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Dopamina, endorfina, serotonina: conheça as substâncias do bem-estar

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

29/10/2020 04h00

Hoje pela manhã, quando acessei a minha rede social, li uma frase que um querido colega postou falando assim: "Não confunda curtidas com alegria empática". Na sequência, eu me lembrei de um episódio da série Black Mirror em que a personagem principal vive a sua vida em função das curtidas que recebe de outras pessoas, muitas vezes pessoas desconhecidas, desconsiderando as suas reais necessidades. Logo, essa frase fez um imenso sentido para mim.

E você, já parou para pensar quantas vezes estabeleceu uma meta que não era verdadeiramente sua? Você reconhece quais são as suas vontades e aquilo que te conecta?

O meu questionamento de hoje está relacionado ao quanto somos verdadeiramente leais as nossas percepções e as nossas dores.
O "click" veio ao ler o termo alegria empática, bastante utilizado no budismo principalmente pelo valor do seu significado: alegrando-se com a felicidade dos outros. A mesma alegria legítima que temos com nossos entes queridos você aplica em sua vida, e com você?

Nos dias atuais, principalmente pelo aumento do home office, grande parte da população culpa-se quando interrompe as atividades inesgotáveis e exaustivas de trabalho para fazer uma refeição, respirar um pouco, ou até praticar o autocuidado fazendo uma atividade física, uma meditação ou simplesmente dar aquela pausa para o descanso, tão importante no cultivo da saúde mental. Essa "parada" para muitos é vista como proibida e com isso vamos suprimindo a prática de algumas atitudes alegres, que trazem leveza ao nosso dia e, por consequência, a liberação de hormônios conhecidos como "da felicidade" tem a secreção diminuída e assim vamos nos tornando menos felizes e mais "mecanizados", nos beneficiando menos e menos das sensações de bem-estar que estão envolvidas na autoempatia e alegria empática.

Tudo o que nós pensamos e sentimos, todo o amor, ódio, ganância, carinho, preocupação, felicidades, os sorrisos que damos e as gargalhadas também; toda a cultura, a nossa identidade, funcionam como um gatilho que estimula o cérebro e os seus neurônios a liberar substâncias como dopamina, ocitocina, endorfina e serotonina.

Breuning (2015) relata que as emoções possuem três níveis diferentes, porém interrelacionados: o nível mental ou psicológico, o nível fisiológico e o nível comportamental. Estes podem ser explicadas por uma grande coleção de respostas químicas e neurais que formam um padrão distinto, definido como comportamento, em resposta ao meio; as emoções são automáticas e por vezes impulsivas já que quase nunca é possível controlá-las.

As substâncias do bem-estar

Vamos conhecer alguns dos atores que contribuem com uma descarga de sensações que nos impulsionam, nos emocionam ou nos encorajam, começando pelo neurotransmissor dopamina, que é fundamental na mediação dos efeitos de recompensa. Ele nos impulsiona e nos encoraja na busca pela sensação de realização, logo é o agente da motivação.

Estudos recentes analisam o papel da dopamina em condições de vícios e do comer hedônico, por seu papel ativo nos mecanismos de recompensa e/ou prazer. A sua liberação pode ser estimulada por atitudes alegres, em resposta à identificação de expressões faciais de felicidade, à visualização de imagens agradáveis, lembrança de recordações de felicidade e estimulação competitiva bem-sucedida.

Outro elemento que corrobora com bons sentimentos e equilíbrio emocional é a endorfina. Produzida naturalmente nos neurônios em resposta à dor e ao estresse, ela ajuda no alívio da ansiedade e da depressão. Sua liberação atua como um agente analgésico e calmante natural, favorecendo o enfrentamento de situações difíceis e que normalmente nos desestabilizam.

Já a serotonina é responsável pela estabilidade emocional. É uma substância química que favorece a sensação de autovalorização, autorrespeito e autoadmiração, aumentando a nossa confiança e sensação de "poder" e invencibilidade, nos fazendo sentir incríveis. Conhecida como a molécula do bem-estar, a serotonina é a substância química que transforma o preguiçoso em aprendiz e a vítima em vitorioso, já que aumenta a capacidade de atenção e foco, além de elevar a motivação, convertendo o estresse em sucesso.

Por último, a ocitocina, aquele hormônio considerado do amor e que secretamos na fase de aleitamento materno. Além de alguns efeitos fisiológicos sobre o corpo, a ocitocina atua como um neurotransmissor, auxiliando no relaxamento, diminuição da ansiedade e promovendo a síntese de endorfinas e a aparência de felicidade.

A ocitocina representa a molécula da moral, o hormônio do carinho e a química da conexão e da confiança. Acerca de seu efeito comportamental social, a ocitocina tem um papel significativo no sistema límbico, reduzindo a ansiedade e a resposta neuroendócrina ao stress.

Viu só? Mesmo atribulado por um dia a dia que te consome intensamente, busque se manter conectado e imerso em atitudes positivas. Assim, certamente você desfrutará de inúmeros benefícios, não só para a saúde física como mental, social e alimentar.

Com relação à alegria empática, esta deve se fazer presente presente diariamente na sua vida, mas lembre-se de que a mesma atitude compassiva que você cultiva com pessoas queridas deve ser aplicada a você. Pratique !

*Colaboração da nutricionista comportamental Samantha Rhein (Unifesp).

REFERÊNCIAS:

Breuning, LG, 2012. Meet your happy chemicals. Lexington, KY: System Integrity Press.

Breuning, LG, 2015. Habits of a Happy Brain. Retrain Your Brain to Boost Your Serotonin, Dopamine, Oxytocin, e Endorphin Levels. Adams Media Corp.

Esperidião, AV. et al. Rev. Psiq. Clín 35 (2); 55-65, 2008

Zak, PJ, 2018. The neuroscience of high-trust organizations. Consulting Psychology Journal: Practice and Research. 70(1): 45-58.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL