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Médicos usam nova abordagem para tratar a hipocondria

Cerca de 5% dos pacientes que vão ao médico acreditam que têm doenças graves não diagnosticadas quando nada é encontrado. Essa ansiedade persistente se torna uma doença - Chiara Zarmati/The New York Times
Cerca de 5% dos pacientes que vão ao médico acreditam que têm doenças graves não diagnosticadas quando nada é encontrado. Essa ansiedade persistente se torna uma doença Imagem: Chiara Zarmati/The New York Times

Jane E. Brody

The New York Times

20/06/2018 16h33

Na primavera, quando todas as árvores do Brooklyn pareciam estar espalhando pólen ao mesmo tempo, comecei a ter uma torturante coceira na garganta com espasmos frequentes de tosse que dificultavam caminhar ou andar. Atribuí o problema a alergias, embora nunca tivesse tido essa reação antes.

Porém, quando piorei em vez de melhorar após tomar anti-histamínicos e após dias de chuva terem supostamente limpado o ar, comecei a me perguntar se estava com algo mais grave – quem sabe com pneumonia atípica ou, possivelmente, com câncer na garganta após anos bebendo café quente de canudinho.

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Embora tentasse desprezar tais pensamentos que atrapalham o sono, a ansiedade quanto à minha saúde continuou pairando ao meu redor até que a tosse diminuiu e, depois, desapareceu. Contudo, o incidente me fez perceber como deve ser ter ansiedade crônica com a saúde – um problema há muito tempo chamado hipocondria, no qual as pessoas estão convencidas de ter uma doença grave não diagnosticada apesar de vários exames médicos afirmarem o contrário.

O atual manual de diagnóstico psiquiátrico abandonou a hipocondria enquanto doença, substituindo-a em 2013 por dois novos conceitos: transtorno de sintomas somáticos e transtorno de ansiedade.

O dr. Jeffrey P. Staab, especialista em medicina psicossomática e comportamental da Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, diz que foram necessárias duas décadas de pesquisa para a criação dos novos conceitos, que eliminam o foco em sintomas médicos inexplicados. Pelo contrário, os novos diagnósticos se concentram na atenção indevida a sintomas corporais e preocupações médicas excessivas, as quais, quando adequadamente explicadas, garantem um conforto para os pacientes.

"A ansiedade com a saúde e a vigilância corporal são muito mais compreensíveis aos pacientes quando eles percebem que podem ter essas coisas independentemente do que o médico detecta", afirma ele em relatório on-line publicado para profissionais de saúde. "Achamos ser muito mais fácil envolver os pacientes se identificarmos qual é o problema, em vez de descartar opções."

Em pacientes com transtorno de sintomas somáticos, os sintomas crônicos resultam em preocupação excessiva, medo e angústia de que exista algo grave, levando-os a repetir exames que raramente aliviam o temor apesar do resultado negativo. Na verdade, o resultado negativo do exame pode aumentar o temor de que seus problemas nunca serão corretamente identificados e tratados.

Cerca de cinco por cento dos pacientes que vão a consultórios médicos acreditam que têm doenças graves não diagnosticadas quando nada é encontrado. A própria ansiedade persistente se torna uma doença debilitante. Tais pacientes costumam insistir que receberam tratamento médico inadequado. Mesmo os médicos podem se perguntar se ignoraram algo que poderia explicar os sintomas.

Pacientes com transtorno da ansiedade podem – ou não – ter um problema médico genuíno, mas experimentam sensações corporais exageradas, como suor ou coração acelerado, que podem resultar em ansiedade extrema sobre a possibilidade de ter uma doença grave oculta. Eles vivem conferindo o corpo em busca de sinais de doença e dedicam tempo e energia excessivos buscando obsessivamente uma explicação para o que pode estar errado. Toda tosse é pneumonia, toda dor no peito, um infarto, toda dor de cabeça, um possível tumor cerebral ou derrame incipiente.

Com o foco quase constante em sintomas e sua convicção de que algo está seriamente errado com eles, as pessoas com esses transtornos podem ser complicadas como amigos ou parentes.

Já em outra forma de ansiedade ligada à saúde, existem pessoas que acreditam que a saúde está constantemente ameaçada por germes perigosos que espreitam em todo lugar, do ar do banheiro ao braço da poltrona do avião e à pia da cozinha. Muitas vezes chamados misófobos, eles podem usar máscaras em público, lavar as mãos dezenas de vezes por dia e borrifar cada superfície com desinfetante antes de tocá-la.

Um amigo que tem muito medo de germes insiste que meus pratos "não podem estar limpos de verdade" porque deixo meu cachorro lambê-los antes de lavá-los – e eu não uso lava-louça.

No mês passado, pesquisadores da Universidade de Connecticut e da Universidade Quinnipiac deram aos misófobos algo mais com que se preocupar: secadores de mão a ar quente em banheiros públicos, os quais podem sugar bactérias do ar e lançá-las em pessoas inocentes ao secarem "sanitariamente" as mãos.

Todavia, o foco excessivo em "comportamentos de segurança", como observaram especialistas no British Journal of Psychiatry, pode piorar o problema ao manter a atenção da pessoa focada em um possível desastre à saúde.

Na verdade, a ansiedade com a saúde pode dar início a um círculo vicioso; temores relacionados à saúde podem ser exacerbados por sintomas físicos que aparecem como resultado da ansiedade com adoecer ou estar enfermo. A própria ansiedade pode aumentar batimentos cardíacos, dor no peito, náusea e suor que os pacientes interpretam erroneamente como sinal de doença física.

Embora não exista uma causa para a ansiedade excessiva com a saúde, os peritos asseguram que ela pode afetar famílias. Quem tem um parente próximo com o problema apresenta maior probabilidade de desenvolvê-lo. Às vezes, é um efeito residual de um problema de saúde grave anterior que desencadeia um temor excessivo em voltar a adoecer.

Há muito tempo os psiquiatras acreditam que algum tipo de trauma, tragédia ou conflito antigo pode ser o principal motivador de medos e comportamentos ligados à ansiedade com a saúde, afirma Staab. "E, se não conseguimos localizá-lo, se o paciente também não consegue, a coisa pode se tornar uma busca especulativa infrutífera pelo trauma. Agora, podemos identificar tais sintomas de forma positiva e ajudar o paciente a modificá-los."

A nova abordagem do diagnóstico permite aos médicos usar uma forma mais eficaz e breve de tratar o problema sem "ficar escavando o passado", ele explica. A exemplo de outros transtornos de ansiedade, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é agora a mais recomendada para o tratamento. Muitas vezes usada por psicólogos e psiquiatras, a TCC ajuda o paciente a reconhecer as crenças e sentimentos que alimentam o problema, para depois adotar padrões de pensamento e comportamento mais saudáveis.

A TCC rompe os pensamentos irreais ou inúteis e incentiva o paciente a substituí-los por ideias mais racionais. Ele pode aprender a lidar de forma mais realista com situações que provocam ansiedade. A terapia comprovou ser eficaz ao reduzir os sintomas da ansiedade com a saúde por pelo menos um ano e, se necessário, o benefício pode ser reforçado por uma nova sessão.

Os médicos também podem se beneficiar com a nova abordagem para diagnosticar o problema, acredita Staab. "Quando não conseguíamos encontrar a causa de determinados sintomas, sempre havia o temor de que simplesmente não havíamos nos dedicado com afinco ou por tempo suficiente. Agora, podemos reconhecer que a preocupação do paciente com sintomas físicos é maior do que o normal, quer exista diagnóstico ou não."

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