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Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Estudo: PrEP com anel vaginal não é sentido durante sexo por 59% dos homens

Nuvaring Divulgação
Imagem: Nuvaring Divulgação
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

23/04/2021 04h00

Dentre as diversas novas formas de prevenção contra o HIV desenvolvidas nos últimos anos, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposicão ao HIV) na forma de anel vaginal é uma das que mais tem despertado a curiosidade em todo mundo.

Os anéis vaginais de PrEP são impregnados com um antirretroviral chamado dapivirina, que se distribui pela mucosa da vagina praticamente sem ser absorvido pelo corpo. Eles devem ser colocados no fundo da vagina próximo ao colo do útero e trocados uma vez por mês pela própria pessoa que os utiliza.

De acordo com os ensaios clínicos realizados até agora, se usados com boa adesão, podem reduzir o risco de uma infecção por HIV em até 60%.

Mesmo que a OMS (Organização Mundial da Saúde) tenha recomendado o uso de anéis vaginais com dapivirina como método de prevenção contra o HIV, ainda existe na literatura médica preocupação em relação à dependência de uma boa adesão por suas usuárias para que haja uma proteção mais robusta. Uma questão recorrente que pode interferir na adesão é o receio de que o anel fosse sentido pelo parceiro durante uma relação sexual com penetração vaginal.

Para avaliar isso, pesquisadores norte americanos entrevistaram 54 homens no Malaui, Zimbábue, Uganda e África do Sul cujas parceiras usavam o anel vaginal de dapivirina. Dos entrevistados, 59% disseram que não sentiam a presença do anel durante as relações sexuais. Entre os demais que referiram sentir, o posicionamento errado do anel foi a causa mais frequentemente citada.

Entre os incomodados, o relato era o de que o anel "cutucava", "arranhava" ou "bloqueava" a entrada do pênis na vagina, mas para a maioria deles, essa percepção melhorou com o tempo e com o aumento da lubrificação da vagina.

Teoricamente, o método de prevenção ideal para um indivíduo é aquele que interfere o mínimo possível em sua vida sexual e na das suas parcerias. Se possível, um que também não tenha efeitos colaterais e que não apresente dificuldades para ser usado de forma correta e constante.

A camisinha preenche todos esses critérios para uma parte da população mundial, no entanto falhou miseravelmente para o restante. No Brasil, por exemplo, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde com cerca de 12 mil pessoas mostrou que apenas 54% referiram ter usado preservativo com todas as suas parcerias casuais no ano anterior à entrevista.

Os dispositivos intravaginais têm sido uma das apostas dos pesquisadores na tentativa de multiplicar as possibilidades de prevenção para as mulheres cisgênero. Encontram-se em fase de testes os anéis duais que contém antirretroviral e anticoncepcional simultaneamente e que poderão ser trocados a cada 3 meses.

Já temos razoável experiência clínica acumulada com os anéis vaginais com anticoncepcional, que são adorados por algumas mulheres e odiados por outras. O importante é que eles existem, são eficazes e cabem no contexto de vida das pessoas que os escolheram usar.

Com a prevenção do HIV, o racional deve ser o mesmo. Cabe à ciência procurar melhorar a experiência com cada um dos métodos já disponíveis e tentar desenvolver novas alternativas para os indivíduos que não se adaptam a eles.

Abra sua cabeça e esteja preparado, pois o futuro promete ser ainda mais saudável e gostoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL