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Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É preciso vacinar as crianças contra a covid-19

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Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista do UOL

06/07/2022 04h00

A ideia de que crianças não desenvolvem quadros graves de covid-19 ainda persiste, mesmo que os dados mostrem o contrário. Nenhuma doença infecciosa prevenível por vacinas, como meningite, coqueluche, sarampo e infecções por rotavírus, matou mais crianças do que a covid em 2020 e 2021.

Um levantamento da Fiocruz revelou que nos dois primeiros anos da pandemia, a covid matou duas crianças com menos de 5 anos por dia no Brasil. Até o dia 13/6/22, morreram 1730 brasileiros nessa faixa etária, quase metade antes de completar 1 ano de vida.

Hospitais de todo o país registram aumento de atendimentos e internações de crianças por covid-19. Análise do Infrogripe-Fiocruz, projeto que monitora os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no Brasil, mostrou que de abril em diante, a faixa etária até 5 anos passou a representar 15% dos casos de SRAG por covid-19.

Um estudo dinamarquês mostrou que crianças também desenvolvem covid longa e apresentam sintomas como fadiga, dor de cabeça e dor no peito após semanas da infecção. O pediatra infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que é essencial vacinar as crianças contra a covid-19, tanto para reduzir o risco de casos graves como de covid longa.

No Brasil, crianças com menos de 5 anos ainda não podem ser vacinadas. Contudo, a cobertura vacinal daquelas que podem se vacinar segue baixa. De acordo com dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil, até o início de junho, 40% das crianças de 5 a 11 anos ainda não haviam recebido nenhuma dose da vacina contra a covid no país.

Há alguns motivos para a baixa cobertura vacinal nessa faixa etária, como a falta de campanhas informativas sobre a vacinação e a grande quantidade de desinformação que circula a respeito do assunto.

Muitos pais temem efeitos adversos inventados nas redes sociais, e o próprio presidente da República já levantou suspeitas infundadas acerca da segurança da vacina.

Os Estados Unidos, por outro lado, começaram a vacinar crianças de 6 meses a 5 anos com três doses dos imunizantes da Pfizer e da Moderna.

Por aqui, apenas o Instituto Butantan pediu registro da Anvisa para aplicação da Coronavac, produzida em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, nessa faixa etária, mas ainda não recebeu a resposta. "O laboratório Sinovac não fez estudos completos e controlados, de fase 3, como fizeram a Pfizer e a Moderna. Os dados da CoronaVac são dados de mundo real, aplicados na prática, mais difíceis de analisar. As agências mais importantes do mundo, como a Anvisa, têm dificuldade de aceitar registros de produtos sem estudos que sejam padrão-ouro, o padrão de licenciamento de aprovação", explica o dr. Kfouri.

A Pfizer anunciou que vai pedir registro à Anvisa para vacinar crianças com menos de 5 anos em breve. Se a agência autorizar, é urgente que o governo federal providencie a compra desse imunizante. Não podemos aceitar como "novo normal" a morte de duas crianças por dia por uma doença prevenível com vacina.