PUBLICIDADE

Topo

Lucas Veiga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para o ano que virá: criando novas formas de viver

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Lucas Veiga

Lucas Veiga é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do UOL

21/12/2021 04h00

Neste último texto de 2021, gostaria de convidar cada leitor e cada leitora a refletir sobre a nossa potência de transformação a partir do mito de Nanã, o qual abordo no meu primeiro livro "Clínica do Impossível: Linhas de Fuga e de Cura", que foi lançado este ano:

Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá de fazer o mundo e modelar o ser humano, o orixá tentou vários caminhos. Tentou fazer o humano de ar, como ele. Não deu certo, pois o humano logo se desvaneceu. Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura. De pedra ainda a tentativa foi pior. Fez de fogo e o humano se consumiu. Tentou azeite, água e até vinho de palma, e nada.

Foi então que Nanã Burucu veio em seu socorro. Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma, e de lá retirou uma porção de lama. Nanã deu a porção de lama a Oxalá, o barro do fundo da lagoa onde ela morava, a lama sob as águas, que é Nanã. Oxalá criou o humano, o modelou no barro. Com o sopro de Olorum ele caminhou e com a ajuda dos orixás povoou a terra.

Segundo esta concepção Yorubá, somos feitos do barro de Nanã, o que significa dizer que somos feitos de uma matéria maleável, moldável. A forma finita que somos enquanto sujeitos é produzida a partir de uma matéria infinita em suas possibilidades de transmutação.

Para vivermos neste plano da realidade foi necessário recebermos uma forma material e finita ou, dito de outro modo, foi necessário termos um corpo físico. É a partir deste corpo que experimentamos a existência na Terra e, como este corpo porta também uma subjetividade, produzimos sentidos para essa experiência impossível de ser totalmente simbolizada que é estar vivo. Criamos discursos e imagens sobre nós e sobre a realidade como tentativa de interpretar e expressar o que é viver neste plano.

Neste processo de produção de uma forma de ser, estar, sentir, desejar e pensar a vida podemos nos fechar a uma forma fixa e rígida de ser no mundo e nos afastarmos do ilimitado de que somos feitos, paralisando a possibilidade de criação de outras formas de viver.

Acessar a potência de transformação que nos constitui é um caminho para termos uma relação inventiva com a vida e nos recriarmos enquanto pessoas, expandindo nossas maneiras de estarmos no mundo, de nos relacionarmos, de pensarmos e de desejarmos.

Um novo ano se iniciará em breve. Que a gente possa se conectar com a matéria maleável e infinita de que somos feitos, modelando nossa vida em direção às mudanças que desejamos para nós. A potência da vida reside em sua capacidade de transmutação e esta capacidade também habita em nós.

Viver é transformar-se.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL