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Fernanda Victor

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Epigenética: o que é e qual a sua relação com as doenças metabólicas?

Schäferle/Pixabay
Imagem: Schäferle/Pixabay
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Fernanda Victor

Fernanda Victor é médica endocrinologista e metabologista. É titulada pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e mestre em ciências da saúde pela UPE (Universidade de Pernambuco)

Colunista do UOL

17/03/2022 04h00

A epigenética é a razão pela qual precisamos buscar um estilo de vida mais saudável e estabelecer um equilíbrio entre o ambiente e a nossa genética.

O termo "epi" vem do grego e significa sobre ou por cima da genética. Assim, a epigenética é a capacidade que o corpo humano desenvolveu de ativar ou desativar alguns dos nossos genes de acordo com o ambiente ou o estilo de vida que adotamos, mas sem provocar alterações em nosso DNA.

Em poucas palavras, você é mais do que a sua genética, pode ir bem além dela! Os genes herdados dos seus pais não te definem e nem representam o seu destino final. Você pode seguir um caminho diferente daquele determinado pela sua herança genética.

É possível traçar uma nova rota e mudar o curso das doenças através de mudanças positivas no ambiente, no comportamento e nos hábitos, já que esses passos, quando dados de forma sustentada, podem contribuir para silenciar diversas doenças.

Alguns estudos sugerem que a epigenética pode impactar nossas vidas em até 80%, reservando apenas cerca de 20% para a contribuição genética. Embora seja inegável a importância de um estilo de vida saudável, ainda assim não há como "zerar" os nossos genes e nem temos o poder de controlar totalmente o nosso corpo para evitar o adoecimento.

Seria até mais fácil se assim fosse, não é mesmo?! O número de casos de câncer, doenças metabólicas e síndromes genéticas despencaria consideravelmente. As marcas epigenéticas agem influenciando a nossa saúde, mas não são capazes de "deletar" nossa genética.

A maioria das doenças apresentam um caráter multifatorial. Isso significa dizer que mesmo que haja predisposição genética para o desenvolvimento de determinada doença, a sua manifestação será influenciada por diversos fatores, mas sobretudo pelos seus hábitos.

Assim, mesmo irmãos gêmeos idênticos (mesma carga genética) podem expressar genes diferentes e não desenvolverem os mesmos problemas de saúde ao longo da vida, a depender do ambiente ao qual estão expostos.

A epigenética também ajuda a explicar o crescimento maciço da obesidade e de outras doenças metabólicas nas últimas décadas. Evidências acumuladas de estudos robustos sugerem que esse incremento pode estar associado às características do estilo de vida moderno e ao ambiente obesogênico, com a ingestão de alimentos altamente calóricos, a adoção de um comportamento sedentário ou a exposição a fatores ambientais diversos, como os dês reguladores endócrinos.

A obesidade e o diabetes tipo 2 são exemplos marcantes de doenças metabólicas que são mais afetadas pelos hábitos do que mesmo pela genética. Uma pessoa cuja mãe e avó apresentam diabetes não necessariamente desenvolverá diabetes. Se existe história na família, isso deveria ativar um sinal de alerta e ser mais um fator para redobrar os cuidados e não reproduzir comportamentos que direcionariam ao desenvolvimento da doença.

A epigenética é, portanto, resultado das nossas escolhas. Seus hábitos impactam, positivamente ou negativamente, na sua saúde. O ambiente pode, sim, moldar a expressão dos seus genes e influenciar o surgimento (ou não!) de doenças. Então, sempre que possível, faça boas escolhas!

Referências:

1. Mahmoud AM. An Overview of Epigenetics in Obesity: The Role of Lifestyle and Therapeutic Interventions. J Mol Sci. 2022.

2. Kim JB et al. Emerging roles of epigenetic regulation in obesity and metabolic disease. J Biol Chem. 2021.