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Piora da alimentação na pandemia deixa população mais vulnerável à covid-19, diz ex-chefe da FAO

Getty Images
Imagem: Getty Images

João Fellet

16/05/2020 15h32

Para José Graziano, que chefiou a agência da ONU para Agricultura e Alimentação entre 2012 e 2019, preferência por comidas industrializadas durante a pandemia pode ampliar índices de obesidade, um dos principais agravantes da covid-19.

Encorajadas a ficar em casa para não se expor ao novo coronavírus, muitas famílias têm preferido comprar alimentos industrializados, que duram mais tempo na despensa.

O problema é que a opção por esses itens - que tendem a ser mais calóricos e menos nutritivos que comidas frescas - pode no médio prazo acabar deixando seus consumidores mais vulneráveis a adoecer gravemente pela covid-19.

O alerta é do agrônomo brasileiro José Graziano da Silva, que chefiou a agência da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) entre 2012 e 2019.

Em entrevista à BBC News Brasil, Graziano lembra que a obesidade, doença muitas vezes provocada pela má alimentação, é considerada um dos principais agravantes da covid-19.

O grande número de mortos pela doença nos EUA, onde 42% da população é obesa, reforça a tese. Muitos hospitais americanos têm relatado que grande parte dos adultos internados por covid-19 tem problemas de sobrepeso.

Graziano diz ainda que a maior procura por alimentos industrializados em supermercados tem prejudicado pequenos agricultores, muitos deles dependentes de feiras livres. Com o menor movimento nesses espaços, vários pequenos produtores temem não conseguir manter as atividades e começaram a descartar frutas, verduras e legumes.

"Precisamos valorizar circuitos locais de produção e consumo", defende.

Hoje consultor do Instituto Comida do Amanhã, Graziano tem passado a quarentena em sua fazenda no interior de São Paulo.

Entre 2003 e 2004, ele foi ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome no governo Lula, quando ajudou a implantar o Programa Fome Zero.

Formado em Agronomia pela USP, é doutor em Economia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde foi professor, e pós-doutor pela Universidade de Londres e pela Universidade da Califórnia-Santa Cruz.

Na entrevista à BBC News Brasil, Graziano criticou ainda mudanças feitas pelo governo Jair Bolsonaro nas políticas de segurança alimentar e disse que "há uma desorganização completa na resposta" dos órgãos federais aos desafios atuais no setor.

Em resposta às críticas, o Ministério da Cidadania enumerou iniciativas para apoiar a agricultura familiar e cidadãos mais pobres durante a pandemia (veja a nota do órgão ao fim do texto).

Confira os principais trechos da entrevista.

O diretor-executivo do Programa de Alimentação da ONU disse em abril que, por causa do novo coronavírus, o número de pessoas sob risco de morrer de fome pode passar de 130 milhões para 265 milhões. Como combater o problema?

José Graziano - Implementando políticas de segurança alimentar. Não apenas para quem está passando fome, mas também para quem está ameaçado de passar e quem sofre de malnutrição de forma geral.

Temos um número ainda maior de pessoas obesas, 804 milhões, e a obesidade é um dos elementos que podem agravar a covid-19. Pessoas com menos de 60 anos obesas têm probabilidade de morte bem maior que as não obesas.

O sr. poderia citar exemplos de políticas de segurança alimentar que poderiam ser aplicadas em escala global? Os países mais pobres têm condições de implementá-las sozinhos?

Graziano - Os melhores exemplos são a merenda escolar comprada localmente de agricultores familiares, e o Programa de Aquisição de Alimentos em sua versão de compra com doação simultânea dos alimentos a pessoas em situação de risco alimentar.

É difícil que esses programas possam ser implementados pelos países mais pobres, porque não há apenas a questão dos recursos financeiros que eles demandam, mas principalmente da infraestrutura que precisa ter na área das políticas de segurança alimentar.

Implementar uma compra local para merenda escolar, por exemplo, faz supor que haja uma rede de escolas que tenham pelo menos uma cozinha ou um local que possa preparar seus produtos. E essa situação é muito distante da realidade da maioria dos países africanos, por exemplo.

O sr. elogia as políticas de segurança alimentar adotadas no Brasil nas últimas décadas. Porém, uma pesquisa do Ministério da Saúde apontou que o número de obesos no país aumentou 67,8% entre 2006 e 2018. Houve falhas nessas políticas? O que precisa melhorar?

Graziano - Sem dúvida há muito a melhorar. A dimensão da obesidade foi negligenciada no primeiro momento do Fome Zero, em 2002. A preocupação era tanta em fornecer comida que não se perguntou sobre a qualidade dessa comida. Só depois é que passamos a dar prioridade às compras da agricultura familiar para merenda escolar, por exemplo. Essa lei é bastante posterior ao início do programa Fome Zero.

Mas o problema da obesidade tem muito a ver com as inovações da indústria alimentícia. A rapidez com que a indústria consegue produzir novos alimentos ultraprocessados vai muito além da capacidade do poder público de regulamentar essa matéria.

O que acho que falta é uma regulamentação mais ágil, principalmente da Anvisa e dos mecanismos de defesa do consumidor, tipo Procon, para rotulagem dos produtos e para evitar que a população continue a ser literalmente enganada pela propaganda que é feita de produtos alimentícios.

Quais os riscos de faltar alimento no Brasil durante a pandemia? Estamos em situação melhor ou pior que países de outras regiões?

Graziano - O Brasil é um tradicional exportador de alimentos. Não vejo risco iminente de faltar alimentos, ainda mais porque estamos entrando em plena safra. A não ser uma falta localizada, por algum corte de rota, ou problema de logística de abastecimento de cidades aqui ou ali.

Estamos em situação muito melhor que outros países que dependem de importação de alimentos, como a maioria dos países africanos. Esses, sim, têm risco de crise alimentar grave.

Em muitos países, a covid-19 reforçou posturas nacionalistas. Fronteiras foram fechadas, e a exportação de produtos médicos foi restringida. Há o risco de que essas ações restritivas se estendam para o comércio de alimentos? Como isso impactaria o Brasil?

Graziano - Se isso acontecer, aí sim corremos o risco de uma crise alimentar global. Foi o que houve no pico de preços em 2008 e 2010. Muitos países, como a Argentina e a Austrália, que foram afetadas por uma seca, restringiram a exportação de grãos.

Isso provocou uma alta desenfreada dos preços e uma corrida pra comprar. Desregulou completamente o mercado internacional.

Não vejo que a situação seja a mesma, porque na época os estoques mundiais estavam justos. Hoje estão folgados. Mas é sempre uma possibilidade se houver pânico, uma corrida para compra e estocagem.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabeleceu o direito humano à alimentação adequada. Porém, nesta crise, temos visto que mesmo em países ricos, como os EUA, a covid-19 tem matado pessoas que tinham problemas de saúde associados a uma alimentação inadequada, como obesidade. Por que mesmo essas nações não conseguiram efetivar esse direito tantas décadas após a declaração?

Graziano - Muitos países conseguiram, mas infelizmente não saiu de uma declaração retórica. Não foram tomadas medidas efetivas direcionadas a uma alimentação adequada.

Poucos países, entre os quais o Brasil, tomaram ações para implementar política de segurança alimentar permanente, que garanta a todos uma alimentação saudável.

Infelizmente, os últimos governos, em particular o atual, iniciou um desmonte da política de segurança alimentar, começando pela extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar), e culminando com tentativa de compra da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o que inviabilizaria o programa de compra de alimentos de agricultores familiares, que é um dos pontos altos da política de segurança alimentar do Brasil.

Quais os impactos práticos que essas mudanças trazem no cenário atual?

Graziano - O impacto mais evidente é a demora em responder à situação de crise alimentar que estamos entrando. Estamos vendo pequenos agricultores não terem mercado para seus produtos, começarem a jogar produto fora porque não têm como comercializá-los.

E estamos vendo aumentar o número de pessoas nas filas do pão, dos restaurantes populares, que estão fechando gradativamente. Enfim, há uma desorganização completa na resposta do governo na área da segurança alimentar. Isso é o reflexo do desmonte da política de segurança alimentar que começou com a extinção do Consea.

Pequenos agricultores dizem que as políticas agrícolas do Brasil favorecem os grandes produtores de commodities. A crítica procede?

Graziano - Sim. E acho que ela tem muito a ver com o setor exportador. Os grandes produtores de commodities são os que fornecem os produtos exportados pelo Brasil e que são fundamentais para a entrada de dólares de que país tanto precisa.

Um jeito de equilibrar isso é a reativação do programa de aquisição da agricultura familiar, o PAA, que garante mercado para os pequenos produtores de não commodities também. Nós não comemos só commodities.

Nós comemos muita fruta, verdura, legumes, ovos, aves. Produtos animais que são criados localmente. Não são commodities de exportação.

Qual categoria de produtores deve ser priorizada no atual cenário?

Graziano - Sem dúvida, os pequenos produtores, os agricultores familiares. Não apenas porque produzem a maior parte dos alimentos que consumimos, mas porque são os mais frágeis e precisam de apoio creditício e de políticas de compra de alimentos da agricultura familiar.

Embora a ciência associada à agropecuária pareça avançar em velocidade, temos assistido à eclosão de grandes e repetidas epidemias entre animais de criação - a última delas, a peste suína africana -, que obrigam produtores a sacrificar milhões de animais e impactam a oferta global de alimentos. Esse modelo de criação animal deve ser repensado?

Graziano - Não acho que essa epidemia tenha a ver com modelo industrial de criação de animais. Acho que tem muito a ver com o íntimo contato que tem o homem com os animais (selvagens) e a falta de equipamentos de proteção e medidas de higiene.

Mas acho que esse modelo industrial pode ser melhorado se maiores cuidados de higiene forem tomados principalmente pelos seres humanos que fazem o processamento desses animais.

O biólogo americano Rob Wallace, que pesquisa esse tema, diz que a frequência e o poder destrutivo de epidemias recentes - como a peste suína africana, a Sars e a gripe aviária - se devem à progressiva redução da diversidade genética de rebanhos e ao avanço da produção agropecuária de grande escala sobre áreas de floresta, o que amplia a interface entre pragas selvagens e atividades humanas. O que o sr. acha?

Graziano - Não sou especialista, mas partilho da preocupação sobre a redução da diversidade genética e sobre a destruição de áreas de floresta. Não é o primeiro vírus que provém de áreas de floresta ou animais selvagens. O caso do ebola e do zika são exemplos recentes disso.

Muitos acadêmicos têm especulado sobre legados positivos que a covid-19 pode nos deixar. Há algo benéfico que poderia acontecer no campo da agricultura e alimentação?

Graziano - Ainda é cedo para dizer sobre efeitos positivos. Ressaltaria dois pontos de preocupação. Primeiro, a qualidade nutricional dos produtos que consumimos na pandemia.

A tendência é consumir produtos não perecíveis, já que temos de reduzir idas ao supermercado ou feiras. Isso pode acentuar os problemas de sobrepeso e obesidade da nossa população, principalmente das crianças e mulheres.

Mais de três semanas são suficientes para mudar o hábito alimentar. Se deixarmos de comer frutas, verduras e legumes nesse período, será certamente mais difícil recuperar esse hábito após a pandemia.

A segunda preocupação é o fato de nos fiarmos em um supermercado global que não existe. Pensamos que, o mundo estando abastecido, nossa despensa estará. Não é assim.

Há grande problema de logística e distribuição. Precisamos valorizar circuitos locais de produção e consumo. Pensar mais nos produtos de proximidade, de estação, produtos frescos que estão mais próximos da gente e têm mais valor nutritivo, do que aqueles altamente processados como salsichas, embutidos, que nem sabemos o que têm dentro e têm quantia enorme de preservativos que não fazem bem à saude.

Temos de valorizar alimentação mais saudável, a alimentação mais natural. Espero que essa seja a grande lição que a gente aprenda nessa pandemia.

Resposta do Ministério da Cidadania às críticas de José Graziano:

"É importante destacar que o Consea, bem como os demais conselhos vinculados à Presidência da República, foi extinto. No entanto, todas as competências que havia nesses órgãos foram distribuídas entre várias Pastas do Governo Federal. Com essa forma de organização administrativa, as ações governamentais tornam-se mais céleres e eficientes.

Como exemplo disso, é possível citar a edição da Medida Provisória nº 953, de 15 de abril de 2020, que liberou R$ 500 milhões serão utilizados para o fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Os recursos beneficiarão cerca de 85 mil famílias de agricultores familiares, além de 12,5 mil entidades e 11 milhões de famílias em vulnerabilidade social que receberão os alimentos, muitas delas ribeirinhas. Estes recursos começam a ser empenhados a partir desta semana e seguirão pelos próximos meses."