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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Violência obstétrica: é preciso falar mais sobre esse assunto

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

15/12/2021 04h00

Você sabe o significado das palavras violência e obstetrícia isoladamente?

Violência: ação ou efeito de empregar força física ou intimidação moral contra; ato violento.

Obstetrícia: do latim obstare que significa "ficar ao lado".

Uma parece não ter nenhuma possibilidade de estar ligada a outra, mas infelizmente no cenário brasileiro muitas vezes elas se cruzam.

A violência obstétrica, como toda violência, algumas vezes paralisa e pode gerar um trauma sentido, mas que nem sempre é compreendido, por causa disso é comum a vítima se sentir culpada por um desfecho que ela não possui nenhum controle e isso pode acontecer em todos os serviços de saúde sem limitação por classe social.

Melania Amorim, médica, ginecologista e obstetra, cientista, pesquisadora e uma defensora da assistência ao parto humanizado destaca a importância em compreendermos que a violência obstétrica pode ocorrer em qualquer momento, não apenas no parto, pois ela permeia toda a assistência obstétrica e inclusive acontece durante o pré-natal, parto, aborto, puerpério e durante o pré-natal, muitas vezes é possível já observar atitudes violentas do profissional.

Ela ressalta o cenário complexo de médicos em formação que têm sua base de ensino composta por atitudes intervencionistas baseadas em procedimentos e não na compreensão da fisiologia do parto, alguns procedimentos que não devem fazer parte da assistência ao parto, e já tem dados consistentes sobre a ineficiência.

Primeiramente, a manobra de Kristeller, técnica realizada para acelerar o trabalho de parto pressionando o abdome da gestante, depois, a episiotomia, feita rotineiramente por muitos profissionais, mas que já possui na literatura dados mostrando seus malefícios.

Uma revisão sistemática destaca que foi encontrada uma frequência de desrespeito e maus-tratos durante o parto de 43% e durante o aborto 29%, porém Melania acredita que esse número é muito maior, pois muitas vezes as intervenções violentas estão mascaradas por atos singelos que podem não ser notados pela paciente no momento.

Dentre as formas de assistência ao parto, a assistência multidisciplinar é uma das possibilidades para que durante o parto velhas atitudes, muitas vezes violentas, possam ser deixadas de lado e substituídas por equipes com profissionais alinhados, com conhecimento técnico e respeitoso para que o parto não seja feito pelo profissional e, sim, assistido pelo profissional e protagonizado pela gestante.

Entre os profissionais envolvidos estão as doulas, profissionais que auxiliam na vivência da gestante durante o pré-natal proporcionando um parto com acolhimento e conhecimento, e podem auxiliar na escolha dos demais profissionais envolvidos na assistência ao parto.

Pontos que a doula Laura Muller destaca: "É possível trazer opções. Como é comum acharem certas intervenções necessárias por falta de informações, muitas gestantes acabam optando por profissionais desatualizados ou que de fato não tem comprometimento com evidências atualizadas. Orientamos a buscar os índices de cesarianas e partos, perguntar ao profissional sobre o parto, sobre algumas intervenções, sobre o plano de parto, dependendo da resposta já podemos identificar o caminho a seguir."

Atualmente, sabemos que muitas coisas são desnecessárias e até mesmo prejudiciais durante o parto, entre elas a velha frase de "faça força", essa frase é dita durante o trabalho de parto e é conhecida como puxo dirigido.

Segundo Alexandre Delgado, fisioterapeuta pélvico: "O puxo materno aparece quando a mulher tem a vontade de empurrar o feto para baixo. Ele pode ser de forma espontânea, o natural e é, inclusive, o recomendado pela OMS, pois é possível observar que, naturalmente, as mulheres realizam vocalizações, gemidos, gritos, rugidos e arquejos, diferentemente do dirigido."

Ele ainda ressalta que o puxo dirigido é direcionado pelo prestador de cuidados e pode trazer malefícios como sobrecarga cardiovascular, respiratória materna e fetal, com repercussão no fluxo sanguíneo do útero e da placenta.

Diante deste cenário ele finaliza com um fato muito importante: "Não há evidência respaldando os profissionais de saúde ficarem gritando ou dando comandos verbais com palavras inapropriadas durante o período expulsivo, pois isso muda todo o contexto que deveria ser natural, fisiológico e único para a mulher."

Para conquistar um parto com respeito, que deveria ser a regra, mas que infelizmente não é, Giovanna Balogh, jornalista e autora do site Mães de Peito, deixa alguns pontos de como as redes sociais podem ajudar: "Os médicos podem —e devem— usar essa ferramenta a seu favor. Mas o papel deles é trazer informação baseada em evidências, com ética e muita responsabilidade. Na minha tese de pós-graduação, vi que muitos pacientes têm seus casos expostos, o que fere o Código de Ética Médica e a resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) na questão da publicidade. Antes de escolher o médico, leia relatos de parto sobre ele e peça informação sobre o médico em grupos virtuais pró-parto humanizado."

Infelizmente, mesmo com acesso à informação, algumas pessoas ainda sofrerão violência obstétrica, para reduzir essa possibilidade, o plano de parto, documento elaborado pela gestante com suporte do profissional que a acompanha para ela deixar ali expresso seus desejos durante o parto, pode auxiliar.

Alguns serviços e profissionais ainda se negam a aceitar e considerar o plano de parto, mas a advogada Ana Carolina Brochado Teixeira, doutora em direito civil pela UERJ e mestre em direito privado pela PUC-MG, ressalta que: "Conquanto ele não esteja previsto de forma expressa em lei, sua existência, validade e eficácia pode ser presumida pelos princípios da autonomia e da dignidade humana, sendo um instrumento importante para a autodeterminação da gestante que deve ser levado ao conhecimento do médico e da equipe de saúde e que só não deve ser atendido se houver intercorrências que coloquem em risco a vida e a saúde da gestante e do bebê."

Nos casos de violência, Ana Carolina conta como é possível denunciar: "São várias possibilidades: perante a direção clínica do hospital, os conselhos regionais de classe e o Poder Judiciário. Em alguns casos mais graves, ela pode ser tipificada como crime, requerendo providências na ordem penal, o que comporta denúncias em delegacias de polícia e promotorias."

O processo entre o reconhecimento da violência e a denúncia pode ser muito doloroso, mas não deve ser esquecido, algumas violências não deixam marcas visíveis e talvez isso não permite dimensionar o tamanho da dor, essa mudança de cenário depende da Justiça, mas também da nossa sociedade.

Deixo registrado aqui meu carinho a todas as gestantes vítimas de situações violentas, que socialmente possamos compreender que o nascimento é a chave para continuidade da sociedade.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para dralarissacassiano@uol.com.br.