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O mundo (ou melhor, o ser humano) não muda

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

27/06/2020 04h00

Entender como o mundo funciona quando ele para de funcionar parece ser o desafio dos próximos meses.
Entretanto, mesmo em uma análise superficial, fica fácil entender que ele nunca funcionou direito.

Apenas três exemplos para ilustrar a teoria de que vivemos mais do mesmo.

  • O inaceitável e duradouro racismo que sempre existiu

A extrema estupidez e idiotice expressas sob a forma torpe e execrável do racismo e/ou xenofobia ilustram negativamente a história da humanidade.

Na Idade Média, o sentimento de superioridade xenofóbico de origem religiosa devido ao poder político da igreja cristã justificava em sua visão míope e distorcida a submissão de povos conquistados para incorporá-los à cristandade.

Com a chegada de portugueses e espanhóis na África, a ideia inicial era submeter esses povos e explorar a riqueza que os países possuíam. Surge a escravidão, gêmea xifópaga do racismo, com motivação financeira aliada a ideia de superioridade. Nos EUA, oficialmente termina em 1863, e no Brasil em 1888. Nos EUA, o sentimento de ódio e de discriminação permaneceram.

Até 1963, a universidade era racialmente segregada e os estudantes não brancos não podiam participar. Essa irracionalidade passa pela criação de sociedades secretas, como a Ku Klux Klan, que estabeleceram como objetivo manter a hegemonia branca no Sul do país.

Estupidez manifesta e evidenciada diariamente ainda hoje, como deixa claro a morte de George Floyd pedindo para respirar. Mais este horror que culminou com milhares de pessoas nas ruas, que mesmo expondo-se em tempos de pandemia gritavam ao mundo a frase "black lives matter", porque parece que nos esquecemos disso de tempos em tempos. Os céticos argumentaram que todas as vidas importam. Certo, mas só a dos negros está em perigo.

Na África do Sul, o chamado Apartheid foi um regime de segregação racial implementado em 1948 pelo pastor protestante Daniel François Malan —então primeiro-ministro— e adotado até 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional, no qual os direitos da maioria dos habitantes foram cerceados pela minoria branca no poder.

No Brasil, apesar de a escravidão ser abolida em 1888, os negros foram vítimas do ''apartheid social" que sempre sufocou o país, estabelecendo um grande distanciamento entre ricos e pobres.

Mesmo após a promulgação da Constituição de 1988, que considera o racismo como "crime inafiançável e imprescritível", no Brasil ele continuou ocorrendo de maneira velada. O ser humano insiste em não entender que somos diferentes, mas não desiguais.

  • Vivenciamos guerras ininterruptamente

Para citar apenas a partir da Idade Média, que inicia-se com a queda do Império Romano do Ocidente, não houve uma pausa sequer de um único século em que o ser humano não tenha tentado se destruir começando com a Invasão Islâmica da Península Ibérica no ano de 711, até os dias atuais com a Guerra Civil na Síria, Rebelião curda na Turquia (1978-presente) ou crise separatista nos Camarões (2016-presente).

Calcula-se um total de 80 milhões de mortos apenas nas duas grandes guerras mundiais, mais do que as catástrofes naturais ou pandemias.

Parece que o segundo maior mandamento da Bíblia: "Amar ao próximo como a si mesmo" (Marcus 12:30-31), depois de amar a Deus sobre todas as coisas, há tempos tem sido esquecido nesse mundo líquido de Z. Bauman, que é um mundo especialista em diluir valores.

  • Vivenciamos epidemias quase ininterruptamente

Quantas epidemias assolaram a humanidade na sua existência? Peste de Atenas 400 anos antes de Cristo, Peste negra, gripe espanhola, tuberculose, varíola, Aids, ebola, Sars, gripe suína, para citar apenas algumas.

Todas aterrorizaram e mataram milhões de pessoas. Mudaram civilizações e estruturas das sociedades.
O fanatismo religioso floresce na Europa depois da peste negra, mas a familiaridade com a morte faz o homem pensar mais na sua vida na terra fazendo surgir o renascimento com valorização das artes e ciências.

Após a gripe espanhola, que coincide com o final da grande guerra, vem o desenvolvimento das ciências, e a ideia de que o estado tem que prover bem-estar a sociedade.

Assim, pode ser que as sociedades tenham algum ganho pós epidemias mesmo que com enorme preço.

Mas em que mudou o ser humano?

Onde está a solidariedade tão necessária para melhorar o mundo? Atravessar a crise é uma viagem solitária, mas precisa ser solidária.

Após essa pandemia, mais uma enzima catalisadora para mudanças, entre tantas que já tivemos, quem dera o chamado novo normal seja a prevalência de um mundo onde o outro importe, sem as desigualdades que evidenciaram as fragilidades da sociedade, com acesso igualitário a saúde, com valorização das relações sociais e com uma vida digna que todos merecem.

Um mundo onde o consumo não seja o elemento redentor da nossa sociedade. Onde o valor seja hoje e agora e não o próximo fim de semana, o próximo feriado, a próximo viagem ou a próxima aquisição material.

Um mundo em que as pessoas valorizem o cuidado com a saúde, já que perceberam que os mais frágeis, como os indivíduos com pressão arterial e diabetes sem controle, tabagistas, bem como os mais obesos, foram as maiores vítimas da pandemia.

Estamos em um momento na humanidade onde conflitos de opiniões que são inerentes da democracia se transformam em confrontos.

O mundo "democrático" está polarizado. Dividido entre progressistas e conservadores. Lembro que o pensador inglês Gilbert Chesterton, já no início do século passado, dizia: "O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros e o dos conservadores é impedir que os erros sejam corrigidos".

Apesar de tudo, costumo pensar o mundo de maneira otimista e construtiva. Temos mais uma chance de transformar nossa atitude e sociedade. Se assim não for, que Deus tenha pena de nós, porque nada será pior do que um novo, ainda pior que o velho normal.