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Expectativa de vida do brasileiro aumentou: o que isso realmente significa?

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

07/12/2019 04h00

Está semana recebemos a notícia de que em 2018 ganhamos 3 meses a mais de expectativa de vida em relação ao ano anterior. Isso mesmo, a expectativa de vida, também chamada de esperança de vida, vem aumentando. Uma pessoa nascida no Brasil em 2018 tem expectativa de viver, em média, até os 76,3 anos. Isso representa um aumento de três meses e 4 dias em relação aos nascidos em 2017. A expectativa de vida dos homens aumentou de 72,5 anos em 2017 para 72,8 anos em 2018, enquanto a das mulheres foi de 79,6 para 79,9 anos.

Considerando que um bebê nascido no Brasil em 1900, a expectativa de vida era de 33,7 anos (nos EUA, 47 anos) e em 1940 era 45,5 anos, demos um salto significativo em pouco mais de 11 décadas. Ou seja, ganhamos 4 décadas de vida.
Óbvio que isso não é bem assim. Vivia-se menos sim, mas não que essa fosse a idade limite, nem da maioria dos óbitos. A expectativa de vida na verdade é uma média.

No início do século 20, ocorriam assustadores 150 a 250 óbitos em menores de um ano por mil nascidos vivos segundo o Portal de Estatísticas do Estado de SP (Fundação Seade). Ou seja, na conta, as muitas vidas excessivamente curtas diminuíam a expectativa média de vida.

Um dos fatores da melhora da nossa expectativa de vida em 2019 decorre indiscutivelmente do fato da redução da mortalidade infantil. Hoje em nosso país, segundo o IBGE, essa mortalidade é de 12,4 mortes até 1 ano para cada 1000 crianças nascidas vivas. Os dados revelaram que o estado com menor mortalidade infantil é o Espirito Santo com 8,1 por mil e apesar disso ainda muito distante dos países como Japão que apresentam mortalidade infantil de 2 crianças para cada 1000 nascidas vivas.

Muitas são as peculiaridades regionais em nosso país, com diversos percentuais de expectativa de vida que oscilam de acordo com cada estado.

Em nenhum estado do Brasil se vive por tanto tempo quanto em Santa Catarina. A expectativa é de 79,7 anos em média. São pelo menos três anos a mais que a média do brasileiro, que subiu para 76,3 anos. As mulheres catarinenses vivem em média 83 anos, enquanto os homens 76,4 anos —os dois números são os maiores do país. A menor expectativa de vida no Brasil é no Maranhão, com a média de 71,1 anos.

Por que as mulheres vivem mais?

Sim, elas vivem mais que os homens entre 5 a 6 anos em quase todo o mundo. Alguns possíveis fatores podem responsáveis por esse fenômeno:

- As mulheres são mais cuidadosas com a saúde e tem mais hábitos, talvez pela gestação, de frequentar médicos e fazer exames periódicos;

- O hormônio feminino estrogênio é sem dúvida nenhuma um aliado das mulheres (até a menopausa) contra as doenças do coração e contra os distúrbios metabólicos;

- A mortalidade infantil é mais comum entre os bebês do sexo masculino. Segundo o geneticista David Gems, este fato estaria ligado aos cromossomos que determinam o sexo. As mulheres têm cromossomos XX e os homens têm cromossomos XY. "Se você tem um defeito genético no cromossomo X e é uma mulher, tem uma 'cópia de segurança'. Os homens, não tem essa cópia", explicou durante um Congresso o geneticista e biogerontologista que é professor de Biologia do Envelhecimento na University College London;

- Trabalhos considerados mais perigosos em sua maioria são exercidos por homens.

Mas no Brasil, essa diferença na sobrevida é ainda maior. Como vimos nos dados acima, as mulheres vivem sete anos a mais que os homens no Brasil (72,8 anos para homens e 79,9 anos para mulheres). Provavelmente pelos altos índices de violência e mortalidade dos jovens maior no sexo masculino.

Qual a participação da medicina neste resultado?

Talvez uma das maiores descobertas da medicina tenha sido a do antibiótico. A descoberta da penicilina é atribuída ao médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming em 1928 (o medicamento está disponível desde 1941), sendo o primeiro antibiótico a ser utilizado com sucesso. A descoberta da vacina da pólio aconteceu em 1953. Embora nesta época no Brasil a expectativa de vida continuasse baixa, nos EUA já passava de 65 anos, o que mostra que melhores condições de vida e sociais da população proporcionam melhores resultados na longevidade de uma população do que o auxílio médico, embora importante.

Assim, serviços de saneamento básico, alimentação, controle de poluição, índices de violência e educação (muito diferentes dos divulgados está semana pelo Pisa para o Brasil) são muito mais importantes do que construção de Hospitais (meu Deus, temos poucos dos dois!) quando o assunto é longevidade.

Desse modo, acredita-se que a medicina tenha sido responsável por talvez cinco ou seis anos apenas desse aumento de expectativa de vida que ocorreu no último século.

Analisemos o outro lado

A expectativa de vida não deve ser analisada apenas ao nascimento. É preciso refletir sobre o outro lado da vida... a velhice!
O número de pessoas com mais de 60 anos deve superar os 2 bilhões em 2050 no mundo. A questão é: basta viver muito?
O desafio é continuar vivendo sem políticas públicas, sem cuidado, sem saúde, sem cuidadores, sem recursos financeiros. Vamos aos fatos...

A taxa de fecundidade no Brasil que nos últimos 50 anos era de 6,2 filhos, passou para 1,77 em 2013. Na Europa, esta taxa é substancialmente menor. Isto significa que contar com filhos para o cuidado ficou mais difícil. As famílias são agora pequenas e agora ambos os pais estão no mercado de trabalho.

Nosso governo vetou recentemente o projeto de lei que regulamentava a profissão de cuidador. A quem vamos delegar o cuidado?
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios indicam que 73% da população idosa são usuários do SUS (Sistema Único de Saúde), e 53% utilizam posto ou centro de saúde como primeiro local de atendimento, ou seja, a saúde suplementar é um privilégio de poucos no Brasil, já que os preços pagos aos planos de saúde continuam disparados.

Temos uma população crescente de idosos em níveis nunca vistos, que por inúmeras causas envelhece com muitos diagnósticos médicos (nesse texto falo um pouco mais sobre como fazer com que a longevidade seja mais bem aproveitada). Ou seja, estamos vivendo mais, com menos familiares, menos cuidadores e menos assistência.

Segundo a pesquisadora do Ipea Ana Maria Camarano, em fala em um Congresso, "nós temos condições de desenvolver políticas públicas e sociais eficazes para enfrentar essa nova realidade, mas para isso é preciso que os governantes tratem esse problema como prioridade".

Na contramão de tudo isso a ciência e tecnologia encarecem a medicina. Nos EUA, 1 em cada 5 dólares da produção econômica é direcionado a assistência médica e setenta por cento dos gastos da assistência medica são consumidos por cerca de 10% da população do país.

No Brasil, os gastos públicos com saúde equivalem a 3,8% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto os países desenvolvidos aplicam, em média, 6,5% do PIB em saúde.

Esta visão tida por muitos como pessimista (argumento embasado por dados), tem o intuito de promover o cuidado no âmbito pessoal, maneira eficiente de aumentar a autonomia e reduzir a dependência.

Nosso país envelheceu antes de enriquecer. Precisamos administrar esse momento. Que Deus nos proteja!