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Larissa Cassiano

Covid e a vacina para gestantes: decisão deve ser tomada junto ao médico

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Imagem: Getty Images
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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

29/12/2020 04h00

No meio de tantas incertezas sobre a covid-19 e a vacina, temos um grupo que foi classificado como risco para a pelo Ministério da Saúde, mas que não entrou nas pesquisas sobre a eficácia: as gestantes e puérperas.

A covid-19 causada pelo vírus Sars-CoV-2 é uma doença nova, com a qual estamos aprendendo a lidar em meio a muitas dificuldades e desafios.

A doença, que completa um ano de suas primeiras notificações, já infectou mais de 7 milhões de pessoas, tem entre 6 milhões de recuperados e mais de 180 mil mortos no Brasil. As gestantes fazem parte do grupo de risco, pois as mudanças naturais da gestação levam a um aumento natural do consumo de oxigênio, isso aumenta a possibilidade de infecções respiratórias.

Além disso, o estado de pandemia para uma gestante que naturalmente já lida com muitas ansiedades pode ser ainda mais agravado piorando o risco de alterações que podem complicar com a ansiedade como: trabalho de parto prematuro, pré-eclâmpsia, depressão e hiperemêse gravídica.

Segundo o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA), o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) e a Sociedade de Medicina Materno-Fetal, as gestantes e puérperas que desejarem receber a vacina contra a covid-19 devem receber, dizem esses especialistas, embora não existam dados seguros até o momento.

A Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda que gestantes e puérperas recebam a vacina, pois consideram que o risco de vacinas de mRNA é muito baixo. O CDC aguarda estudos feitos em animais que estavam gestantes e observa as mulheres que engravidaram durante os estudos com as vacinas para se posicionar.

A ACOG acredita que a segurança seja semelhante a de outros grupos, embora a vacina não tenha sido testada em mulheres grávidas.

Já no texto publicado dia 10 de dezembro no American Journal of Obstetrics & Gynecology MFM, observara que "há um risco teórico de dano fetal por qualquer intervenção médica não testada e isso não é diferente para as vacinas da covid-19."

Até o momento no Brasil não temos definições bem estabelecidas sobre a vacinação e não é possível dizer se a vacina poderá ser usada em gestantes, mas esse questionamento deve ser trazido.

E quem está pensando em engravidar, deve esperar?

Segundo o CDC as pessoas que receberem a vacina da Pfizer podem permanecer tentando engravidar. Quando a pandemia começou e esperávamos uns 3 meses de surto, recomendei para todas as minhas pacientes que aguardassem até uma estabilização da doença, pois fazia sentido naquele momento diante dos estudos da época.

Mas atualmente, com mais de 10 meses e com a previsão de que a vacina para pessoas fora da faixa de risco chegue apenas no segundo semestre de 2021, acredito que essa decisão deve ser pautada no vírus e nas questões de saúde pessoal de cada tentante.

Talvez a espera possa fazer uma tentante entrar na faixa etária de uma gestante de alto risco, entre outras características de saúde pessoal que pode acarretar em risco ou dificultar a gestação.

Importante lembrar que vacinas não são uma questão individual, a utilização delas pode afetar toda a comunidade, quem se vacina se protege e protege as pessoas próximas, sabendo que a eficácia de uma vacina nunca é de 100%, nós só conseguimos uma proteção significativa com um grande número de pessoas vacinadas.

Se a eficácia da vacina for, como nos trabalhos recentes que têm informado de cerca de 95%, nós precisaremos de 70% de pessoas vacinadas para conquistar a famosa imunidade de rebanho. Pensando que algumas pessoas com doenças que alteram a imunidade, recém-nascidos e alérgicos não irão receber a vacina. Por isso, questionar o uso em gestante e puérperas é algo válido.

Independente das informações contidas neste texto, deixo claro que a decisão final deve ser algo pessoal, feito em conjunto com médico e gestante. Quem não se sentir seguro não deve de maneira nenhuma ser hostilizado, pois não existe informação suficiente para essa decisão.

Espero que com os dados fornecidos neste texto possa ter colaborado com as gestantes para tomarem a melhor decisão possível.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências

Pregnant Women Should Be Offered COVID-19 Vaccine, Experts Agree - Medscape - Dec 17, 2020

FURLAN, Mara Cristina Ribeiro et al . Gravidez e infecção por Coronavírus: desfechos maternos, fetais e neonatais - Revisão sistemática. Rev Cuid, Bucaramanga , v. 11, n. 2, e1211, Aug. 2020.

https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/practice-advisory/articles/2020/12/vaccinating-pregnant-and-lactating-patients-against-covid-19