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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Entenda como a atividade sexual interfere no funcionamento do coração

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

19/12/2021 04h00

"Durante o sexo meu coração acelerou tanto que pareceu até sair do ritmo." Você já teve esta sensação? Pois saiba que isso realmente pode acontecer. Durante as relações sexuais, uma série de mudanças cardiovasculares, neuroendócrinas e metabólicas ocorrem, tanto para os homens quanto para as mulheres. O que pode ser bom, mas também trazer preocupação e problemas.

Quando transamos, há um aumento temporário do trabalho do coração, com consequentes alterações na pressão arterial e na frequência cardíaca —e até uma possível sensação de taquicardia. A respiração tende a acelerar, a musculatura fica mais rígida e gastamos mais calorias. Além disso, há liberação de hormônios pelo corpo. Pesquisas apontam que as maiores mudanças ocorrem durante os 10 a 15 segundos de orgasmo.

O ato sexual provoca o aumento da quantidade de sangue que chega aos músculos, principalmente na região pélvica. Apesar de o ápice gerar relaxamento, antes de alcançá-lo, os músculos se contraem e ficam mais tensos.

Vamos começar pelo lado bom...

A prática do sexo estimula o corpo a liberar substâncias que ajudam na manutenção e proteção da saúde cardiovascular. De modo geral, a atividade sexual regular deixa as pessoas mais felizes, gera sensação de bem-estar e prazer, promove o relaxamento e alivia tensões. Isso porque, entre outros fatores, durante a relação sexual alguns hormônios liberados estimulam o sistema nervoso parassimpático.

Após o orgasmo, o corpo solta, por exemplo, ocitocina e endorfina, que promovem este estado. As substâncias ajudam ainda a diminuir o nível de ansiedade, reduzir e aliviar o estresse (ao diminuir a ação do cortisol) e até melhorar a qualidade do sono, fatores de risco relevantes para a saúde cardiovascular.

Depois deste ápice, a pressão volta ao nível normal, a respiração acalma e o coração retorna ao ritmo dos batimentos regulares. Há um relaxamento das artérias, o que melhora o fluxo sanguíneo. Alguns trabalhos científicos recentes, inclusive, apontam que, ao atingir o orgasmo, há resposta e até uma melhora na imunidade —nos deixando mais resistentes a infecções e inflamações. E com a nossa imunidade em dia, protegemos também a saúde do coração.

Sexo x atividade física

O aumento dos batimentos durante o sexo funciona como um exercício cardiovascular, que protege o músculo cardíaco de problemas, como o AVC (acidente vascular cerebral) e o mal súbito, além de ajudar a preservar as artérias. Benefício que se assemelha ao da prática constante de atividades físicas.

No entanto, para tal efeito, a recomendação é de 30 minutos de exercícios, pelo menos cinco vezes por semana. E precisamos considerar que grande parte das pessoas não faz sexo com essa duração e frequência. Então, podemos pensar em somar a prática sexual a uma atividade esportiva, como corrida, caminhada ou pedalada, por exemplo. E assim completar a quantidade necessária para ter as possíveis vantagens.

Neste mesmo sentido, vemos diversas notícias e resultados de estudos que apontam que o sexo pode ser considerado uma atividade física leve a moderada, sendo equiparada a subir dois ou três lances de escada ou caminhar rapidamente por uma curta duração.

Entretanto, mais uma vez, vale aqui uma ressalva quanto a essas comparações: como a maioria das pesquisas que avaliam os efeitos cardiovasculares da atividade sexual é realizada em homens saudáveis, jovens a de meia-idade, é válido evitar generalizações. Precisamos ter em mente as características peculiares de outros grupos, como indivíduos mais velhos ou com alguma doença que afete seu desempenho físico.

No caso dos homens

A ereção está intimamente relacionada ao sistema cardiovascular e ocorre quando o tecido erétil relaxa, aumentando o fluxo sanguíneo, um mecanismo controlado por nosso sistema nervoso. A ereção depende do fluxo de sangue no pênis, portanto, alterações que dificultem a circulação sanguínea na região podem causar disfunção erétil.

E a circulação do sangue é a principal função do coração, ou seja, a ereção é um processo vascular e depende do bom funcionamento do órgão. Para que ela ocorra, é preciso que haja o enchimento de pequenos vasos sanguíneos que formam os corpos cavernosos do pênis.

Por isso, a principal relação entre a impotência sexual e as doenças cardiovasculares está no fato de ambas compartilharem os mesmos fatores de risco, como diabetes, obesidade, hipertensão, níveis elevados de colesterol e triglicérides, tabagismo, sedentarismo, estresse e aterosclerose.

Diante desses fatores, a circulação do sangue pode ser comprometida, elevando a chance de disfunção erétil e de doenças do coração, com consequências que vão desde o surgimento da doença arterial coronariana até a ocorrência de um infarto.

A disfunção erétil, aliás, costuma dar seus sinais antes dos problemas cardíacos. A principal razão disso se deve ao fato de que as artérias do pênis são mais finas que as do coração, a exemplo da artéria aorta, sendo assim afetadas primeiro. Porém, se aorta é obstruída, o sangue terá dificuldade em passar e chegará no pênis em menor quantidade, causando a disfunção erétil.

Algumas pesquisas evidenciam que a disfunção sexual erétil pode se manifestar até cinco anos antes de uma complicação no coração. Por isso, quando há a ocorrência de impotência sexual com frequência, a recomendação é investigar a saúde cardiológica, uma vez que este pode ser também um indicador de obstrução de outras artérias do corpo.

No caso das mulheres

Para as mulheres, além dos benefícios gerais já abordados aqui, o sexo tende a minimizar os sintomas da menopausa e da TPM, melhorando a qualidade de vida e a saúde de forma geral. Isso ocorre em decorrência de hormônios liberados durante o ato, entre eles a serotonina e a adrenalina.

Agora, se problemas na circulação sanguínea reduzem a quantidade de sangue que chega aos órgãos sexuais, o que pode levar a dificuldades eréteis nos homens, para as mulheres as alterações afetam o fluxo sanguíneo necessário para a excitação e lubrificação vaginal. Além disso, pressão alta, diabetes e depressão também podem interferir no desejo e na resposta sexual —assim como na saúde do coração.

O sexo pode desencadear um infarto?

Sim, isso pode ocorrer. Os números apontam que a chance de um infarto, tendo como gatilho a atividade sexual, é baixa. Mesmo assim, existe. O risco de sofrer um infarto do miocárdio durante a relação sexual chega a ser três vezes maior que o risco em outras situações com gasto energético similar. Porém, como já dito anteriormente, visto como uma forma de esforço físico, o sexo se classifica na categoria de intensidade leve a moderada e geralmente de curta duração.

Além disso, vale reforçar que sintomas cardiovasculares durante o sexo raramente ocorrem em pacientes que não apresentam sinais similares em um teste de esforço e demais exames. Então aquela cena de um homem sofrendo um mal súbito durante a relação sexual, em alguns casos de maneira fatal, talvez permaneça com mais frequência sendo vista nas telas do que na vida real —em particular para quem não mantém o check-up cardiológico na rotina de cuidados.

O impacto das doenças cardiovasculares na vida sexual

Muitos dos sintomas e preocupações com eventos cardiovasculares contribuem para diminuir o prazer sexual. É comum pacientes acharem que o ato sexual pode prejudicar ainda mais o coração, especialmente após uma cirurgia ou um procedimento. Isso pode ocorrer, mas não para todos.

O fato é que as doenças do coração interferem direta e indiretamente na atividade sexual e por diferentes razões. A primeira se dá logo após o diagnóstico de um problema: alguns pacientes passam a apresentar um quadro de ansiedade, medo da morte ou de complicações e até enfrentar certas restrições no que diz respeito ao esforço e atividade física.

A segunda está relacionada à incidência de sintomas cardíacos, como angina (dor no peito), fadiga, exaustão e falta de ar. Há ainda uma terceira por conta do uso de certos medicamentos capazes de produzir efeitos adversos e que prejudicam a performance sexual, causando disfunção erétil e perda da libido.

No entanto, de forma geral, o sexo é seguro para a maioria das pessoas com fatores de risco e doenças cardiovasculares, porém, é fundamental a análise criteriosa de um especialista. O retorno das atividades após um diagnóstico ou evento cardíaco deve ser orientado e monitorado.

Cada paciente tem um quadro clínico, por isso, a avaliação é estritamente individual. Além do infarto, em casos de arritmias de alto risco, cardiomiopatias e doença valvar graves, por exemplo, a atividade sexual pode representar um risco significativo.

Falar sobre sexo é importante

Dúvidas sobre a segurança da atividade sexual são comuns entre pacientes e médicos. Entretanto, são frequentemente negligenciadas em visitas de rotina ou na alta hospitalar após um evento ou procedimento cardíaco. Ainda considerado um "tabu" para muitos, o tema acaba sendo deixado de lado. Porém, faz parte da vida.

A frequência e a qualidade do sexo estão intimamente ligadas à saúde geral de uma pessoa, inclusive, como vimos, a cardiovascular. É um componente importante, se não para todos, para a grande maioria das pessoas e merece assim a devida atenção e cuidados.