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Travesti foi 1ª rainha de bateria do Brasil: conheça Eloína dos Leopardos

Eloina inaugurou posto ao desfilar pela Beija-Flor - Reprodução
Eloina inaugurou posto ao desfilar pela Beija-Flor Imagem: Reprodução

Alan de Faria

Colaboração para Universa, de São Paulo

23/04/2022 04h00

"Para ser rainha de bateria, é preciso ter samba no pé, beleza, charme e uma produção por trás. Sabrina Sato é uma que tem isso em dia." A afirmação é da travesti Eloína dos Leopardos, que, de fato, tem autoridade no assunto. Ela foi a primeira mulher a desfilar à frente dos ritmistas de uma escola de samba durante o Carnaval. Aos 31 anos, em 1976, pela tradicional Beija-Flor, é a primeira rainha de bateria de que se tem notícia. Ela foi alçada ao mesmo posto pelo carnavalesco Joãozinho Trinta nos dois anos seguintes. Pé-quente, junto com a agremiação, saiu com os títulos de campeã nesse período.

O convite para desfilar na escola de Nilópolis surgiu após a sua participação em um concurso de um baile de Carnaval, em 1975, quando, vestida de biquíni branco e penas de faisão também brancas e rosas, ficou em segundo lugar. O figurinista Viriato Ferreira, parceiro profissional de Joãozinho Trinta, a viu por lá e ficou encantado por Eloína. Quando o carnavalesco comentou que precisava de uma figura enigmática para o enredo "Sonhar com Rei Dá Leão", Viriato logo pensou naquela mulher que viu um ano antes.

eloina dos leopardos e joãozinho trinta - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Na avenida ao lado de Joãozinho Trinta, na década de 1970
Imagem: Arquivo pessoal

"Mas eu morava em Paris. Só voltava ao Rio durante o Carnaval mesmo", conta Eloína a Universa. Assim, enquanto passeava por Copacabana, em uma de suas passagens pelo Brasil, um homem a abordou e perguntou se ela era realmente a tal Eloína. "O Viriato está te procurando como uma agulha no palheiro", teria dito o rapaz. Foram, então, buscá-la em sua residência para levá-la ao barracão da Beija-Flor, onde Joãozinho Trinta a esperava. "Não vai ter mulher que tirará o teu brilho. Você vai acabar com a festa", disse Joãozinho, segundo ela.

O encontro aconteceu um mês antes do início do Carnaval de 1976. No dia do desfile, a equipe da escola foi buscá-la, e Joãozinho Trinta pediu que ela fosse discreta ao chegar ao local do desfile, que, à época, era realizado na avenida Presidente Vargas -=o Sambódromo da Marquês de Sapucaí só seria inaugurado em 1984. "Ele não queria que ninguém me visse de biquíni. Tive de vestir um roupão. Só o tirei quando a Beija-Flor entrou na avenida", conta Eloína.

Com cabelo feito por um profissional chamado Silvinho e maquiagem de Guilherme Pereira —"o mesmo da atriz Sônia Braga", ressalta—, Eloína chamou a atenção de todos que estavam lá, inclusive do então prefeito carioca Marcos Tamoyo, que teria mandado a escola parar para saber quem era aquela mulher à frente da bateria. Ao saber por Joãozinho Trinta que se tratava de uma travesti, demorou a acreditar.

eloina dos leopardos em desfile pela Beija-Flor - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Em um dos desfiles pela Beija-Flor, escola que representou de 1976 a 1978
Imagem: Arquivo pessoal

"Quando o desfile acabou, o Joãozinho logo me tirou dali e ordenou que me levassem para casa. No dia seguinte, ele entrou em contato comigo e disse: 'Eloína, está todo mundo atrás de você. A 'Manchete', a 'Fatos e Fotos' [as principais revistas que faziam reportagens sobre o Carnaval carioca]". Ela foi o acontecimento daquele Carnaval.

Em uma imagem da época, fotógrafos aparecem disputando um espaço para clicar a musa, que enaltece Luma de Oliveira como uma das grandes rainhas de bateria de todos os tempos. Das atuais, Viviane Araújo, à frente dos ritmistas do Salgueiro, também é elogiada por ela.

Começo nos camarins até brilhar nos palcos

O envolvimento de Eloína com o Carnaval data da década anterior a sua estreia à frente da bateria de uma escola. No bairro do Catumbi, no centro do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1945 e foi criada como Edson —o nome Eloína só seria adotado por ela quase 20 anos depois, ao trabalhar com uma vedete de mesmo nome—, saiu no bloco Bafo da Onça, fundado em 1956. Ao mesmo tempo dava os primeiros passos na vida artística, primeiro nos bastidores, como camareira de vedetes, como eram chamadas as atrizes de teatro da época. Depois, como protagonista de espetáculos em casas de show da Praça Tiradentes e Cinelândia, também localizados no centro da capital fluminense..

Eloína trabalhava com as atrizes da região central e também travestis famosas como Rogéria, Jane di Castro, Camille K, Fujika Di Halliday e Brigitte de Búzios, entre outras, que realizavam concursos de miss às escondidas e também espetáculos pelos teatros da área. Algumas delas, incluindo Eloína, protagonizaram montagens como "Pode Vir Quente Que Estou Fervendo", que fez temporada no Teatro Rival, cujo dono era Américo Leal, avô da atriz Leandra Leal, que, cinco décadas depois, dirigiria o documentário "Divinas Divas", justamente sobre esse grupo de travestis artistas.

eloina dos leopardos - Reprodução - Reprodução
Eloína criou e comandou o show A Noite dos Leopardos por dez anos
Imagem: Reprodução

De rainha de bateria a rainha "dos leopardos"

Em 1969, em meio à fase mais dura da ditadura militar brasileira, quando, muitas vezes, Eloína e outras atrizes eram obrigadas, sob ordens policiais, a lavar o rosto ou trocar de roupa, ela partiu para Paris, onde se manteve na vida artística, apresentando-se nas principais boates da capital francesa.

Na década de 1980 retornou ao Brasil e, mais precisamente em 1987, produziu a Noite dos Leopardos, no Rio de Janeiro, tremendo sucesso de público. Ela subia ao palco ao lado de homens, os tais leopardos, que, em algum momento do número, ficavam completamente nus. O show atraiu para a sua plateia nomes como a atriz Liza Minnelli e a cantora Madonna. "Esse espetáculo fez com que uma nova geração de gays me conhecesse", diz ela. A Noite dos Leopardos ficou em cartaz por cerca de dez anos.

Atualmente, Eloína tem 76 anos e é hostess do restaurante Bar da Dona Onça, no centro de São Paulo - Reprodução - Reprodução
Atualmente, Eloína tem 76 anos e é hostess do restaurante Bar da Dona Onça, no centro de São Paulo
Imagem: Reprodução

"Gloria Groove e Pabllo Vittar têm mais liberdade do que a gente tinha"

Mesmo longe dos holofotes, ela está atenta ao que acontece no universo LGBTQIA+, sobretudo no das travestis e drag queens. Reconhece, por exemplo, o talento de Gloria Groove —"esta é realmente uma artista", afirma— e o sucesso alcançado por Pablo Vittar. "Elas têm muito mais liberdade para se expressar do que a gente, que tinha que driblar a censura. Era muito difícil, mas valeu a pena."

Questionada sobre o que pensa a respeito da entrada de travestis no mundo político, cita, por exemplo, a vereadora da capital paulista Erika Hilton (PSOL), "uma figura importante nesse setor". "Estava mais do que na hora de isso acontecer. Mostra a evolução da sociedade, apesar de todas as ameaças que essas mulheres têm recebido."

O reconhecimento veio

Moradora do centro de São Paulo há quase 14 anos, Eloína conta levar uma vida com menos festas atualmente. "Acordo cedo para cuidar dos 25 passarinhos que tenho em casa, volto a dormir um pouco e venho aqui para o Bar da Onça, onde trabalho há 12 anos. Depois do expediente, retorno para minha casa, assisto algo na televisão e vou dormir", afirma.

Isso, porém, não é um empecilho para continuar recebendo convites para eventos. No meio da conversa com Universa, um amigo ligou dizendo que estava viajando para o Rio de Janeiro e questionando por que ela também não iria curtir o Carnaval por lá. Eloína também contou que havia recebido o convite para visitar uma nova casa noturna, que abria suas portas naquela mesma noite, mas recusou o chamado.

Também durante a conversa, em uma das mesas externas do Bar da Onça, no centro de São Paulo, onde Eloína trabalha como hostess, um rapaz, de maneira muito educada, interrompeu a conversa e disse: "Queria te agradecer pela sua existência e toda a sua história. Você é maravilhosa". "Isso é bem comum, viu!? As pessoas passam por aqui e me cumprimentam. É bem gratificante", comenta Eloína.