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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sexualidade na adolescência: postura adulta para o diálogo saudável

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

12/11/2021 04h00

O ano era 1997. Eu tinha 13 anos, estudava numa escola pública de uma região periférica da cidade de São Paulo e estava na sétima série do ensino fundamental. Minha turma devia ter cerca de 40 adolescentes.

A professora de biologia entrou na sala e informou:

— Eu vou mostrar o conteúdo desse bimestre, mas se alguém rir, eu não explicarei nada!

Disse isso e nos entregou os livros com a orientação de que deveríamos abri-los somente após o fim da distribuição. Pediu que abríssemos numa página específica e, em menos de dois segundos, a sala se encheu de gargalhadas.

A página continha duas imagens: o desenho de uma vulva e de um pênis. Ambos com setas apontando para partes específicas que sinalizavam como tudo era nomeado.

O riso é uma forma de mascarar muitas coisas, principalmente na adolescência. Adolescentes riem para esconder desconfortos, nervosismos, inseguranças, medos ou desconhecimento sobre algum tema.
Minha professora de biologia cumpriu sua promessa e recusou-se a seguir trabalhando o tema durante todo o bimestre.

Alguns anos depois, em 1999, agora com 15 anos, estudando à noite no primeiro ano do ensino médio, minha turma recebeu a visita de um profissional da saúde (não me recordo a especialidade). Era um homem cisgênero branco, alto, com jaleco e um retroprojetor. O tema do encontro com ele era sexualidade na adolescência.

O homem começou nos contando a história de uma menina que introduziu uma agulha de crochê na vagina para abortar e acabou morrendo. Disse isso sem propor qualquer aprofundamento no debate. Não falou sobre saúde sexual e reprodutiva, não citou o SUS ou os impactos da desigualdade social em nossa sexualidade.

A cada lâmina apresentada, o homem nos assustava um pouco mais e dizia que sexo é um ato feito somente por adultos, pois na adolescência nossa energia deveria estar voltada para os estudos e trabalho. Vimos pênis com secreções esverdeadas, vulvas com caroços e fetos mortos num tubo.

Esses foram os dois momentos em que tive aula de educação em sexualidade na adolescência, durante os anos 90.

Mais de 21 anos depois desses episódios, eu —e muitas outras profissionais— estou aqui, atuando como psicóloga, sexóloga e educadora em sexualidade infantojuvenil, com objetivo de provocar reflexões, trazendo informações respeitosas sobre a temática e de forma positiva.

A adolescência é um período que dura cerca de seis anos (se considerarmos a idade de 12 a 18 anos). E tem muita mudança acontecendo interna e externamente, portanto pessoas adultas que se propõem a construir processos educativos, seja em casa, na escola ou em outros espaços educacionais, precisam estar dispostas a dialogar com um público que vive tudo com muita intensidade.

A seguir, trarei algumas informações básicas sobre adolescentes e o diálogo em sexualidade:

  1. Gargalhadas e gritos: se você iniciar um diálogo sobre sexualidade com o público adolescente, precisará criar estratégias para lidar com os risos e gritos de espanto que adolescentes apresentarem. Sexualidade é um tema é tabu na sociedade e assim sendo, o grupo (ou adolescente individualmente) usará algum mecanismo de autoproteção. Gargalhar ou gritar não são sinais de desrespeito a sua tentativa de aproximação, pelo contrário, se a risada ou grito aparece é porque seu tema está sendo ouvido;
  2. Não julgue, escute: se adolescentes trouxerem informações sobre suas vivências sexuais, evite dizer coisas como: "Sua mãe sabe que você está fazendo essas coisas?", "Você não tem vergonha de dizer isso, não?". Busque escutar e propor reflexões sobre o que foi trazido. Se você não souber a resposta para alguma pergunta, diga que não sabe e sugira que pesquisem coletivamente sobre o tema;
  3. Não precisa mudar sua personalidade: você não precisa falar gírias, inventar passinhos ou vídeos engraçados de rede social para dialogar com adolescentes. Fale do seu jeito, mas seja uma pessoa didática e evite usar palavras que só você entenderá. Caso use algum termo de difícil compreensão, explique o significado;
  4. Não precisa expor sua intimidade: por fim, é muito importante trazer exemplos de suas vivências, contudo não recomendo trazer questões extremamente íntimas e que fazem parte de sua privacidade. Se alguém lhe perguntar "Você gosta de sexo oral?", por exemplo, é possível dizer que essa é uma questão muito íntima e que podemos falar sobre o tema abertamente, mas que não quer expor sua intimidade e isso é um direito sexual que tanto você quanto adolescentes também têm.

Existem muitas posturas éticas possíveis no convívio e no trabalho com adolescentes. Expus algumas aqui e espero ter contribuído para sua reflexão e ação em defesa da saúde sexual e reprodutiva nessa fase do desenvolvimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL