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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Todas as escolas de educação infantil promovem educação em sexualidade

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

24/06/2022 04h00

Vou começar esse texto afirmando que é inevitável que diálogos sobre sexualidade surjam no ambiente escolar. E que bom! Ainda que estejamos presenciando retrocessos acontecendo no que diz respeito às políticas públicas relacionadas aos direitos relacionados à sexualidade, sobretudo de crianças e adolescentes, as próprias infâncias fazem com que o tema circule pelo ambiente escolar, trazem questões que reivindicam o direito à informação sobre seus corpos e sobre desenvolvimento dentro das escolas.

A escola é o local onde crianças e adolescentes mais convivem com pessoas de sua faixa etária. Isso proporciona não só a criação de laços de amizade e resolução de conflitos, mas também fomenta o contato com contextos culturais, comunitários e familiares plurais. E é comum que nesse período as crianças queiram conversar com pessoas adultas sobre suas descobertas no convívio.
Uma criança pode querer entender a diferença entre a sua religião e a de sua amiga.

  • Prô*, é verdade que existe uma religião que tem mais de um Deus?
  • Outra criança pode querer compreender por que um amigo mora num serviço de acolhimento institucional, enquanto ele mora com a mãe e a avó.
  • Profe, por que tem criança que não mora com os pais?
  • Também há crianças que querem entender por que os outros corpos são tão diferentes do seu.
  • Prô, por que a fulana não tem pipi? Ela arrancou?
  • Profe, por que as pessoas adultas gostam de beijar as outras na boca?
  • Prô, meu pai não me deixa brincar de boneca em casa. Por que menino não pode brincar de boneca?
  • Minha mãe disse que não pode pendurar calcinha no varal porque os homens podem ver. Profe, por que homem não pode ver calcinha no varal?
  • Profe, não gosto quando meu tio brinca de beijar a minha pepeca. Por que ele gosta disso?
  • Prô, eu tenho cinco namorados, todos dessa escola. Quantos namorados você tem, prô?

Todas as perguntas acima foram feitas realmente por crianças com idade entre três e cinco anos, dentro do contexto de uma escola pública de educação infantil na cidade de São Paulo, e levadas para discussão em supervisão comigo para compreender qual seria a melhor forma de dialogar sobre o assunto com crianças do ensino infantil.

Uma dessas situações está diretamente relacionada à denúncia de violência sexual contra uma criança. E talvez essa criança jamais tivesse contado o que vivia em sua família se não houvesse abertura da escola para realizar essa escuta.

Toda escola de educação infantil lida com demandas vindas das crianças o tempo todo. Todos os dias, no ambiente escolar, alguma criança abordará esse tema e perguntará algo relacionado a gênero e sexualidade e, obviamente, as pessoas adultas que atuam na educação não deixarão as crianças falando sozinhas. Suas perguntas serão acolhidas, escutadas e, dentro de um compromisso ético e metodologia adequada, serão respondidas.

Então, sim! Toda escola de educação infantil fala de sexualidade, então toda escola promove a educação em sexualidade.

Em outro momento pretendo falar sobre as linhas de atuação na educação em sexualidade, mas hoje quero enfatizar que o que mais me encanta no trabalho da educação em sexualidade no ambiente escolar é que, mesmo tendo uma resistência de alguns segmentos adultos de nossa sociedade para o debate sério sobre a importância de falar do desenvolvimento sexual infantojuvenil, as próprias crianças e adolescentes trazem a pauta e mostram a urgência de termos espaços seguros de aprendizado sobre o próprio corpo e o respeito aos demais corpos.

Profissionais da educação podem e devem dialogar com crianças sobre essas indagações, afinal a escola é (ou deveria ser) um espaço seguro para se debater ideias e construir conhecimento com base em informações reais, sem fundamentalismos e pautado na ciência, na ética profissional e respeito às fases de desenvolvimento de crianças e adolescentes. E a educação em sexualidade se pauta em tudo isso!

Infelizmente, ainda temos muito caminho para percorrer em defesa de algo que deveria ser básico, mas é fortalecedor perceber que as crianças estão mostrando cotidianamente que precisamos falar sobre desenvolvimento sexual saudável na infância.

Desenvolvimento sexual saudável significa se desenvolver acessando informações sobre sexualidade com metodologias e informações adequadas a sua faixa etária.

Nos atentemos às fake news e tomemos cuidado para não defender algo baseado em falsas informações que só prejudicarão as próprias crianças.

*Prô e profe são abreviações usadas por crianças para se referir às pessoas profissionais de educação que atuam diretamente na sala de aula.