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Atriz da Globo vítima de transfobia: 'Denunciar é desgastante e doloroso'

A Maia estará na próxima novela da Globo, "Quanto Mais Vida Melhor" - Reprdução/Instagram
A Maia estará na próxima novela da Globo, "Quanto Mais Vida Melhor" Imagem: Reprdução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

26/09/2021 14h46

Na última quinta-feira (23), a atriz e modelo Marcella Maia contou, no Instagram, ter sido vítima de transfobia durante uma viagem a Caraívas (BA). Na ocasião, segundo relata o boletim de ocorrência, ela foi agredida, teve sua cabeça jogada contra o chão, seu cabelo puxado e seus seios agarrados, como se o agressor quisesse arrancá-los. O homem chegou a enforcá-la, enquanto gritava: "Você não é de Deus".

A Universa, Marcella, que usa o nome artístico de A Maia e é contratada da TV Globo, contou que os últimos dias depois do ocorrido foram "conturbados" e que todo o processo de denunciar o crime foi "bastante desgastante e sofrido".

"Precisei viajar horas até Porto Seguro para prestar queixa e, de lá mesmo, fui embora. Denunciei, mas senti muito medo das consequências. Sempre orientada pelo meu advogado, chegando ao Rio de Janeiro, fui fazer exame de corpo de delito. Foi bastante desgastante e sofrido, em todos os momentos senti medo", disse a atriz.

Ela continua: "Na hora, a gente não entende bem o que está acontecendo nem a gravidade da coisa, mas foi bastante assustador. Depois, quando vi as marcas pelo corpo e percebi o perigo pelo que passei, entendi que precisava tomar providências e me proteger".

A atriz e modelo espera que o agressor seja identificado pela polícia e que o crime não fique impune, como ainda é comum em casos de homofobia e transfobia —reconhecidos como crimes no Brasil há apenas dois anos.

"O que passei foi muito ruim e, infelizmente, não foi um caso isolado. Espero que sirva para que entendam que nossos corpos e nossas vidas devem ser respeitados, que agressão à mulher e transfobia são crimes e não podem passar impunes."

A atriz registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, em Porto Seguro (BA), e o caso está sendo encaminhado pelos advogados.

"Enquanto não mudarmos educação, violência continuará"

A atriz Marcella Maia é contratada da Globo e terá papel de destaque na novela "Quanto Mais Vida Mlhor" - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A atriz Marcella Maia é contratada da Globo e terá papel de destaque na novela "Quanto Mais Vida Melhor"
Imagem: Reprodução/Instagram

Esta não é a primeira vez que A Maia, que está escalada para a próxima novela da Globo, "Quanto Mais Vida Melhor", é vítima de transfobia. Mas, no dia a dia, ela conta que essa violência aparece de forma mais sutil.

"Nós, mulheres trans, passamos por agressões e violências sempre. Desde as mais veladas e sutis até as mais evidentes. No meu dia a dia, essa questão é um pouco mais amena", conta.

"Por muito tempo, consegui transitar como uma mulher cisgênero pelos espaços, pois ainda estava processando minha transição e aprendendo a lidar com tudo isso, porque a gente sabe que passa por dificuldades ao assumir [que é transexual]", fala. "Até que eu entendi que a questão da minha identidade é importante e precisa ter voz, representatividade. Falar sobre isso abertamente e sobre as questões que me assolavam foi libertador. Mas, ao mesmo tempo, existem consequências."

O fato de ter uma carreira de destaque —A Maia é contratada pela Globo e passou anos trabalhando como modelo internacional, participando, inclusive, de filmes da Marvel, em Hollywood— facilita "a livre expressão de existir", mas não a blinda de ser vítima de transfobia, ela afirma.

"A arte possibilita a livre expressão e o existir nesses espaços, como a TV, o cinema e o mundo da moda. Mas essa não é a realidade de todas nós. Estamos caminhando, lutando e, aos poucos, conquistando direitos e proteção da lei, o que é uma vitória, mas muito ainda precisa ser feito. Sobretudo num país que lidera o ranking de assassinato de pessoas trans, mais especificamente de mulheres trans."

A Maia continua: "O estupro e a violação dos nossos corpos é cultural, é como se houvesse uma permissão velada de que mulheres possam ser desrespeitadas e violadas. Enquanto não mudarmos a educação, a formação e as leis, essas violências continuarão sendo normalizadas".