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Lucas Veiga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Consciência negra e saúde mental: a importância do resgate do amor-próprio

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Lucas Veiga

Lucas Veiga é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do UOL

23/11/2021 04h00

No último dia 20 de novembro celebrou-se o Dia Nacional da Consciência Negra. A data que tem na figura de Zumbi dos Palmares uma referência à luta dos africanos escravizados pela liberdade nos convida a pensar nas práticas de liberdades possíveis que pessoas pretas nos dias hoje empreendem diante de um cenário de opressão racial.

Consciência negra implica em compreender a problemática do racismo estrutural em que estamos inseridos, implica também em recusar qualquer afeto de menos-valia em relação à negritude e afirmar as potencialidades de ser pertencente ao povo africano. Na psicologia preta, há um conceito muito importante para o cuidado em saúde mental das pessoas negras que é o conceito de pulsão palmarina.

A pulsão palmarina, cujo nome faz referência a Zumbi dos Palmares, é o desejo de ser africano e livre. Livre das engrenagens coloniais que nos mantém presos a um esquema sociopolítico que nos adoece, nos mata e nos afasta da realidade do que somos, nos afasta do sentido africano do que significa ser humano.

Na África, ser humano é ser um espírito em contato constante com os poderes espirituais que habitam o invisível; é ser uma força espiritual conectada a uma energia em eterna expansão cuja totalidade constitui o Ser Supremo. "Eu sou dádiva, mas me recomendam a humildade dos enfermos", diz Frantz Fanon. Experimentar a si mesmo como dádiva é seguir a recomendação de Oxum, que ao ser perguntada sobre como encontrar o amor verdadeiro, respondeu: olhando sempre para o espelho.

O racismo produziu uma autoimagem turva, prejudicando a mais fundamental capacidade de amar: o amor-próprio. Promover saúde mental para a população negra passa por promover o resgate do amor por si mesmo, por sua história, pelo povo ao qual se pertence.

A construção de uma consciência negra e a afirmação da dignidade humana enquanto pessoas pretas, por vezes tão desumanizadas pela violência racial, se fortalece na coletividade. A esse respeito, o psicólogo Naim Akbar desenvolveu o conceito de ritmo: uma característica que os africanos do continente e da diáspora trazem geração após geração de seus ancestrais pela via da memória corporal e de uma possível transmissão genética.

É o ritmo que promove a reunião entre nós e a criação de práticas coletivas que tem por finalidade expandir o eu no contato com os demais e possibilitar a reconexão com o divino que nos constitui e nos transborda, fazendo desaparecer momentaneamente a fragmentação ou a separação entre os indivíduos.

A partir da noção de ritmo podemos compreender a força das manifestações culturais africanas na música e na dança, por exemplo. Não é por acaso que criamos o samba, o jazz, o blues, o rap, o funk, o hip-hop, o vogue. O encontro entre pessoas negras é, ao mesmo tempo, prática de liberdade e prática de criação de realidades outras que não a de opressão racial.

Se o fim imediato do racismo é impossível, é também impossível sermos totalmente capturados por ele. Nossa consciência negra nos conduz, assim como conduziu Zumbi, a buscar e a criar espaços de aquilombamento, onde podemos simplesmente ser e onde a violência racial não tenha lugar.

Viva Zumbi! Viva os quilombos contemporâneos! Vida longa a cada pessoa preta deste país!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL