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Dante Senra

UTI para pacientes com covid-19 pode ser humanizada? Sim, precisa!

Morsa Images/IStock
Imagem: Morsa Images/IStock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

01/11/2020 04h00

Mais do que pode, precisa! Sobretudo neste momento de extremo sofrimento, esse olhar para a humanização ganhou contornos maiores.

Diversas características marcaram essa doença, mas o distanciamento até mesmo dos não contaminados talvez tenha sido o que mais impôs sofrimento a todos nós.

O temor de ser internado na terapia intensiva, que já existia antes da pandemia, já que isso pressupõe gravidade, ganha intensidade, visto que foi amplamente divulgado que um em cada cinco dos pacientes que chegam nestas unidades contaminados pelo coronavírus não voltam para casa.

Além disso, o medo de um cuidado desumano em um ambiente supostamente hostil das terapias intensivas cada vez mais sofisticadas, o que as torna impessoais e inevitavelmente despersonalizantes, fica agravado pela ausência dos familiares neste difícil momento.

Os pacientes na UTI entregam suas vidas a estranhos totalmente equipados com vestimentas de biossegurança, cujas funções desconhecem, e a rotinas totalmente desconectadas de seus hábitos.

As informações passadas de maneira clara e segura ajudam os pacientes a minimizarem os seus medos. A ausência de visitas de familiares impostas por regras que visam a proteção, tornou essa internação um momento ímpar da história dessas unidades e na vida dos pacientes.

Esforços têm sido realizados para que não tornemos essa pandemia ainda mais cruel do que já é.

O que tem sido feito?

Afastado de tudo e todos que ama, possibilidade de ser intubado, de não retorno e ser tratado por pessoas anônimas e mascaradas compõe esse cenário de terror.

Assim, entender a dimensão do ser humano, não apenas como um ser biológico, mas como um ser psicossocial, que tem emoções, sentimentos, medos e pudores neste difícil momento, é parte fundamental desse processo.

Acolhida carinhosa, identificação sempre do profissional de saúde atuante e uso da tecnologia sempre que possível para estabelecer contato com parentes e amigos tem sido fundamental para o enfrentamento.

Algumas terapias intensivas (na grande maioria de hospitais privados) possuem televisores que se tornam meios de contato com o mundo exterior e, portanto, ajudam na distração e passagem do tempo, mas precisam ser usadas com cautela, pois como dizia o ex-ministro da saúde "podem por vezes ser tóxicas".

O celular e o tablet, que tanto distanciaram as pessoas, que tanto desumanizaram as relações, hoje são instrumentos fundamentais.

Permitir que estes pacientes permaneçam nas unidades com eles para que o contato com o mundo exterior seja estabelecido é fundamental.

Para os pacientes intubados, o contato do médico com os familiares é feito por telefone em horário pré-estabelecido e sempre que houver mudança do quadro, o que alivia em parte o sofrimento e gera segurança.

Lembremos que toda a tecnologia não substitui a sensibilidade humana, e a angústia e o sofrimento são de todos nós, visto que esse lugar de paciente pode ser ocupado facilmente por quem cuida, ainda mais em tempos de pandemia.

A vida é marcada pelo ineditismo e o imponderável em nosso país é sempre possível, pois quando se pensa que a situação não pode piorar, o hospital pega fogo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL