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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Demência senil não existe e é importante você nunca se esquecer disso

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

17/05/2022 04h00

"Não existe demência senil, não existe demência senil, não existe..."— no desenho que o neurologista Diogo Haddad Santos projeta para seus alunos na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o personagem Bart, filho mais velho da família Simpson no desenho criado pelo cartunista americano Matt Groening, copia a frase diversas vezes. É preciso mesmo que ela entre na cabeça — e não só na dos futuros médicos na sala de aula.

"Envelhecer não é doença e o esperado é que o cérebro mantenha a sua funcionalidade, organizando as ideias e preservando a autonomia, mesmo que o indivíduo tenha 90, 95, 100 anos", garante o professor. "Claro, dentro de parâmetros normais para aquela idade", completa.

Ao ouvir isso, questiono: mas o que seria normal? "Depende do quanto a pessoa usou o cérebro ao longo da vida e há também um pouco de subjetividade, isto é, das expectativas de cada um", ele responde para, daí, me contar uma história emblemática. Aconteceu no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, onde Diogo Haddad é o coordenador do Núcleo de Memória.

O senhor, de mais de seus 90 anos, estava aflito. "Acho que estou com Alzheimer", queixava-se com eloquência. Ele continuava na ativa profissionalmente, cuidando de uma firma com dezenas de colaboradores. Mas já não se lembrava de tudo o que se passava no escritório.

O neurologista então lhe tranquilizou pedindo exames. Mas não sem disparar a seguinte pergunta: "O senhor pratica corrida?" O sujeito à sua frente arregalou os olhos, enquanto o especialista continuou: "Pessoas saudáveis na sua faixa etária conseguem andar muito bem, mas já não têm forças para uma corrida, nem cobram isso de seus músculos. É a mesma coisa: por que está cobrando o equivalente a uma maratona do seu cérebro?".

A comparação é excelente para a gente entender o envelhecimento cerebral normal, como o daquele paciente — que, aliás, segue com a cabeça tinindo, mas agora sem forçá-la com questões cotidianas do escritório, poupando-a para decisões estratégicas nas quais a tal da experiência conta um bocado.

O fato é que existem extremos, os quais Diogo Haddad conhece bem, atendendo pacientes da rede pública na Santa Casa e particulares, no Oswaldo Cruz. Na rede pública, em especial, muitos parecem conformados com a confusão mental e, com isso, procuram o serviço em estágios avançados de uma demência qualquer, tarde demais para algumas boas possibilidades terapêuticas que retardariam sua evolução.

Já no consultório privado, é mais frequente encontrar gente que recebe com estranheza os primeiros sinais de que a memória não anda a mesma. Ainda assim, são menos casos do que Diogo Haddad e seus colegas gostariam de encontrar.

"Um dos motivos fazendo com que as pessoas demorem a buscar ajuda é que, em português, o termo demência é carregado de preconceito.", nota o médico. Por aqui, a palavra demente não soa como o jeito de chamar o portador de uma doença séria e neurodegenerativa porque é usada até como xingamento. Ele próprio, nas consultas, toma o cuidado de evitar pronunciar que o Alzheimer é uma demência — e ele é.

Além dessa doença que provoca um apagão nas lembranças, existe a demência frontotemporal, ou simplesmente DFT, e a demência de corpos de Lewi, para citar os tipos mais comuns na nossa população. Sem contar as afasias progressivas primárias, que afetam a linguagem, mas que, adianto, no fundo são formas ou do Alzheimer ou da DFT.

"Nos últimos tempos, aprendemos que existem subtipos dessas doenças neurogenerativas e não duvido que, em dez anos, o que hoje chamamos só de Alzheimer, por exemplo, se desdobrará em vários nomes", aposta o neurologista. Só um deles deve ser apagado de vez da nossa memória: demência senil. Ora, porque não existe.

A região cerebral afetada explica os sintomas

Há inúmeras causas, inclusive genéticas e ambientais, que levam as células cerebrais a se degenerarem. "Quando se trata de um problema progressivo e associado à queda de função, falamos em demência", define Diogo Haddad. A região anatômica onde esses danos começam e, depois, se concentram dá a pista de qual seria a doença específica e, ainda, os sintomas que podemos aguardar.

A degeneração típica do Alzheimer, por exemplo, se principia no córtex temporal — na superfície lateral do cérebro, vamos dizer — e vai se aproximando do hipocampo. "Como ele é uma área de memorização por excelência, fácil deduzir que a pessoa primeiro manifestará uma dificuldade para reter a lembrança de acontecimentos recentes", diz o médico.

Na DFT, o endereço das alterações é outro: elas surgem mais na área frontal, bem atrás da testa, que governa o nosso comportamento. "Por isso, a pessoa passa a agir de forma diferente. Ela pode ficar mais agressiva ou, ao contrário, apática", informa Diogo Haddad.

Há ainda, para dar um terceiro exemplo, a tal demência de corpos de Lewi, cujas lesões dão as caras na região occipital, que seria na parte de trás do cérebro, logo acima da nuca. "Como ela está envolvida com a visão, além de apresentar sintomas que se parecem com os do Parkinson, o paciente costuma ter alucinações visuais", explica o médico.

Mas saiba: na medida em que evoluem, todas as demências, e não apenas o Alzheimer, terminam afetando a memória. E, na etapa seguinte, quando boa parte do cérebro já está tomada por zonas degeneradas, há a derrocada de sua funcionalidade, isto é, daquilo que nos dá autonomia. A pessoa vai perdendo a capacidade de realizar sozinha tarefas como limpar-se, alimentar-se ou vestir-se.

O diagnóstico deve ser cuidadoso. Primeiro, porque o tratamento de reabilitação eficaz para adiar ao máximo esse momento — envolvendo terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e outros profissionais — deve ser diferente conforme cada tipo de demência. Sem contar que certas confusões na hora de diagnosticar são desastrosas: a medicação dada para conter o avanço do Alzheimer pode acelerar de vez a progressão da DFT, para você ter ideia.

Às vezes, o que parece demência é reversível

Quando há queixa de problemas de memória ou cognitivos, antes de mais nada o especialista deve fazer um exame clínico minucioso, além de pedir exames laboratoriais.

É preciso afastar a hipótese de sífilis, que é até comum em idosos. Muitos tiveram a infecção no passado e não perceberam lesões genitais, nem problemas de pele depois. Ocorre que a terceira manifestação da doença é neurológica. "E, aí, ela mimetiza uma demência. Mas, se for tratada, os sintomas vão embora", conta Diogo Haddad.

Outro possível fator por trás das queixas é a falta de vitamina B12. Níveis muito baixos desse nutriente prejudicam a comunicação entre os neurônios, criando uma bagunça passageira na memória e na cognição.

Finalmente, quando a glândula tireoide está funcionando aquém do normal, a cabeça pode ficar mais lenta. "Daí, basta repor os hormônios tireoidianos para tudo melhorar", afirma o médico.

Quando o neurologista não encontra causas reversíveis como estas, ele parte para exames mais específicos de imagem, como a ressonância magnética, capaz de acusar áreas cerebrais atrofiadas. Hoje, existe ainda a PET (tomografia por emissão de pósitrons), que mostra onde o cérebro está consumindo menos energia na forma de glicose. Sinal de que, ali, ele está trabalhando menos. Se isso acontece no hipocampo, por exemplo, a suspeita passa a ser de Alzheimer.

O que são afasias

Afasia é uma dificuldade para processar a linguagem. Pode ser sintoma de problemas agudos como um AVC (acidente vascular cerebral) e, se é assim, costuma melhorar ou até sumir com o tratamento de reabilitação.

No entanto, uma afasia progressiva primária, como a que acomete o ator americano Bruce Willis e o nosso genial chargista Angeli, é outra história "Aí, é uma demência, um subtipo de Alzheimer ou de DFT, que sempre piora mais depressa", diferencia Haddad.

Enquanto o Alzheimer clássico demora entre doze e quinze anos até a pessoa apresentar sintomas severos, uma afasia progressiva primária precisa de cinco ou seis anos apenas para chegar a esse ponto ou nem isso.

Na forma conhecida por agramática, notam-se lesões na mesma região da DFT. "Antes de qualquer outro sintoma, a pessoa vai perdendo a fluência e, ao escrever ou falar, não consegue estruturar as frases da maneira correta", descreve Diogo Haddad.

Também tem a ver com a DFT a afasia semântica, quando a dificuldade inicial é para lembrar o nome das coisas. "O paciente olha para uma caneta e diz que usa aquele objeto para escrever. Ou seja, ele lembra o que é, mas não consegue nomeá-lo."

As afasias logopênicas, por sua vez, se aproximam mais do Alzheimer: a pessoa fala corretamente, porém seu vocabulário diminui cada vez mais, até ela se tornar monossilábica, sem se expressar.

Nada disso é um fenômeno novo para a Medicina, apesar de as afasias só alcançarem os noticiários agora. "É que o diagnóstico está se tornando mais preciso. Antes, falaríamos que aquele paciente tinha Alzheimer e ponto", justifica Haddad.

A generalização já seria terrível, porque faz diferença saber o subtipo exato para cuidar de uma demência. Mas engano pior seria aceitar os atropelos cerebrais como normais da idade. Esqueça.