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Gustavo Cabral

O que a Pfizer divulgou até agora não é suficiente para licenciar vacina

Fiona Goodall/ Getty Images
Imagem: Fiona Goodall/ Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

21/11/2020 10h40

A farmacêutica americana Pfizer e a empresa de biotecnologia alemã BioNTech anunciaram ontem (20) que entrarão com pedido para liberação do uso emergencial de sua vacina contra a covid-19 na FDA (órgão que regulamenta medicamentos, vacinas e alimentos nos EUA). Esta semana, eu expliquei aqui no VivaBem o que é necessário para uma vacina ser licenciada para uso humano. E "levanto a bandeira", de forma consciente e técnica, de que todas as vacinas que são licenciadas para uso humano são seguras.

Mas, como cientista, preciso ver dados concretos que provem que essa vacina da Pfizer e qualquer outra vacina possa ser licenciamento para uso humano em larga escala. E o que a Pfizer juntamente com a BiOnTech "divulgaram de dados", entre aspas pois foram notícias, não dados científicos, estão longe de mostrar que essa vacina pode ser aprovada para uso humano em larga escala neste momento.

A justificativa é que esse licenciamento é para uso emergencial, ou seja, apenas para grupos específicos de pessoas, por exemplo profissionais de saúde e outros grupos mais suscetíveis à infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2). Porém, ao mesmo tempo, prometem a fabricação de 50 milhões de doses ainda para este ano de 2020 e, em seguida, 1,3 bilhões. Ou seja, essa vacina pode imunizar mais de 500 milhões de pessoas —pensando que são necessárias duas doses para funcionar— sem mostrar todos os dados necessários para o licenciamento dela. Mais de meio bilhão de pessoas representa uma "superlarga escala" de imunizações, não apenas para grupos específicos da população!

E, como venho chamando a atenção nos diversos meios de comunicação que consigo, digo:

Toda e qualquer vacina que seja licenciada para uso humano contra a covid-19 pode imunizar bilhões de pessoas, mas para que isso aconteça precisamos ter todas as informações técnicas científicas que provem sua segurança e eficácia.

Neste momento, o que temos da Pfizer é uma tecnologia promissora, a tecnologia de mRNA, mas que não há nenhuma vacina previamente licenciada para uso humano. Isso nos obriga a ter um cuidado maior, pois não temos experiencia com vacinação em massa e acompanhamento por longo tempo com essa tecnologia. Assim, não podemos garantir segurança de sua aplicação em larga escala nem a longo prazo.

O que a Pfizer traz são notícias da "análise preliminar que demonstra 95% de eficácia contra a covid-19, após os 28 dias da primeira dose". Ou seja, o que sabemos é que os pacientes vacinados com duas doses de sua vacina, com três semanas de intervalo entre a primeira e a segunda dose, e que foram infectados com o SARS-CoV-2 após uma semana da segunda imunização, tiveram assim 95% de proteção.

Mas na divulgação para a mídia, repito, para a mídia e não para meios científicos, deixaram de mostrar várias coisas. Por exemplo: Como foi feito essa análise para chegar a esse percentual de 95%? Uma coisa é falar para a mídia, outra é mostrar como a análise foi feita em revistas científica ou para uma comissão técnica de análise de dados que não tenha nenhum conflito de interesse. E isso precisa ser mostrado com detalhes.

Sem mostrar todos os dados reais, não adianta falar que há uma vacina com 95% de proteção e levar à sociedade para pressionar as comissões de análise

Tem muito mais coisas para serem expostas, uma delas é qual a durabilidade de proteção imunológica que essa vacina tem? Uma vacina precisa induzir no mínimo seis meses de proteção contra a covid-19. Enfim, vários aspectos precisam ser mostrados, como tento detalhar no artigo previamente citado.

Novamente, todas as vacinas licenciadas para uso humano são seguras e isso não pode mudar neste momento. Pois podemos "jogar no colo" dos movimentos antivacinas o que eles mais querem, que é usar um possível "exemplo errado" para destruir toda uma história de conquistas na saúde pública por meio do uso de vacinas para prevenir doenças infecciosas. Consequentemente, isso pode levar a uma barbaria incalculável, com mais negacionismo que pode conduzir à generalização das vacinas como algo inseguro, desestabilizando a sociedade num todo.

Vamos pensar de forma crítica, agir de forma consciente e preservar a vida em primeiro lugar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.