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As 13 doenças prioritárias para vacinas, segundo criadora do imunizante de Oxford contra covid-19

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Imagem: Getty Images

James Gallagher - Da BBC News

20/10/2021 09h53

Dengue, chikungunya e zika estão na lista de prioridades da professora Sarah Gilbert. Financiamento para pesquisa ainda é desafio quando se trata de vacinas para doenças que atingem mais países pobres.

Na vanguarda da área de imunização global, a professora Sarah Gilbert, pesquisadora do Instituto Jenner e criadora do imunizante de Oxford contra a covid-19, acredita que o salto tecnológico feito durante a pandemia de covid-19 vai facilitar o desenvolvimento de vacinas no futuro - e ela já tem em mente uma lista de doenças prioritárias cujo enfrentamento global seria beneficiado por novos imunizantes, potencialmente prevenindo futuras epidemias ou pandemias.

No caso da covid-19, usando uma tecnologia revolucionária, a equipe de Oxford, da qual Gilbert faz parte, elaborou uma vacina para iniciar testes clínicos em apenas 65 dias desde o início dos trabalhos. Em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, mais de 1,5 bilhão de doses já foram distribuídas em todo o mundo.

A nova geração de vacinas é rápida de se fazer e altamente flexível. "É como decorar um bolo", afirma a pesquisadora.

No método clássico para desenvolver imunizantes, era necessário voltar às matérias-primas e começar do zero a cada vacina. É como iniciar uma receita de bolo com farinha, açúcar, ovos e manteiga.

O passo seguinte é pegar o vírus agressor, ou outros micróbios causadores de doenças, e matá-lo ou enfraquecê-lo para fazer a vacina.

Veja o exemplo das vacinas contra a gripe que são aplicadas sazonalmente todos os anos. A injeção para adultos é feita através do cultivo do vírus da gripe dentro de ovos. Os vírus são então purificados e mortos para formar a vacina.

Já o spray nasal para crianças contém vírus vivos, mas eles são enfraquecidos e tornados instáveis para que possam crescer nas temperaturas mais baixas do nariz, mas não no calor dos pulmões.

Mas é necessário muito trabalho para começar o processo do zero a cada nova doença, e muitas coisas podem dar errado. Você pode acabar com o equivalente no mundo das vacinas de um bolo solado.

O desenvolvimento da vacina contra o coronavírus de Oxford usou uma abordagem completamente diferente conhecida como "plug-and-play" (conecte e use, em tradução literal).

Com esse tipo de vacina, a maior parte do trabalho já foi feito ? o bolo foi assado previamente, só precisa ser "decorado" para atingir seu objetivo.

"Nós temos o bolo e podemos colocar cerejas por cima, ou colocar alguns pistaches se quisermos uma vacina diferente", exemplifica a professora Gilbert. "Apenas adicionamos a última parte e está pronto."

O "bolo" da vacina de Oxford ? ou plataforma, para usar o termo científico ? é um vírus que causa a gripe comum em chimpanzés. Ele foi geneticamente modificado para torná-lo seguro, de modo que não possa causar infecções nas pessoas.

A "decoração" é qualquer material genético necessário para treinar o sistema imunológico a atacar. Esse material é adicionado ao bolo e o trabalho está feito.

Foi esse trabalho, aplicado ao coronavírus Sars-Cov-2, que levou a professora Gilbert a receber muitos reconhecimentos, que vão desde um título de dama real, concedido pela rainha Elizabeth 2ª, até uma boneca Barbie feita à sua imagem.

A professora Sarah Gilbert - PA via Getty Images - PA via Getty Images
A professora Sarah Gilbert
Imagem: PA via Getty Images

"A Barbie está confortavelmente instalada no meu escritório, mas sim, estou pensando em enviá-la como minha substituta", brinca a cientista. "Seria útil ter uma dublê que pudesse conceder entrevistas em meu lugar."

Duas das outras principais vacinas contra a covid ­? a Pfizer-BioNTech e a Moderna ? usam outro estilo de tecnologia de vacina "plug-and-play" altamente adaptável. E todas essas tecnologias devem tornar mais rápido e fácil o desenvolvimento das vacinas do futuro.

No topo da lista de Gilbert estão 13 "patógenos prioritários". Enquanto a covid-19 pegou todos de surpresa, as doenças listadas por Gilbert são ameaças mortais bem conhecidas. Têm potencial para causar grandes surtos e podem ser as pandemias do futuro. Vacinas contra elas salvariam vidas.

A lista de Gilbert é a seguinte:

1) Mers
Vírus causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês) e membro da família dos coronavírus, surgiu em 2012 na Arábia Saudita e, desde então, já apareceu em países como Coreia do Sul, Estados Unidos, Catar, Líbano, França, Itália e Reino Unido.

2) Lassa
Vírus transmitido por animais como ratos, que provoca uma febre hemorrágica aguda. Foi primeiro descrito em 1969 na cidade de Lassa, na Nigéria, e é endêmica em países do Oeste africano como Serra Leoa, Libéria, Guiné e Nigéria.

3) Febre hemorrágica da Crimeia-Congo
Causada por um vírus transmitido aos humanos pela picada de carrapatos infectados ou pelo manuseio e preparo de animais infectados, já teve casos identificados na África, Rússia, Balcãs, Oriente Médio e Ásia.

4) Nipah
Vírus transmitido por animais como morcegos e porcos, por alimentos contaminados ou diretamente de um humano a outro, pode causar síndrome respiratória aguda e encefalite (infecção do cérebro) em fetos. Apareceu pela primeira vez na Malásia em 1999.

5) Zika
Vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti e identificado pela primeira vez em 1947, na floresta Zika, em Uganda. Um surto no Brasil em 2015 provocou diversos casos de microcefalia (malformação em que a cabeça é menor do que o esperado) em bebês.

6) Ebola
Vírus altamente infeccioso causador de febre hemorrágica, com primeiros surtos registrados em 1976 no Sudão e na República Democrática do Congo, tem morcegos frutíferos como hospedeiros.

7) Febre de Vale do Rift
Provocada por um vírus transmitido por mosquitos como o Aedes aegypti e o Culex, com surtos registrados na África e Oriente Médio.

8) Chicungunya
Vírus que provoca doença parecida com a dengue, também transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Uma vacina já está sendo desenvolvida pela farmacêutica francesa Valenva, que tem parceria com o Instituto Butantan e está em fase de ensaios clínicos.

9) Dengue
Vírus que provoca doença infecciosa febril aguda, que pode se apresentar de forma benigna ou grave, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. A vacina existente no Brasil, chamada Dengvaxia, teve sua bula alterada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2018) e é indicada apenas para as pessoas que já tiveram dengue.

10) Hantavírus
Família de vírus transmitidos pela saliva, urina e fezes de roedores que pode provocar duas condições distintas: Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), mais comum nas Américas, incluindo o Brasil; e Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), mais frequente na Europa e Ásia.

11) Peste
Doença infecciosa provocada pela bactéria Yersínia pestis, transmitida principalmente por picada de pulgas infectadas, com três possíveis manifestações clínicas: bubônica (quando afeta as glândulas linfáticas), septicêmica (quando se espalha pelo sangue) e pneumônica (quando transmitida de pessoa para pessoa por via respiratória). Também conhecida como "peste negra", "febre do rato" ou "doença do rato", ela causou a pandemia da Peste Negra, matando centenas de milhões de pessoas.

12) Marburg
Vírus considerado um "primo um pouco menos mortal do Ebola", comum em locais onde existem morcegos da espécie Rousettus, como países do sul da Ásia e da África.

13) Febre Q
Doença provocada pela bactéria Coxiella burnetii, transmitida ao homem em geral pelo contato com animais infectados como bovinos, ovinos e caprinos.

Financiamento para vacinas

Parte desse trabalho, da adaptação da "receita de bolo" para outras vacinas, já está em andamento. Oxford iniciou testes clínicos para uma vacina contra a peste usando sua tecnologia plug-and-play.

Separadamente, a Moderna já está pensando em usar sua própria tecnologia de mRNA para fazer uma vacina contra Nipah. O vírus mata até três de cada quatro infectados.

No entanto, a grande barreira para combater essas doenças será a mesma de sempre: dinheiro. Elas afetam algumas das partes mais pobres do mundo, e existe a preocupação de que, mesmo sob risco de pandemia, as pesquisas não conseguirão financiamento suficiente.

E, embora a tecnologia da vacina tenha avançado, os velhos inimigos ainda são os mesmos e alguns têm peculiaridades complicadas, que representam desafios monumentais.

Todas as vacinas precisam de um alvo ? chamado antígeno ? que treine o sistema imunológico para atacar.

Apesar de todos os problemas que a covid-19 causou, o vírus era bastante simples e o antígeno alvo era óbvio: a superfície externa do vírus é coberta por proteínas spike. Portanto, tudo o que os pesquisadores precisaram fazer foi conectar o material genético da proteína spike, treinar o corpo para reconhecê-la e ter a certeza de que a vacina iria funcionar.

No entanto, o antígeno alvo não é tão óbvio em outros micróbios mais complexos, como os três grandes assassinos ? malária, HIV e tuberculose.

O HIV é um alvo em constante movimento. É um campeão da metamorfose que muda rapidamente para alterar sua aparência e enganar nosso sistema imunológico. É difícil saber como identificá-lo.

Já temos vacinas contra a malária e a tuberculose, mas elas estão longe de ser perfeitas.

Próximo grande salto

O mundo comemorou com razão o lançamento neste mês da primeira vacina contra a malária na África, mas ela é apenas cerca de 30% eficaz na prevenção de manifestações graves da doença. Isso porque o parasita da malária tem um ciclo de vida complexo, durante o qual ele sofre mutações para uma variedade de formas.

Uma bactéria da tuberculose também é muito mais complexa do que um coronavírus.

Há uma longa lista de antígenos para escolher no caso da tuberculose e da malária, e encontrar o certo tem se mostrado uma tarefa frustrante.

"Há uma gama muito grande de opções e não é óbvio qual devemos usar", diz Gilbert. "Está demorando muito para encontrar o antígeno certo, então é muito mais difícil. Eles são muito mais complicados do que esses patógenos de surtos, que são vírus bastante simples."

No entanto, a BioNTech está usando sua tecnologia para tentar desenvolver uma vacina contra o HIV.

Então, se o plug-and-play foi a revolução comprovada durante a pandemia, o que vem por aí?

"Acredito que o próximo grande salto em vacinas, em vez de (criarem-se) tecnologias totalmente novas, é tornar as tecnologias que temos mais estáveis. Isso será ótimo", diz Gilbert.

As vacinas são meio como bolos de sorvete ? elas precisam ser mantidas na temperatura certa desde o momento em que são feitas até a hora em que são aplicadas.

Isso significa que há uma rede global de freezers, geladeiras, caixas frias e assim por diante, conhecida como cadeia de frio. Mas é difícil levar vacinas para algumas das partes mais remotas e pobres do mundo, especialmente onde não há eletricidade.

A pesquisadora também diz que seria muito bom se pudéssemos obter vacinas que dispensem agulhas e injeções - já que, no caso de algumas infecções pulmonares (como a própria covid-19) é possível obter uma resposta imunológica melhor se administrarmos os imunizantes na forma de spray.

"Como é (o pulmão) para onde o próprio vírus normalmente iria, é diferente se você tiver uma infecção transmitida pelo sangue, como a dengue", pondera a especialista. "Mas isso (a transição para um spray) é algo que não podemos fazer muito rapidamente, há muitos testes de vacinas a serem feitos."

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