PUBLICIDADE

Topo

Gustavo Cabral

O errôneo olhar crítico sobre as vacinas de mRNA. A preocupação é outra!

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

10/12/2020 14h21

Os acontecimentos que envolvem a pandemia provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), causador da covid-19, demonstram a capacidade surpreendente da ciência em responder de forma esplendorosa a necessidade humana, nos diversos sentidos, e o que mais alarmou a humanidade tem sido o desenvolvimento das vacinas anti-covid-19.

Esse alarme tem gerado diversos sentimentos, desde desconfiança a excesso de segurança. Pensando como cidadão comum, fora da ciência, acho compreensível as duas formas de emoção, aquela que nos deixa sempre com um pé atrás quando envolve empresas e lucros incalculáveis, ate ações políticas com clara demonstração de interesse e crescimento pessoal.

Porem, não posso me dar ao luxo de pensar de forma não-técnica. Desde forma, ao analisar o desenvolvimento de uma vacina, preciso enxergar pontos que não são tão comuns para pessoas fora deste mundo científico.

Então vamos lá. O que realmente tem chamado atenção de forma errônea da sociedade, e muitas vezes de profissionais da saúde, inclusive médicos, é o susto para com as vacinas que usam a tecnologia de mRNA.

É duro escutar médicos dizendo que essa vacina vai alterar nosso DNA. Duro porque um profissional deste nível não poderia demonstrar tão irrisório conhecimento de biologia. Até compreendo alguns comentários por não saber o processo de desenvolvimento de uma vacina, mas falar que mudaria nosso código genético é realmente a demonstração de conhecimento grotesco sobre biologia, chegando a ser jocoso e ridículo.

O conhecimento de segundo grau básico desmistificaria essa informação. Bastando compreender que o DNA encontra-se em nosso núcleo celular e que o mRNA, usado para desenvolver a vacina, só chega até o citoplasma da célula onde encontra-se com o ribossomo para produzir a proteína do coronavirus.

Ou seja, o mRNA usado para desenvolver a vacina não chega nem próximo de nosso DNA, imagina alterá-lo!

Enfim, tirando essa parte esdrúxula de que o mRNA afeta nosso material genético, há outro componente na formulação desta vacina que realmente merece atenção, que são as chamadas partículas de gordura. Sim, sem esse "carro" para levar o mRNA para as células, a vacina não serve para nada, pois se colocarmos o mRNA no corpo, nosso organismo vai destrui-lo rapidamente.

Desta forma, para que as vacinas funcionem, precisamos de um carregador, chamado de LNPs (do inglês, lipid nanoparticles), que simplificamos chamando de partículas de gordura.

Neste ponto, sim, precisamos ter uma atenção diferente. Essas partículas de gordura são formulações que protegem o mRNA até que ele chegue em nossa células. E por ser tão importante para o desenvolvimento de vacinas, e para vários outros estudos, tem gerado um investimento financeiro fora da realidade de qualquer padrão de desenvolvimento científico nacional.

Porém estruturar uma partícula de gordura não é tão simples assim, embora empresas como Moderna e BioNTech tenham gerado e patenteado LPNs extremamente eficientes. Mas vale ressaltar que esses componentes, para terem estabilidade e a função desejada de entrega do mRNA, precisam de múltiplos componentes. Alguns exemplos que podem ser citados são amino lipídeo, fosfolipídeo, colesterol, PEG-lipídeo…

Enfim, componentes que gerem estrutura para encapsular e conduzir o mRNA até as células, mas que, ao mesmo tempo, gerem segurança e não produzam respostas exacerbadas e descontroladas do próprio sistema imunológico.

Para isso acontecer, essas nano partículas de gordura têm que ter tolerabilidade do corpo para com elas, para que realmente haja o sucesso das terapias baseadas em mRNA.

Desta forma, há sempre preocupações no perfil de tolerabilidade aceitável pelo nosso corpo para com a dosagem das vacinas que usam essa tecnologia.

Citando o exemplo dos trabalhos feitos pela Pfizer/BioNtech, os experimentos com os voluntários dos estudos clínicos da fase 1 e 2 mostraram uma forte resposta de anticorpos induzida pela vacina, dependente da dose, que variou de 1 ate 50 μg, ou seja, quanto maior a dose da vacina melhor a resposta de produção de anticorpos.

Pensando desta forma, poderíamos concluir que seria melhor manter a dose mais alta. Contudo, tendo como base a reatogenicidade relatada após 50 μg, ou seja, a capacidade de a vacina gerar reação adversa, uma segunda dose de 60 μg não foi administrada aos participantes que receberam 60 μg iniciais.

Além disso, na fase 3 dos estudos, para gerar maior segurança, a dosagem da vacina em uso ficou em 30 μg, reduzindo inclusive a dosagem com a qual obteve-se melhor resposta imunológica, que foi 50 μg.

Mas o que interessa essa visão detalhada, às vezes chata, de um cientista para o público?

Basicamente, o interesse é chamar atenção para a importância de que todos os estudos sejam conduzidos de forma extremamente cuidadosa do princípio ao fim, e que a conclusão dos estudos em fase 3 é de extrema importância para que a gente tenha muito mais resultados que nos deixem seguros em não haver nenhum desequilíbrio do sistema imunológico provocado por essas novas estratégias vacinais que levante dúvidas sobre a segurança das vacinas de modo geral.

Pois além da saúde pública, que vem em primeiro lugar sempre, temos sempre que estar atentos aos movimentos negacionistas e antivacinas que podem usar qualquer erro técnico-científico para prejudicar todo um histórico de sucesso.

Desta forma, precisamos nos unir para termos muitas vacinas seguras e eficientes contra a covid-19, mas ao mesmo tempo mantermos o olhar clínico, nos detalhes de cada vacina e exigir o máximo de transparência de todas as empresas e grupos de pesquisa envolvidas na produção.

Além disso, devemos ter uma atenção especial quanto aos efeitos colaterais provocados pelas vacinas de mRNA devido aos seus componentes chamados de LPNs. Toda e qualquer reatividade, efeito colateral que as pessoas vacinadas com essas estratégias vacinais tiverem, precisam ser relatados para que todo acompanhamento seja feito e para que possamos ter segurança.

Pois não temos vacinas previamente licenciadas usando essas tecnologias e, consequentemente, não temos estudos em larga escala e nem por longo período com essas tecnologias.