Uso de pronome neutro vira disputa entre esquerda e direita na França

Emmanuel Macron, o presidente da França, disse na última segunda-feira (30) que é contra o uso de pronomes neutros e da chamada "escrita inclusiva". A fala aconteceu durante a inauguração da Cité Internacional da Língua Francesa, horas antes de o Senado francês aprovar por ampla maioria proposta de lei, apresentada pelos partidos de direita, para extinguir este tipo de linguagem no país.

Para ser adotado, este projeto de lei ainda deve ser submetido à Assembleia Nacional, correspondente à Câmara dos Deputados brasileira.

"Um dos traços mais marcantes na história da França é talvez esse trabalho potente e permanente consagrado por nossa nação a sua própria formação (...), através daqueles que a habitam e que a constroem", iniciou o presidente.

"Por isso é preciso permitir a essa língua de viver, de se inspirar de outras, de 'roubar' palavras, inclusive do outro lado do mundo, e de continuar a inventar, mas guardar também seus fundamentos, as bases de sua gramática, a força de sua sintaxe e não ceder aos modismos contemporâneos. Nessa língua, o masculino faz o (gênero) neutro. Não temos necessidade de colocar pontos no meio das palavras, traços e coisas para fazê-la legível", disse Macron sob aplausos do público presente no Château de Villers-Cotterêts.

De maneira geral, a flexão de gênero feminino em francês se faz com o acréscimo de uma letra "e" no final da palavra masculina. No caso da escrita inclusiva, a construção é feita com o uso de ponto ou traço e o acréscimo de outro "e". Por exemplo, "français" (francês), que seria o "gênero neutro" para se referir a todos os franceses, na escrita inclusiva seria "français.e".

A ministra da Cultura, Rima Abdul Alak, defendeu a posição do presidente em entrevista à BFM TV, alegando dificuldades na leitura da escrita inclusiva.

"É uma questão de inteligibilidade da língua, de compreensão. Alguém que tem dislexia, ou problemas de visão ou tem dificuldade de leitura, ler uma frase com pontos que cortam as palavras complexifica a leitura e, sobretudo, no discurso oral, é impossível de dizer", reagiu a ministra.

"Mas uma língua não se cristaliza, foi Victor Hugo quem disse isso, (...), uma língua está sempre em movimento. Então, não podemos bloquear, através da lei, a possibilidade de evolução de uma língua, incluindo torná-la mais feminina, para incluir novas palavras no dicionário", acrescentou.

Aceno para a direita

Com suas declarações, Macron faz um claro aceno político para a direita, já que uma proposta de lei do partido conservador Os Republicanos, aprovada pelo Senado na segunda-feira por 221 votos a favor e 82 contra, baniu a escrita inclusiva da França. O texto aprovado determina a eliminação da linguagem em manuais escolares, em comunicados de organizações públicas e privadas.

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Além disso, a proposta aprovada pelos senadores proíbe o uso de neologismos como "iel", contração de "il" (ele) e "elle" (ela) e "celleux", contração de "celles" (estas) e "ceux" (estes), incluídos na versão online do prestigioso dicionário da língua francesa Le Robert.

O projeto de lei é mais um capítulo de um debate que já dura anos na França. A extrema-direita e a direita lançaram uma cruzada contra todo tipo de linguagem inclusiva.

Adotado e até reforçado em comissão na semana passada, o texto suscita indignação de uma parte da esquerda.

"É um texto inconstitucional, retrógrado e reacionário, que se inscreve em uma corrente conservadora de longa data de luta contra a vissibilidade das mulheres", diz o senador socialista Yan Chantrel.

A proposta de lei foi aprovada no Senado, visto que a direita tem maioria na casa. Ao mesmo tempo, proposta semelhante do partido de extrema-direita foi colocada em debate na Assembleia Nacional e posteriormente retirada, devido à falta de perspectiva de aprovação.

Grupos feministas protestam

Políticos e coletivos feministas franceses reagiram nas redes sociais contra o discurso do presidente e da proibição da escrita inclusiva.

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"O masculino não tem nada de neutro. Isso não é complicado", disse no X (antigo Twitter) a deputada ecologista Sandrine Rousseau.

"Se a escrita inclusiva for proibida, nós escolheremos o feminino neutro. Liberdade, igualdade, sororidade", escreveu na rede social o coletivo feminista Nous Toutes.

"Quando um presidente, não muito neutro, quer nos ditar como escrever! Determinados.as mais do que nunca a usar uma língua inclusiva, que não nos invisibilize mais", escreveu por sua vez a associação Les Effrontés.

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