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Gustavo Cabral

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sequelas de pacientes pós-covid e ações médicas e sociais para preveni-las

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

18/05/2021 04h00

Temos discutido muito sobre os melhores caminhos para nos prevenirmos de infecção e propagação do coronavírus, para evitarmos que muitas pessoas possam desenvolver a covid-19. Isso é extremamente importante e, juntamente com a vacinação em massa, são os melhores caminhos para controlarmos a pandemia.

Outro assunto bem discutido é a quantidade de pessoas "recuperadas", pois isso gera esperança, algo que é muito importante sempre, ainda mais nesse momento em que nos privamos de nossos hábitos por tanto tempo, consequentemente afetando assim nosso psicológico e nossas esperanças para um futuro melhor.

Mas antes de entrar nesse assunto, vale ressaltar que com certeza passaremos por essa pandemia. E o nosso objetivo é minimizar os prejuízos causados pela covid-19.

Dessa forma, quero discutir sobre algumas das sequelas de pacientes que se "recuperaram" da covid-19, de forma a alertar a população para fatores que muitas pessoas estão sofrendo, mas sem gerar mais medo, e sim, estimular mais responsabilidade.

Para isso, conversei com René Gleizer, um amigo e excelente médico formado pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), neurologista pela USP (Universidade de São Paulo), que tem atuado como neurologista no Departamento de Pacientes Graves do Hospital Israelita Albert Einstein, assim como no Hospital Moisés Deustch. Ele também é coordenador da pós-graduação de neurointensivismo do Einstein.

Gleizer tem um excelente background para discutir sobre temas do tipo, manifestações neuromusculares e vasculares, pois são danos que têm gerado muita preocupação no meio médico-científico.

Poderia falar como tem sido o seu trabalho durante este período de pandemia?
René:
Gustavo, tenho trabalho como plantonista em uma unidade semi-intensiva, onde avalio pacientes internados em diferentes setores hospitalares, como pronto-socorro, unidades de terapia intensiva, além das alas e enfermarias, assim como consultório em hospitais particulares e públicos. No ano passado, trabalhei por 3 meses como plantonista em uma UTI com pacientes de covid-19 em um hospital público.

Você citou que no ano passado trabalhou como plantonista em uma UTI com pacientes de covid-19 em um hospital público. Fiquei curioso quanto a diferença de trabalho do ano passado, 2020, para este ano de 2021. Poderia falar mais?
Durante a primeira onda de infecções, devido à resistência à procura por atendimento médico nos hospitais pelo medo de adquirir o novo coronavírus, as internações por outras doenças reduziram drasticamente, culminando com complicações graves associadas tanto a doenças agudas, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, assim como doenças crônicas descompensadas como insuficiência cardíaca e doenças pulmonares crônicas.

Durante a segunda onda, ocorreu um acúmulo de internações por diferentes patologias sobrecarregando os serviços de saúde. É chocante notar a gravidade dos casos e o aumento no perfil de pacientes internados com graves sequelas pulmonares e neurológicas que demoram para receber alta hospitalar permanecendo meses ocupando leitos.

Quando pensamos em pacientes em estado moderado a grave, pensamos em pessoas com a síndrome do desconforto respiratório causada pela doença e que, consequentemente, pode levar à necessidade de atendimento em UTI. Esse pensamento está correto? O que acontece em nosso corpo para gerar esse desconforto respiratório e quando isso pode levar à necessidade de cuidados em UTI?
O principal responsável pelo acometimento pulmonar grave é uma velha conhecida dos intensivistas, a síndrome do desconforto respiratório agudo, um processo inflamatório difuso do pulmão, visto em outras infecções, como de H1N1. Um fator agravante é o acometimento inflamatório vascular prejudicando ainda mais as trocas gasosas com os alvéolos pulmonares.

Qual é a porcentagem média de pessoas que precisam de cuidados na UTI que consegue se recuperar? Difere muito de acordo com a idade e comorbidades?
É variável, vai de 20% a 70%. Depende da idade e condição de saúde prévia, como insuficiência cardíaca, diabetes e sobrepeso, por exemplo. Porém pessoas completamente saudáveis podem ter desfechos catastróficos também, e isso não pode ser negligenciado.

Outra condição que influencia na mortalidade dos pacientes é a condição de cuidado do hospital, que envolve recursos terapêuticos, disponibilidade e proporções de pacientes por profissional de saúde e treinamento/experiência da equipe médica com pacientes graves.

Ok, há muitas variantes para os pacientes se recuperarem da covid-19. A questão é: pessoas que não têm uma total recuperação, quais são os principais danos que tiveram após a covid-19?
A infecção grave pela covid-19 é uma doença sistêmica que acomete vários órgãos. A síndrome pós-covid-19 pode gerar persistência prolongada dos sintomas respiratórios, como tosse, falta de ar e fadiga. Doença renal crônica, miopatia, tromboembolismo, ansiedade, depressão, disfunção cognitiva e dor de cabeça.

Você poderia falar mais sobre danos neurais, que é sua área: quais são os mais comuns e como esses danos são perceptíveis ao médico e ao paciente? E quais os procedimentos que são feitos?
Além dos sintomas cognitivos e psiquiátricos, as lesões neuromusculares podem causar sintomas limitantes. As principais observadas e descritas na literatura são polineuropatia e miopatia do paciente crítico, além de lesões de nervo periférico e plexo com implicações não só motoras, como pé caído e fraqueza de membros superiores, como sensitivos e dolorosos, por vezes restringindo os pacientes a cadeira de rodas ou até mesmo ao leito.

As principais medidas são evitar lesões compressivas dos nervos, garantir a nutrição adequada durante a internação hospitalar e muita reabilitação com a equipe multidisciplinar composta por nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

Esses danos neurais são causados pela infecção do vírus nas células neurais ou por outros efeitos da doença?
Os principais fatores descritos na literatura e observado por nós estão vinculados ao processo inflamatório sistêmico, juntamente com o uso de corticoide em doses elevadas, uso de sedação e bloqueadores neuromusculares por tempo prolongado, posição prona e hipercatabolismo com grave sarcopenia e perda de peso.

E sobre as manifestações vasculares: quando você percebe que isso pode afetar as condições de vida dos pacientes após a recuperação?
Alguns autores consideram a manifestação grave associada ao Sars-CoV-2 como consequência de uma endotelite sistêmica que gera microtromboses em todos os órgãos, além dos fenômenos tromboembólicos potencialmente fatais, como infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo pulmonar e acidente vascular cerebral isquêmico. Existem alguns marcadores associados a um estado pró-trombótico, como elevação do D-dímero e imobilismo, porém ainda é controverso o uso de doses elevadas de anticoagulantes devido ao risco hemorrágico.

Quer dizer, os cuidados para não nos infectarmos com o coronavírus e possivelmente desenvolver a covid-19, não se resumem apenas a recuperação ou a morte, não é isso? Esta questão é mais complexa e requer cuidados além do estágio da doença?
Exatamente. O acompanhamento médico e com a equipe multidisciplinar, mesmo após a alta hospitalar, é fundamental, pois complicações tardias ainda podem ocorrer e merecem vigilância clínica.

Por fim, qual é a sua mensagem para a população que ainda não acredita que esse vírus seja tão nocivo? Aos famosos negacionistas.
É difícil acreditar que ainda existam pessoas que questionam o impacto na saúde e sociais relacionados à pandemia, mas infelizmente ainda existem. Tais indivíduos colocam em risco não só a sua vida, como dos seus entes e da sociedade que os rodeia.

Apesar de estarmos chegando a quase 500 mil vidas perdidas em nosso país, dos noticiários, da calamidade no sistema de saúde, infelizmente ainda temos que lidar com pessoas que negam a gravidade da doença e acreditam em tratamento precoce sem evidência na literatura.

Muitas vezes não se trata de ausência de informação ou conhecimento, mas, sim, que as fake news impregnam as redes sociais e geram uma desorientação social, por vezes por interesses escusos ou como instrumento ideológico. Enfim, apesar de todo o caos precisamos também tentar dialogar com quem não está disposto a ouvir e ver o que já está escancarado e comprovado.

E para as pessoas que estão se cuidando bem, que recado você deixa?
Como profissional de saúde, só tenho a agradecer e elogiar quem se cuida e, consequentemente, cuida do próximo. Estamos passando por momentos bem difíceis, mas graças a vocês sairemos mais rápido e mais fortes.