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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Eu te amo, mas...': saúde mental e a naturalização da violência infantil

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

01/10/2021 04h00

Talvez você não tenha visto ainda, mas circula pelas redes sociais uma série de vídeos nos quais pessoas adultas aparecem cantando para crianças um trecho da seguinte canção: "Eu te amo, mas se for preciso eu te quebro no cacete".

As performances são variadas. Algumas cenas mostram pessoas adultas apontando o chinelo para o rosto de crianças que aparenta ter três anos de idade, outras mostram cintos, cabos de vassoura e, em um vídeo específico, a pessoa adulta enrola o pescoço da criança com um fio de energia elétrica.

Não vamos mergulhar no que diz o restante da letra, pois não se trata de uma música relacionada à violência infantil, mas é importante salientar que todos esses vídeos são gravados com a intenção de gerar riso diante da ameaça de "quebrar a criança no cacete", caso seja preciso.

Algumas pessoas podem dizer que se trata de uma cena cômica de rede social, logo deveria ser vista como uma brincadeira inocente e sem maldade. Outras dirão que o mundo está chato demais e agora não se pode nem brincar.

Mas será que as brincadeiras que fazemos não são inspiradas na realidade em que vivemos? Será que a violência contra pessoas adultas gera mais comoção do que a violência infantil? Por que será que dizer que vamos "quebrar uma criança no cacete" nos diverte? Será que riríamos dessa música se fosse um homem cantando para sua esposa que "eu te amo, mas se for preciso eu te quebro no cacete"?

A bell hooks, uma escritora e professora norte-americana maravilhosa, em seu livro "Tudo Sobre o Amor", diz o seguinte:

Em contraste com as mulheres, que podem se organizar e protestar contra a dominação machista, exigindo direitos iguais e justiça, as crianças só podem contar com adultos bem-intencionados que eventualmente as ajudem caso sejam exploradas e oprimidas em casa."

Quando dizemos a uma criança que a amamos, mas se for preciso a "quebraremos no cacete", estamos passando a mensagem de que o amor e a violência são duas faces de uma mesma moeda e que sou eu, pessoa mais forte, quem defino a necessidade de agredi-la. Eu te bato porque te amo.

Nesse momento estamos dando a informação de que quem ama bate e quem apanha mereceu a agressão sofrida. A vítima se torna a culpada.

Essa lição de amor e agressão aprendida no âmbito familiar, muitas vezes, é levada para outras interações sociais e repetida em outras relações. Contudo, cabe lembrar que a criança não aprendeu a sempre ser vítima de agressões, na verdade, ela aprendeu que quem é mais forte deve agredir as pessoas mais fracas.

Não são raros os relatos de educadoras do ensino infantil dizendo que muitas crianças que são agredidas em casa batem em outras crianças na escola. Isso talvez se dê pelo fato de a criança perceber que em casa ela é a mais fraca, e por isso apanha, mas na escola ela é mais poderosa, então lá ela pode agredir.

Existem muitas pessoas adultas que dizem ter apanhado na infância e hoje não sentem nenhum efeito dessas agressões em sua vida. Será mesmo?

Vamos observar alguns possíveis efeitos na saúde mental de pessoas que apanharam durante a infância:

  • Medo de se posicionar diante de figuras de autoridade, como, por exemplo, um chefe: pode estar relacionado ao medo de sofrer alguma agressão, mesmo que, conscientemente, não haja esse risco;
  • Autoestima intelectual baixa: no caso de pessoas que apanhavam por não fazer os deveres escolares com maestria ou por tirar notas baixas na escola;
  • Pavio curto em debates ou momentos de discordância de opinião: muitas pessoas aprenderam na infância que "quem está errado tem que calar a boca";
  • Dificuldade de sair de um relacionamento abusivo: afinal, desde criança aprendeu que, se está apanhando, é porque mereceu, mesmo não concordando com isso;
  • Grosseria como forma de expressar afetos: muitas pessoas adultas dizem que a grosseria é a sua forma de demonstrar amor, mas em boa parte das vezes trata-se de pessoas que aprenderam que amor é sentimento e a violência (física ou verbal) é uma forma possível de expressá-lo.

Não se trata de apontar o dedo para pessoas que têm filhos, afinal a agressão contra crianças acontece na sociedade como um todo e é validada por corpos adultos, de modo geral. Prova disso é o sucesso desses vídeos que falei.

Comentários com emojis de risos e milhares de curtidas mostram o quanto nós, pessoas adultas, temos dificuldade em enxergar humanidade nas crianças. Nós as tratamos como seres que precisam ser domesticados e docilizados (corpos calminhos, quietos e dóceis) e para alcançar esse objetivo temos o aval para ameaçar "quebrá-las no cacete".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL