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'Esgotada aos 20 anos': burnout afeta mais mulheres e jovens zennials

A atriz Anya Taylor-Joy sofreu uma crise de burnout aos 23 anos - (Fonte: Reprodução - Netflix)
A atriz Anya Taylor-Joy sofreu uma crise de burnout aos 23 anos Imagem: (Fonte: Reprodução - Netflix)

Júlia Flores

De Universa

02/09/2021 04h00

De cada cinco pacientes que chegam ao consultório do psicanalista Guilherme Facci com o diagnóstico de burnout, quatro são do sexo feminino.

"Apesar de a primeira 'vitima' ter sido um homem, o alemão Herbert Freudenberger, as mulheres são as mais afetadas pelo esgotamento mental. Elas enfrentam sobrecargas no trabalho e fora dele: precisam ser namoradas, esposas, donas de casa, boas profissionais e, ainda, mães —tanto dos filhos quanto dos companheiros", comenta o especialista, que é o criador do podcast "Loucura nossa de cada dia".

O burnout é um distúrbio com sintomas físicos e mentais causado por condições de trabalho desgastantes. Apesar de ainda não ser reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como uma doença mental, é um fenômeno cujos relatos aumentam e que se torna um debate público. Burnout foi o tema do mais recente episódio do podcast de Guilherme, "Loucura Nossa de Cada Dia".

Para além do recorte de gênero, Guilherme faz também um geracional. Na opinião do psicanalista, a geração Z está mais suscetível a sofrer crise de esgotamento mental. "Pessoas nascidas entre 1995 e 2010 cresceram com a internet, estão acostumadas a lidar com as coisas de uma forma mais veloz, não sabem encarar o tédio. Além disso, é uma geração que confunde propósito com produtividade", contextualiza.

"Como Michael Foucalt já disse, a geração Z é de empresários de si. Eles transformaram a própria vida em produto. Estão sempre em busca de melhorar a performance, querem se promover a qualquer custo, ganhar mais. Estão com dificuldades de estabelecer limites e entram em crise" - Guilherme Facci

De acordo com um estudo global divulgado pela plataforma Oracle and Workplace Intelligence, em fevereiro deste ano, mais de 90% dos participantes da geração Z responderam que o estresse no trabalho impacta diretamente a vida pessoal. A pesquisa foi feita em meio a pandemia, e traz reflexos desse novo contexto mundial, mas, antes mesmo do isolamento social nos trancar dentro de casa, o esgotamento físico e mental já adoecia os zennials.

"Eu desligava do nada"

Anya Taylor-Joy durante cenas de "O Gambito da rainha" - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Filme de suspense da Netflix vai hipnotizar fãs de O Gambito da Rainha
Imagem: Reprodução / Internet

Na última semana, a atriz Anya Taylor-Joy revelou ter sofrido crise de burnout em 2019, aos 23 anos. Após emendar a produção de dois filmes com as gravações da série "O Gambito da Rainha", ela estava esgotada: "Sobrevivia de refrigerante diet, cigarros e café", disse a atriz à revista "Tatler".

Anya conta que, ao contrário dos colegas da mesma faixa etária, por causa da exaustão física e mental causada pelo excesso de trabalho, fora do expediente ela só conseguia dormir. Assim como a estrela da série da Netflix sobre xadrez, a administradora de empresas Júlia Souza, hoje com 26 anos, também chegou a um estado crítico de esgotamento.

Teve um dia que eu finalmente consegui sair no horário do trabalho, às 18h. Quando cheguei em casa, apaguei e ainda nem era noite. Não lembro de ter dado tchau para minha família, ter trocado de roupa, ter escovado os dentes. Só lembro de acordar, no dia seguinte, pronta para o trabalho - Júlia Souza

A administrado Júlia Souza teve uma crise de burnout aos 24 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A administrado Júlia Souza teve uma crise de burnout aos 24
Imagem: Arquivo pessoal

Em 2019, Júlia, que trabalhava com finanças corporativas em uma multinacional, enfrentou uma jornada frenética de trabalho. "Entrava às 5h e saía às 23h. Parei de ver família, amigos, ter relacionamentos. Do nada, comecei a ficar doente, tive diagnóstico de anemia, problema com a tireoide. Os médicos achavam que era algum problema com alimentação, demoraram para descobrir que estava com burnout", diz.

Após pouco mais de 6 meses nesse ritmo, Júlia decidiu procurar ajudar de um psicólogo e recebeu o diagnóstico apropriado. Ela conta que os episódios de "apagamento repentino" foram se repetindo com cada vez mais frequência, a ponto de perder aniversários da família e o noivado de uma amiga. "Me vi em um buraco sem fundo. Você não pensa em outra coisa, apenas no trabalho —até que seu corpo começa a dar sinais. O meu desligava do nada", relembra.

"Se você é mulher, dizem que está de TPM"

Victória trabalhava em uma agência publicitária quando enfrentou a "síndrome do esgotamento mental" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Victória trabalhava em uma agência publicitária quando enfrentou a "síndrome do esgotamento mental"
Imagem: Arquivo pessoal

A publicitária Victoria Parolin passou por um episódio parecido com o de Júlia e o de Anya. Aos 24 anos, devido a jornadas exaustivas de trabalho, ela foi diagnosticada com a síndrome de burnout e teve que, além de tomar remédios de tarja preta para controlar as crises de pânico e de ansiedade, pedir demissão da agência em que trabalhava.

Trabalhava mais de 12 horas por dia. Acordava já pensando no trabalho. Quando sentava na cadeira, começava a chorar. Chegou em um ponto que eu só queria ficar deitada - Victoria Parolin

Victória teve a crise em plena pandemia. Para ela, o isolamento social foi, sim, um fator determinante para que a situação chegasse ao extremo. "Trabalhando de casa, você não sabe a hora de desligar. Você recebe mensagem no WhatsApp a todo momento, mesmo fora do expediente, é ainda mais difícil de estabelecer limites."

Quando Victória decidiu sair do emprego, um misto de medo, insegurança e vergonha atingiram a publicitária. "Não queria assumir que aquela era a melhor escolha para o meu bem-estar. Sempre fui nerd, gostava de trabalhar, era muito dedicada. Tinha medo do que iriam pensar de mim, do que meus pais falariam. Por sorte, os mais próximos me acolheram, mas ouvi de conhecidos que aquilo 'era frescura'. A terapia me ajudou a lidar com essas críticas. Querem achar isso? Eles que pensem e não se tratem."

A história da administradora Júlia, porém, teve um final diferente: ela foi desligada da empresa quando o RH tomou conhecimento das horas extras feitas pela funcionária. Analisando o passado, ela reflete: "Uma das frases que eu odeio é trabalhe com o que você ama e nunca mais você terá que trabalhar. Precisam parar de glamourizar o excesso de trabalho. Ter o emprego dos sonhos não significa que você não vai se esgotar com ele".

Burnout é taxado como fraqueza, como coisa de quem não gosta de trabalhar. Se você for uma mulher, vão dizer que está de TPM. Só quem passa sabe. É um estado de completo esgotamento. Você não consegue mais se concentrar, focar, prestar atenção - Júlia Souza

Ser mulher cansa

A psicóloga Louise Ferri, especialista em neurociência e comportamento, explica que o paciente deve buscar ajuda a partir do momento em que percebe alguns dos sintomas da síndrome, como exaustão no trabalho, baixa tolerância às pessoas ou situações aversivas, alto estresse e irritabilidade falta de ânimo e diminuição da concentração, foco, criatividade e rendimento.

Louise concorda com Guilherme Facci e reforça a tese de que as mulheres são, sim, as mais afetadas pela "síndrome do esgotamento mental": "Infelizmente as mulheres ainda vivem país jornadas duplas (ou triplas) de trabalho. Tudo isso, além da crise financeira, social e política que o mundo está vivendo, torna ainda mais exaustivo ser mulher nos dias de hoje".

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