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Gritos, raiva: como identificar Transtorno Opositivo Desafiador em crianças

fizkes/Getty Images/iStockphoto
Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto

Thaís Aidar Lopes e Glau Gasparetto

Colaboração para Universa, de São Paulo

22/06/2022 04h00

Ver uma criança gritando e se jogando no chão durante passeio no shopping é cena bem comum. Afinal, o fato de os pais não comprarem um brinquedo ou não permitirem que ela tome um sorvete pode ser motivo para rompantes emocionais dos pequenos, que ainda estão aprendendo a lidar com as emoções. É natural que, com o passar do tempo, os gritos e o choro cessam, o comportamento passa e a criança esquece do ocorrido. Mas, e quando não é assim?

"Situações assim são a resposta de imaturidade de todas as crianças para lidar com uma situação que lhes gerou frustração. O que a diferencia de um transtorno é a intensidade —quando o comportamento acontece em praticamente todo o tempo, podemos ter a manifestação opositora do Transtorno Opositivo Desafiador, o TOD", afirma a terapeuta de mães Lúma Él Kadri, pós-graduada em Pedagogia Sistêmica e Psicologia Positiva.

Um dos motivos mais comuns de rompantes emocionais em crianças menores é a falta de capacidade em falar e se expressar. Como a criança não domina completamente a linguagem verbal, ela encontra no choro e no grito a forma de chamar a atenção, mostrando aos pais que ela não está feliz naquele momento com o que está acontecendo.

A palavra "birra" vem sendo, inclusive, questionada por alguns educadores porque carrega a ideia de que a criança faz aquilo para manipular o adulto quando, na verdade, o pequeno está, apenas, aprendendo a lidar com as emoções.

Não é birra

O TOD apresenta uma característica padrão, frequente e persistente: o humor raivoso ou irritável, com comportamento desafiador ou questionador, podendo até agir de maneira vingativa. Além disso, o transtorno independe de gênero e pode ser decorrente tanto da predisposição genética, quanto do ambiente em que a criança vive, sobretudo lugares sem regras e com criação permissiva.

"É possível diagnosticá-lo a partir dos 4 anos, pois nessa idade já se espera um grau de maturidade que proporcione à criança lidar, sem tantas dificuldades, com regras pré-estabelecidas e reconhecer seus erros. Dentre os principais sinais estão: discussões diárias com pais, familiares, professores e colegas, comportamento vingativo, agressividade, irritabilidade e impulsividade", explica Lúma.

Por isso, estar atento ao comportamento das crianças e não normalizar ataques frequentes de raiva ou irritabilidade são essenciais para diagnosticar a doença. O mesmo vale para o comportamento dos pais e o convívio familiar, fatores importantes no desencadeamento e diagnóstico da condição.

Nesse sentido, a terapeuta ressalta que o ambiente onde a criança vive influencia diretamente na forma como ela age. Assim, "proporcionar um ambiente de afeto e respeito contribui para que a criança tenha referências saudáveis", reforça a especialista.

Quando é hora de procurar ajuda

O acompanhamento psicológico é fundamental no diagnóstico e tratamento do TOD. É através das sessões de psicoterapia que os sintomas vão sendo tratados. Além disso, ter uma equipe multidisciplinar cuidando da criança é essencial para a abordagem correta e eficiente. Neuropediatra, psicoterapeuta, núcleo familiar e escolar devem trabalhar juntos para reverter o quadro.

Se o comportamento da criança manifesta sinais do Transtorno Opositor Desafiador, não deve haver hesitação em buscar ajuda de especialistas, como pediatras ou psicólogos, para entender qual a melhor abordagem a ser adotada. Somente profissionais podem recomendar tratamentos e prescrever remédios, se necessário.

Além disso, os pais devem lembrar sempre: o TOD não define uma criança; apenas altera o comportamento dela e requer o auxílio psicológico para recuperar o bem-estar e a qualidade de vida.

A importância da rede de apoio

"Tem certeza de que não é birra?" Essa pergunta vai ser feita muitas e muitas vezes aos pais que receberam o diagnóstico de TOD do filho. Seja pela falta de informação a respeito do quadro ou pelos inúmeros julgamentos sobre a parentalidade, a dúvida surge entre muita gente.

Para quem é de fora, o diagnóstico não deve, de forma alguma, ser banalizado. De acordo com Gabriela Malzyner, psicóloga e psicanalista do Meniá Centro de Prevenção, mestre em Psicologia Clínica e coordenadora do Núcleo de Infância e Adolescência do Centro de Estudos Psicanalíticos de SP, é importantíssimo ressaltar sempre a diferença entre os comportamentos, justamente para entender que a condição emocional não é "coisa de criança", mas sim um adoecimento que precisa de tratamento.

"O que é chamado de birra não se trata, se educa. Já o TOD é uma classificação posta dentro do manual da psiquiatria que a gente deve tratar, porque, de fato, precisa ser tratado com uma abordagem com a criança e a família para entender o que se produz como adoecimento", diferencia.

Por se tratar de uma doença, em casos mais sérios, o uso de medicamentos pode se fazer necessário. Apesar da medida ser adotada para visar mais melhorias no quadro e trazer eficiência ao processo terapêutico, ainda existem muitos tabus em relação à medicação psiquiátrica, sobretudo em crianças. O segredo, segundo a especialista, é focar no tratamento e não desistir.

"Uma rede de apoio é sempre importante, assim como a articulação entre pais, escola e profissionais para entender a questão, quando surgiu o comportamento, quais são seus motivadores e gatilhos? Além disso, é importante entender como se dá a dinâmica da família, pois, muitas vezes, a criança é um sintoma de um mal-estar familiar, e isso precisa ser cuidado", destaca Gabriela.

Pais também precisam de cuidados

O comportamento da criança impacta a rotina familiar a ponto de os pais partirem em busca de ajuda profissional para aprender a lidar com o cenário. Contudo, não é apenas o filho que vai precisar de apoio emocional: seus responsáveis também necessitam atenção, uma vez que a situação é delicada e o tratamento consiste em um processo, além do fato de a sensação de precisar de ajuda ser algo totalmente normal.

"A principal dica aos pais de crianças diagnosticadas com TOD é: cuidem do emocional de vocês. Só podemos estar disponíveis para os nossos filhos quando cuidamos das nossas emoções. Não é fácil enfrentar esse tipo de desafio. Os adultos podem e precisam de ajuda também", aconselha Lúma.

A contribuição dos pais no processo é primordial, sobretudo porque o ambiente da casa pode ser o motivador do TOD. Desse modo, algumas mudanças precisam ser adotadas, conforme indica Lúma Él Kadri:

  • Os pais devem estar alinhados e de acordo quanto às regras e resoluções sobre o filho. Assim, um não acaba desautorizando o outro e inspirando confiança e segurança nas informações passadas à criança.

  • Adotar rotina mais consistente é uma das principais estratégias para fazer com que os pequenos fiquem menos reativos diante das situações cotidianas, já que o dia tende a ser, na medida do possível, mais previsível.
  • A comunicação entre pais e filho deve ser clara e objetiva. O comportamento da criança é fruto de um transtorno, logo, os sentimentos causados nela devem ser validados. Depois, os responsáveis têm que conduzi-la de forma que entenda porque aquela emoção ou ação agressiva e desafiadora aconteceu.
  • Por agirem de maneira extrema, os portadores do TOD tendem a ser constantemente repreendidos pelos familiares. Para ajudar no quadro, é primordial lembrar de destacar também as características positivas da criança.