas novelas tentaram explorar algumas características desse tipo de personalidade em seus vilões. É o caso, por exemplo, de Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), de Senhora do Destino (2004); ou Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008), ambas exibidas pela Rede Globo.

Mais recentemente, o folhetim A Dona do Pedaço (da mesma emissora) levantou novamente a bola ao tratar da suposta psicopatia de Josiane (Agatha Moreira), filha da protagonista Maria da Paz (Juliana Paes). A menina se une ao padrasto Régis (Reynaldo Gianecchini), que também é seu amante, para roubar a fortuna da mãe.

Embora seja um diagnóstico difícil, ao agir de maneira fria e sem escrúpulos, seu comportamento foi imediatamente associado à psicopatia por alguns personagens da trama.

De acordo com a descrição do DSM-V (5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria) —considerado livro de referência da psiquiatria mundial, como uma das faces do transtorno de personalidade antissocial — esses indivíduos se caracterizam por serem frios, não sentir compaixão ou remorso, agir em causa própria e, principalmente, serem incapazes de sentir empatia. No entanto, são extremamente sedutores e envolventes, copiando atitudes que consideram aceitáveis e admiradas para conseguir o que desejam.

De acordo com o neurologista e neuropsiquiatra Ricardo de Oliveira Souza, pesquisador do IDOR (Instituto D'Or de pesquisa e Ensino) que se dedica principalmente a estudar o tema, entre 1% e 3% da população parece conviver com o transtorno. "Ele também é mais frequente em homens do que em mulheres", diz o especialista.

Segundo ele, o transtorno de personalidade antissocial descreve de forma geral a sociopatia —um termo mais abrangente que inclui indivíduos capazes de atos antissociais durante a vida. "Mentir para conseguir algo, gastar demais sem medir as consequências e agir de forma impulsiva, mas sem necessariamente para prejudicar alguém e sim para ganhar algo para si, são características de sociopatas", explica o médico.

Os psicopatas, por outro lado, vão além e são um tipo "melhorado" dos sociopatas, já que praticam atos antissociais não apenas em seu próprio benefício, mas também pelo prazer em cometer uma maldade. "Eles são incapazes de sentir remorso ou compaixão, então cometem transgressões pelo prazer em ver a dor do outro", diz.

Dá para reconhecer um psicopata?

Na década de 1970, o psicólogo canadense Robert Hare foi um dos primeiros a estudar a psicopatia em presídios de alta periculosidade —locais que costumam ter uma concentração mais alta de pessoas com esse perfil. Seus estudos resultaram em uma lista chamada "Lista de Verificação de Psicopatia" (ou Psychopathy Checklist) com 20 itens que podem ser pontuados de 0 a 2. Quando o indivíduo atinge uma pontuação maior que 30, o diagnóstico de psicopatia é estabelecido.

Mesmo assim, ainda hoje o diagnóstico de psicopatia não é fácil de ser alcançado. "Algumas características são bastante evidentes, mas outras são mascaradas", explica Antônio de Pádua Serafim, coordenador de psicologia do Núcleo Forense do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). "Eles são mestres em se adaptar à realidade do ambiente em que vivem para conseguir o que querem", diz. Por isso, estudos com biomarcadores podem ser um diferencial nesse diagnóstico.

De acordo com o especialista, algumas características, quando aparecem de forma constante, são indícios do transtorno. Ausência de remorso e empatia, tendência a manipular tudo e todos para benefício próprio, dificuldade de manter uma rotina, egocentrismo, impulsividade e gosto por comportamentos arriscados são indícios de que algo pode estar errado.

Isso quer dizer então que, se meu parceiro me manipula diariamente ou se meu chefe é frio e calculista com a equipe, então eles são psicopatas? Nem sempre. "Algumas pessoas são mais frias, outras são menos empáticas, mas esses são traços de uma personalidade", explica Serafim. "A psicopatia só é constatada quando esses traços são constantes e, mesmo assim, o diagnóstico só pode ser feito por um médico especializado", reforça.

Mas todo psicopata é um assassino?

Felizmente, a maioria dos psicopatas não se torna violento ao ponto de cometer crimes bárbaros. "Há mais psicopatas assassinos no cinema do que na vida real", diz Souza. "No entanto, a letalidade deles é altíssima".

Alguns dos casos mais chocantes vieram dos Estados Unidos. Além de Teddy Bundy, um famoso psicopata que aterrorizou jovens americanas na década de 1970, Charles Manson, líder de um grupo que matou cinco pessoas, incluindo a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses quando foi assassinada, é frequentemente lembrado como um exemplo de quão eficientes esses predadores podem ser.

Tem tratamento?

Dificilmente. Egocêntricos, eles simplesmente acreditam que não precisam de ajuda e, por isso, não se adaptam ao uso de medicamentos nem querem frequentar as terapias comportamentais.

Por outro lado, de acordo com Souza, já existem grupos americanos e canadenses formados para investigar se é possível modificar o comportamento antissocial para tornar esses indivíduos mais ajustados à sociedade —mesmo que, internamente, eles continuem sendo frios.

Dá para conviver?

É praticamente impossível conviver com um psicopata sem sair machucado — emocionalmente e, muitas vezes, fisicamente. "A dinâmica social deles é diferente da nossa", acredita Serafim. "A relação com os filhos, quando existem, é distante, por exemplo. Não existe troca afetiva, só interesse próprio", explica.

Além disso, por serem extremamente egocêntricos, eles não compreendem nossos sentimentos. "Psicopatas são seres funcionais. Eles se adaptam à sociedade, mas não pertencem ao grupo", afirma o especialista.

De fato, um estudo feito por cientistas da Universidade de Chicago mostrou que pacientes com traços de psicopatia tiveram dificuldade em decifrar expressões faciais ligadas à tristeza e ao medo. "A relação com eles é destrutiva e, em algum ponto, o choque dessa realidade é inevitável", afirma Serafim.

Psicopatia x narcisismo

Igualmente considerado um transtorno de personalidade antissocial, o transtorno de personalidade narcisista tem algumas características em comum com a psicopatia, como a ausência de empatia. Contudo, os narcisistas julgam-se superiores e especiais, exigindo de todos atenção e admiração. Como nem sempre recebem tudo aquilo que acham merecer, acabam frustrados e podem se tornar agressivos.

"Como as características que o tornam especial só existem na cabeça dele, o narcisista logo é 'desmascarado' e enxerga isso como perseguição, injustiça e má vontade das pessoas ao seu redor", explica Souza.

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