PUBLICIDADE

Topo

Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maconha é mais ou menos perigosa que o álcool para dirigir?

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista de VivaBem

11/05/2022 04h00

Todo mundo sabe que conduzir veículos sob efeito de álcool é perigoso, inclusive, beber e dirigir é considerado infração gravíssima no país. Os efeitos depressores da substância já foram bem determinados, e não faltam estudos a respeito.

A mesma coisa não acontece, contudo, com a maconha, ao menos não na mesma proporção. Apesar de ser uma droga acessível e bastante consumida — segundo o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, coordenado pela Fiocruz, 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já consumiram a droga ao menos uma vez na vida, o que a torna a droga ilícita mais usada no Brasil —, há poucos dados sobre a utilização da substância no país.

Em locais em que o uso é descriminalizado, como Portugal, parte dos EUA, Canadá, Uruguai e Holanda, entre outros, é mais fácil obter dados sobre o consumo.

Em abril deste ano, um leitor enviou um email ao caderno de saúde do jornal norte-americano New York Times para saber se conduzir um veículo sob efeito da maconha era tão perigoso quanto dirigir sob a ação de álcool. A colunista Dani Blum forneceu alguns dados interessantes que nos possibilitam analisar os efeitos da droga.

Um estudo randomizado realizado nos EUA com 191 usuários regulares de maconha permitiu avaliar os efeitos do uso da droga na condução de veículos automotores. Os participantes foram instruídos a fumar o quanto desejassem durante 10 minutos, com um mínimo de quatro tragadas. Após 30 minutos, e durante todo o dia, eles passaram por uma série de testes simulados de direção.

Antes de cada simulação, os pesquisadores perguntaram aos participantes o quão "chapados" eles se consideravam e se se julgavam aptos a dirigir.

Após meia hora do consumo, apenas metade dos participantes afirmou se sentir segura para conduzir o veículo, mas depois de 90 minutos, cerca de 70% se consideraram bem para dirigir, embora esse grupo tenha se saído pior nos testes que o grupo placebo.

Os pesquisadores consideraram, então, que embora os usuários se sentissem mais capazes de dirigir depois de 1h30, eles ainda não estavam aptos para a tarefa, confirmando o que outros estudos já demonstraram: a maconha pode comprometer a capacidade de discernimento entre o que é ou não seguro.

Além disso, o estudo também mostrou que muitos usuários levaram cerca de 4h30 para conseguirem dirigir como uma pessoa que não consumiu a droga. Os pesquisadores alertam, todavia, que são necessários mais estudos para determinar diferenças biológicas individuais e métodos de administração da droga no desempenho ao volante.

Outro estudo, feito na França em 2011 com 4 mil pessoas, analisou motoristas envolvidos em acidentes fatais e comparou os achados com os de outro estudo, conduzido entre 2001 e 2003. Os pesquisadores concluíram que o risco de uma pessoa embriagada ser responsável por um acidente com vítimas fatais é 17,8 vezes maior do que o de uma pessoa que não bebeu.

Já entre quem fumou maconha, o mesmo risco é de 1,65 vez maior do que o de quem não usou a droga. Uma probabilidade bem menor do que a do álcool, mas ainda assim considerável, de causar um acidente grave.

Dificuldades de pesquisa

Não é fácil realizar estudos envolvendo o uso de maconha porque, para serem mais precisos, eles precisariam analisar a tolerância ao uso, dose, via de administração e concentração de THC (principal componente ativo da maconha) da droga utilizada, além de outras características individuais importantes na avaliação dos efeitos do consumo.

Além disso, estudos já demonstraram que o THC, por ser muito lipofílico, infiltra-se e persiste em áreas do corpo com alto teor de gordura, como os tecidos adiposos e o cérebro.

Isso significa que a maconha, em especial em quem faz uso crônico, acumula-se nos tecidos, podendo ser liberada e detectada em testes mesmo dias após o consumo. Assim, é mais difícil determinar se um motorista envolvido em um acidente, por exemplo, estava sob efeito da droga no momento do desastre ou se ele havia consumido a droga dias antes.

Com o álcool, ocorre o oposto: o organismo elimina a droga com mais rapidez, tornando a intoxicação mais fácil de detectar. Ademais, é fácil determinar a dose da substância.

Direção

A maconha, além de poder comprometer o discernimento em momentos que exigem tomadas de decisões rápidas, também pode alterar a percepção de tempo e os reflexos, embora os usuários nem sempre se deem conta disso. O último efeito é comum às drogas psicotrópicas, grupo de substâncias químicas que atuam no sistema nervoso central e inclui os ansiolíticos ("calmantes"), antidepressivos, anticonvulsivantes, e também substâncias ilícitas como maconha, álcool e cocaína.

"Todos os psicotrópicos, ainda que tenham classes distintas, de maneira geral podem interferir na capacidade de dirigir, principalmente por causarem alteração de reflexo e também da vigília, pois alguns podem causar sonolência, como os benzodiazepínicos e a maconha", explica o dr. José Gallucci Neto, psiquiatra do Instituto de Psiquiatra do HCFMUSP.

Portanto, apesar de menos perigosa para a condução de veículos do que o álcool, deve-se evitar consumir maconha e outras substâncias psicotrópicas, lícitas ou ilícitas, que alterem os reflexos ou causem sonolência antes de dirigir.