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Zona de conforto nem sempre é confortável: aprenda a reconhecer e sair dela

A zona de conforto parece um lugar fácil de estar, mas nem sempre se está feliz nela - iStock
A zona de conforto parece um lugar fácil de estar, mas nem sempre se está feliz nela Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

19/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A zona de conforto não é boa ou má, é apenas uma situação a qual você está acostumado. Mas nem tudo que parece confortável é cômodo
  • Se a pessoa precisa sair de uma situação e se sente paralisada, é hora de enfrentar e tomar atitudes para sair dela
  • Sair dessa zona de conforto pode exigir muita determinação e tempo, é importante observar a situação, pensar em metas e tomar atitudes para mudanças

A expressão 'zona de conforto' nunca esteve tão em evidência. Sempre que se fala em enfrentamento e superação lá vem a importância em sair da zona de conforto. Mas afinal o que significa esse termo? "É a capacidade para lidar com um tipo de situação de maneira natural e automática", define o psicólogo Ricardo Wainer, psicoterapeuta cognitivo-comportamental e professor titular do Curso de Psicologia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica Rio Grande do Sul).

Portanto, a zona de conforto não é boa ou má, mas uma tendência natural do funcionamento psicológico humano em economizar recursos (de todas as ordens: físico, cognitivo e/ou emocional) criando comportamentos rotineiros. No entanto, nem tudo que é confortável é também cômodo e, é justamente nesse caso, que a tal zona de conforto pode se tornar um problema.

Se a pessoa precisa sair de uma situação ou resolvê-la, mas se sente paralisada, é hora de ressignificar essa falsa percepção de que está em um porto seguro Denise Pará Diniz, psicóloga comportamental e coordenadora do setor de gerenciamento de estresse e qualidade de vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

Tá ruim, mas tá bom

Talvez, essa seja a melhor forma de definir o sentimento de alerta quando a zona de conforto precisa ser reavaliada. E isso pode acontecer, por exemplo, quando ela não está totalmente de acordo com os valores pessoais do sujeito, que desejaria que suas ações resultassem em diferentes desfechos do que vem obtendo.

Um exemplo: a pessoa pode estar numa zona de conforto no relacionamento afetivo e, isso ser positivo, na medida em que o modo de operar junto ao parceiro atinge os objetivos e desejos que realmente almeja. Por outro lado, se esse relacionamento resulta em consequências diferentes, ou até opostas, ao que considera uma união saudável/positiva, a zona de conforto deveria ser ultrapassada.

E essa exemplificação pode ser estendida para qualquer outro cenário da vida: profissional, acadêmico, físico, financeiros, entre outros. "Muitas vezes, ficamos estáticos por muito tempo numa zona de conforto prejudicial. E isso pode ocorrer quando os esquemas mentais desadaptativos (conjunto de crenças, expectativas, atitudes e pressupostos de vida) levam a agir dentro de uma zona de conforto que promove resultados pobres ou desagradáveis", explica Wainer.

Na prática, podemos naturalizar alguns comportamentos mesmo que estejam nos trazendo incômodo e sofrimento. E isso acontece porque a zona de conforto vai ao encontro de crenças de fracasso e/ou de defeito/vergonha. E fica sempre mais difícil sair dela quando não conseguimos acreditar que há algo melhor/maior/mais significativo mais à frente.

Por que tanta resistência?

Sair dessa zona de conforto pode exigir muita determinação e tempo. Pois, enquanto o funcionamento dentro da zona de conforto está gerando resultados satisfatórios/aceitáveis, o organismo busca se manter nessa condição de equilíbrio.

Isso porque o ser humano tende a ter uma enorme aversão a qualquer tipo de risco, preferindo, por vezes, deixar de ganhar muito desde que não perca nada. "Percebe-se que ousar modos diferentes de agir, invariavelmente, gerará alguns níveis de apreensão e ansiedade, além de exigir o desenvolvimento de novas habilidades/aprendizagens para que se mude de dimensão", informa Wainer.

E é justamente isso que gera tanta resistência. Por isso, adiamos tanto colocar um ponto final em um relacionamento ruim ou pedir demissão daquele emprego que tanto nos faz mal. "A pessoa deseja o movimento, porém fica estagnada e isso vai gerando um conflito", diz Diniz. Aquela situação não faz bem, mas a pessoa funciona dessa maneira embora não esteja satisfeita. E por se sentir insegura em experimentar algo novo, vai empurrando com a barriga.

É preciso enfrentar e se motivar

Pois é, existem situações que precisam ser enfrentadas e superadas. Mas, para isso, é fundamental dar o primeiro passo. Portanto, é crucial perceber se a situação atual está em descompasso com os valores que a pessoa almeja para que sua vida tenha significado. E a melhor maneira de iniciar este movimento, é estabelecer o que realmente deseja e abandonar rotinas que estejam levando aos resultados opostos.

E aqui, Denise Para Diniz dá três passos essenciais para enfrentar esse processo:

  • Observar - a pessoa está muito tempo sem algo novo, com comportamentos rotineiros e se queixando regulamente.
  • Ter uma meta - o primeiro passo pode parecer difícil, mas já é um movimento. Defina uma meta e comece, pois a cada passo o estresse diminui. É importante ampliar sua capacidade de análise e perceber que tem condições de ter coisas melhores.
  • Agir - desenvolver a iniciativa, ter mais flexibilidade e competência para expandir seus próprios limites. E realizar um registro interno dessa mudança que não é ameaçadora, mas será essencial para resolver algo que está ruim.

Antes de mais nada, é importante ter humildade para reconhecer que do jeito que está não está bom. A partir disso, é preciso a coragem de acreditar no propósito e perceber que não quer mais fugir da mudança. "Buscar ajuda profissional sempre é uma ótima ferramenta. De um lado, a ajuda pode ensinar caminhos/habilidades para este novo desafio, por outro lado, funciona como o motivador durante o processo que, às vezes, pode ser longo", finaliza Wainer.

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