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Exercícios com eletroestimulação garantem resultados com menos esforço?

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

02/07/2020 04h00

Na década de 1990, garotas propaganda apareciam em comerciais de aparelhos de eletroestimulação para uso doméstico. A ideia era que magicamente a pessoa ia usar o equipamento em casa, sem fazer qualquer esforço, e ter uma barriga definida como a das celebridades nas capas de revistas.

Anos mais tarde, o aparelho retornou em um formato mais "gourmet", com a promessa de turbinar os treinos de academia, exigindo menos esforço e tempo de exercício para obter resultados.

Entenda o choquinho

A eletroestimulação (ENM) é um recurso amplamente usado na prática clínica pelos fisioterapeutas, para tratamentos em casos de lesões ortopédicas, medulares ou até em pacientes acamados. A relevância da eletroterapia já é bem reconhecida pela literatura para aliviar desconfortos e proporcionar padrões de movimento quando pessoas são incapazes, seja por algum tipo de restrição, seja por dor.

O princípio da ação do uso de correntes é o recrutamento da musculatura pela passagem do impulso nervoso gerado pelo aparelho. Isso é, o músculo se contrai sem a necessidade do cérebro enviar o comando.

Os parâmetros como a frequência dos aparelhos usados na fisioterapia são mais altos quando comparados aos de uso doméstico. As fibras estimuladas pela corrente geralmente são fibras de músculos responsáveis pela manutenção de postura. Então, esqueça se você tem como objetivo único ganhar muitos gominhos e trincar o abdome.

Quando o assunto é hipertrofia e ganho de força, alguns estudos mostram que o treino com eletroestimulação gera resultados similares e até inferiores aos do treinamento de força "tradicional", com pesos e sem "choquinhos".

É opção para quem tem pouco tempo para malhar?

Muita gente prefere investir em equipamentos que dizem otimizar o treino devido à falta de tempo. Mas a ciência comprova que é possível fazer treinos eficazes sem eletroestimulação, e obter ótimos resultados em poucos minutos. Se o único fator para usar o equipamento for a falta de tempo, há protocolos de treino já embasados na literatura e o profissional de educação física é apto a prescrever e conduzir com segurança e eficácia.

Segurança relativa

Assim como qualquer equipamento, caso seja usado de maneira equivocada ou em casos não indicados, o uso da eletroestimulação pode predispor a problemas de saúde.

Se você optar por comprar o equipamento ou fazer a aula, faça com orientação correta do profissional e respeite o seu corpo!

O corpo é sábio

A fisioterapeuta especializada em saúde da mulher Juliana Satake relata que muita gente ainda acredita que quanto mais alta a carga e intensidade, maiores os benefícios. As mulheres geralmente têm níveis de tolerância à dor mais altos que homens e acabam abusando ao focar apenas em resultados estéticos! Mas, na realidade, além de não ter benefícios extras no corpo, se sujeitam a lesionar.

A eletroestimulação mal aplicada pode romper fibras musculares e, se associada a exercícios incorretamente, predispõe a danos musculares graves.

A contração muscular gerada por estímulo externo pode levar a estímulos potencialmente lesivos. Quando o corpo entende que o aparelho é mais potente que a contração voluntária —do comando do cérebro —, ele fica menos influenciado pelas alterações e percepções (propriocepção) que ocorrem no corpo durante o exercício.

É importante ressaltar que o exercício associado à eletroestimulação já é usado na fisioterapia para recuperar atletas e pacientes em casos específicos de inibição de ativação muscular, mas em pessoas em busca de benefícios atléticos ou estéticos, o custo de investimento pode não compensar os riscos de se decepcionar.

Queima mais calorias?

Isso é um mito. Promessas como definir o corpo, emagrecer e exterminar a celulite costumam atrair quem investe no treino com eletroestimulação. No entanto, ainda são escassos e contraditórios os estudos na literatura sobre os reais benefícios das correntes elétricas para esses objetivos. Também não há comprovação científica da perda de gordura evidenciada pelo uso de corrente elétrica nesses equipamentos.

Estudos recentes avaliaram a eletroestimulação abdominal em aparelhos comerciais e não constataram aumento do consumo de oxigênio, do metabolismo basal ou do gasto calórico.

Ginástica passiva é excelente?

Dizer que a ginástica passiva traz os mesmos benefícios de um exercício é outro mito. Encarar a ginástica passiva como algo sem suor e sem se movimentar voluntariamente é acreditar na pílula da beleza.

Alguns estudos afirmam que é possível ter benefícios com programas híbridos de treinamento. A prática duas vezes por semana, durante 8 semanas, de treinamento de força associado à eletroestimulção pode melhorar a força. Em programa combinados de 18 sessões, 3 vezes por semana, também houve a melhora da espessura de músculos como o infraespinhal, se comparado a pessoas que não fizeram nada. Mas é importante destacar que os estudos apontam que o simples fato de se exercitar (sem eletroestimulação) se relaciona com a maior parte dos benefícios.

A falta de parâmetros desses equipamentos e de métodos claros de treinamento dificultam elucidar os reais benefícios com dados consistentes do treinamento com a finalidade fitness.

Procure sempre um profissional de saúde antes de investir em qualquer tipo de equipamento.

*Com colaboração de Renata Luri (@renataluri ), fisioterapeuta doutorada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Juliana Satake (@juliana.satake), fisioterapeuta pela Unifesp

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