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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Você tem dificuldade de tomar decisões? Saiba como não sofrer

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Imagem: iStock

Sibele Oliveira

Colaboração para o UOL VivaBem

18/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A dificuldade de tomar decisões muitas vezes surge na infância e está relacionada ao medo de errar e ser ridicularizado
  • Quanto mais escolhas equivocadas fazemos, mais medo temos de errar. E vice-versa
  • O nosso cérebro se baseia na razão, emoção e instintos para nos oferecer soluções
  • Indecisão demais pode causar doenças. Às vezes é necessário fazer psicoterapia e tomar medicamentos para acabar com o problema

Quem nunca se sentiu num mar de dúvidas na hora de tomar uma decisão? Escolher uma profissão, a pessoa certa para casar, ter filhos cedo ou só depois de crescer na carreira, trocar ou não de emprego, abrir uma empresa ou fazer a viagem dos sonhos. É normal sentir insegurança antes de bater o martelo para algo que pode mudar a rota da vida. Além disso, não é fácil chegar à conclusão de que uma opção é a melhor entre duas ou entre muitas. Principalmente porque existe a possibilidade de se arrepender.

Mas não é só de decisões importantes que a vida é feita. Muitas são rotineiras como a roupa que vamos vestir, a comida que faremos no jantar, ler um livro ou ver uma série na televisão, sair ou ficar em casa no fim de semana. Embora a maioria de nós tire de letra essas pequenas escolhas do dia a dia, há quem se sinta dividido entre elas. Hélio Deliberador, professor de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), elenca alguns motivos para isso: insegurança, excesso de perfeccionismo e hábito de procrastinar.

Nossas decisões de cada dia são tomadas de forma particular. "As pessoas dão conotações mais positivas ou negativas para certas situações e isso facilita ou dificulta o processo de decisão", segundo Deliberador.

Acabe com as dúvidas

Nem sempre existe certo e errado na hora de tomar uma decisão. Muitas vezes são apenas possibilidades que podem nos levar para diferentes caminhos. Ainda assim, errar é o maior temor de muitas pessoas e por esse motivo elas relutam em arriscar. Mas não deveriam porque essa é uma das melhores formas de vencer a indefinição. "Arriscar pode ser um modo de enfrentar o medo da escolha. Não é fácil porque significa ganhar ou perder, acertar ou errar. Mas é importante aprender lidar com os erros", garante a psicóloga Roberta Pohl.

Nessas horas vale fazer psicoterapia, ouvir a opinião de especialistas e pedir conselho para pessoas próximas, mesmo sabendo que a decisão final será sua. Também ajuda tentar lembrar como e quando essa dificuldade começou, identificar medos e tentar se enxergar fora da situação. Assim como avaliar os prós e contras da escolha, imaginar as possíveis consequências e se perguntar se está disposto a enfrentá-las - se possível anotar tudo isso - fazer pesquisas e até recorrer à fé.

Esse balanço serve para decidir de forma mais consciente. "Geralmente as decisões que fazem a gente estar mais perto de onde se sente feliz são as mais acertadas", acredita Fernando Gomes, neurocientista e chefe do Grupo de Hidrodinâmica Cerebral do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas do Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). E continua. "Nem sempre uma decisão é racional e nem sempre ela precisa ter uma explicação 100% clara. Basta ser autêntica e a gente assumir o risco de que ela pode ou não ser boa". Pode até dar errado, mas é uma maneira de voltar a ter paz.

Quando decidir se torna difícil?

Mas em que momento da vida desenvolvemos um olhar positivo ou negativo sobre as decisões? É preciso voltar no tempo para encontrar a resposta, diz Pohl. "A tomada de decisão é um processo de aprendizagem que começa na infância com os pais deixando os filhos decidirem ou não".

Ou seja, crianças incentivadas pelos pais a escolherem roupas, brinquedos e amigos serão adultos mais decididos. Já as que sofrem punições quando escolhem algo têm grandes chances de levar medo e insegurança para o resto da vida. Mas nem tudo deve ser colocado na conta da infância. As decisões malsucedidas que tomamos no decorrer da vida também contribuem para essa sensação de incapacidade. "Se a pessoa julga que sempre faz escolhas ruins, a tendência é que ela não queira assumir essa responsabilidade", acrescenta Pohl.

Edmund Fantino, professor de psicologia que faleceu anos atrás e foi um dos maiores especialistas do mundo no assunto, corroborava a ideia de que as escolhas são baseadas no passado. "Nossas decisões são determinadas pelas experiências anteriores que tivemos em situações similares e pela eficácia dos estímulos discriminativos e outros sinais contextuais presentes no ambiente de decisão". Quando essas experiências são negativas, elas reforçam o medo de errar, de ser julgado e ridicularizado, e trazem consigo uma boa dose de ansiedade.

O que acontece no cérebro quando fazemos escolhas

Para entender o universo das decisões, é importante saber o que se passa no cérebro no momento em que elas acontecem. "Os neurônios que estão relacionados com uma determinada resposta começam a acontecer 300 milissegundos antes inclusive de termos consciência da decisão que vamos tomar", ensina Gomes. Ele explica esse processo a partir do cérebro triúnico.

Dito de uma forma simples, é como se o órgão fosse dividido em três andares. O cérebro reptiliano é o responsável por escolhas instintivas, como fugir de um bandido ou entrar no primeiro restaurante que encontramos quando estamos com fome. Já o cérebro emocional nos faz tomar decisões que estimulam o circuito cerebral do prazer. É o que acontece com quem compra produtos não por necessidade, mas pela sensação bem-estar e prazer proporcionada pelo ato de comprar. Por último, o cérebro racional é o que nos leva a ter decisões ponderadas, como fazem os juízes.

Além de instinto, razão e emoção, diferenças genéticas e hormônios têm influência nas nossas escolhas. Quando o sol nasce, por exemplo, ocorre uma liberação de cortisol (hormônio do estresse), o que nos leva a tomar decisões mais criteriosas. Já nos momentos que antecedem o almoço é liberada grelina (hormônio da fome), que pode comprometer boas escolhas. O mesmo acontece após o almoço quando estamos em processo de digestão. Gomes afirma que os melhores momentos para tomar decisões são as primeiras horas da manhã e o intervalo entre mais ou menos 15h e 17h.

Algumas escolhas que fazemos são quase automáticas, outras exigem mais reflexão. Isso varia de pessoa para pessoa e das possibilidades disponíveis. Quem nunca teve um carro e não tem dinheiro sobrando encontra mais dificuldade na hora de decidir comprar um do que quem vive trocando automóveis. Ou escolher um parceiro amoroso em uma cidade pequena pode ser mais fácil do que em uma grande metrópole porque há menos opções. Seja como for, o cérebro trabalha para apontar sempre a melhor decisão.

Esperar faz a gente ter mais certeza?

Pensar bastante sobre o assunto pode ser uma maneira de amadurecer a decisão e não agir precipitadamente. "Não significa que decisões rápidas são melhores. A pessoa pode ser impulsiva e não ter um filtro racional que a gente chama de controle inibitório. As que invocam muito o controle inibitório passam mais tempo imaginando uma solução antes do veredito final", afirma Gomes. Esse mecanismo é útil para evitarmos palavras que magoem outras pessoas ou fazer compras por impulso, por exemplo.

No entanto, deixar passar muito tempo pode sinalizar uma inabilidade de decidir. "O adiamento dificulta porque aumenta a insegurança, a ansiedade e o sofrimento", enfatiza Deliberador. Demorar demais para tomar uma decisão também é ruim porque pode nos fazer perder oportunidades. É o que acontece quando pensamos demais se devemos comprar uma casa, aparece outro cliente e a compra.

Indecisão faz mal

Ficar com os pensamentos às voltas com uma escolha nos prende a ela. "Muitas vezes a pessoa fica fechada. Não se expõe por uma série de fantasias e avaliações que ela faz da sua própria incapacidade", fala Deliberador. Como a mente se ocupa muito com aquele assunto, o desempenho em outras atividades pode ser comprometido. Gomes diz que pensamentos recorrentes geralmente estão associados a baixos níveis de serotonina, como acontece em pessoas que têm depressão. Por isso, às vezes é necessário tomar medicamentos.

Não é só ansiedade que esse impasse causa. Há um aumento de estresse, que libera hormônios como cortisol e adrenalina em quantidades elevadas. Quando isso acontece, o corpo pode adoecer. O neurocientista afirma que são comuns dores de cabeça, gastrite e insônia. O sistema imunológico também pode ficar debilitado e suscetível a infecções.