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Ela criou primeira loja e oficina de bike voltada para negras em Salvador

Livia Suarez, 34, com capacete para cabelos crespos que desenvolveu para sua loja, a La Frida Bike, em Salvador (BA) - Helen Salomão
Livia Suarez, 34, com capacete para cabelos crespos que desenvolveu para sua loja, a La Frida Bike, em Salvador (BA) Imagem: Helen Salomão

Regina Bochicchio

Colaboração para Universa, em Salvador (BA)

09/08/2021 04h00

Ela começou investindo os R$ 2 mil que tinha do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) em um bike-café itinerante em Salvador (BA) e se tornou empreendedora de referência no ramo de vendas de bicicletas, oficina mecânica e acessórios para pedalar pensado por e para mulheres negras.

Seis anos após dar o start no negócio que une a bicicleta com identidade e ativismo negro feminino, Lívia Suarez, 34, proprietária do La Frida Bike, vende seus produtos exclusivos para o Brasil e diversos países. Embora não revele a cifra (na casa dos três dígitos), a estimativa é fechar 2021 triplicando o faturamento do ano passado.

A pandemia de covid-19 acabou impulsionando os negócios, que duplicaram em 2020 em relação a 2019. "As pessoas em geral e nosso público passaram a usar mais a bike como meio de transporte, evitando aglomeração, e para trabalhar, fazer entregas em serviços delivery", diz.

Capacete para cabelos crespos

Agora, a empreendedora está prestes a dar mais um salto: a comercialização de um produto inédito no mercado, um capacete de ciclismo para pessoas de cabelo crespo. O produto estará à venda nas plataformas da empresa e também em grandes varejistas de esportes no Brasil e exterior a partir de dezembro.

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Modelo posa com bicicleta da La Frida Bike, lojada voltada para mulheres negras em Salvador
Imagem: Helen Salomão

Recentemente aprovado pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), o capacete para cabelos crespos chamou a atenção de revendedores e os convites de potenciais parceiros estrangeiros têm crescido, como alguns na Cidade do México, de onde Lívia conversou com Universa. "Pesquisamos muito antes de projetar o capacete a partir das perspectivas da diametria, identidade, proteção capilar e o principal: a evidência dos cabelos como forma de manifestação", diz Lívia.

'Percebi que não havia grupo de pedal de pretos'

"Comecei a pedalar como processo de cura após a perda de meu pai. E pedalando em Salvador tive várias perspectivas da cidade e das pessoas. Não havia grupos de pedal de pretos. Também não havia muitas pessoas pretas pedalando como modal ativo na proporcionalidade da população da cidade", conta Lívia, referindo-se aos 79,2% de negros na capital baiana, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O ano era 2015 e surgiu a ideia de empreender sobre duas rodas, unindo ativismo, paixão pela bicicleta e desejo de autonomia financeira: junto com a então companheira, Maylu Isabel, criou o La Frida Bike Café, "ponto de encontro de pessoas pretas ao redor da bicicleta, unindo poesia, música e café", diz. O nome faz referência à pintora mexicana Frida Kahlo, ícone da arte daquele país e tida como importante figura feminista do século 20.

Movimento Preta Vem de Bike

A ideia foi inovadora e o bike-café reunia muita gente em eventos e locais públicos. Mas foi no ano seguinte, ao participar de um evento da União de Ciclistas do Brasil (Bicicultura), em São Paulo, que Lívia percebeu que somente seu empreendimento estava pautando a pessoa negra".

Em Salvador, já havia percebido algo ainda mais específico: a mulher negra não usava a bicicleta como meio de transporte ativo também porque não sabia pedalar. Então, surgiu a primeira expansão do projeto.

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Livia Suarez (à frente, lado direito) no movimento Preta Vem de Bike nas ruas do bairro do Santo Antônio, em Salvador
Imagem: Marcio Luis

"Foi acontecendo. A gente identificou o problema e começamos a resolver esse problema. Começamos a ensinar as mulheres a pedalar, para o lazer ou como meio de transporte na cidade", diz. Nasceu daí o movimento Preta Vem de Bike, que incentiva o uso do modal por mulheres negras e periféricas.

O projeto recebeu prêmios de mobilidade (2017, 2018 e 2019), idealizados pela Organização Transporte Ativo em parceria com o Banco Itaú; e Primeiro e Segundo Passo (2017 e 2018) do Banco Itaú.

Virada de negócios

A virada de chave veio a partir de 2018, unindo o ativismo social a um negócio mais rentável. "Começamos a pensar mais na rentabilidade e sustentabilidade do projeto. Porque estávamos abrindo um mercado para lojas de bicicletas e de acessórios, mas não tínhamos esse retorno", conta Lívia. Os prêmios deram visibilidade e ajudaram a expandir os negócios.

A inauguração da Casa La Frida, no bairro histórico Santo Antônio Além do Carmo foi um marco. Inicialmente um centro cultural, ali também foi inaugurada a primeira oficina de manutenção de bicicletas para mulheres negras. Todas as mecânicas também são negras e capacitadas pelo projeto.

O passo maior foi dado no final de 2018 com a construção das próprias bicicletas para venda, hoje carro chefe dos produtos comercializados pelo La Frida Bike ao lado de acessórios como bonés, camisetas, meias, bolsas, bagageiro... São modelos de veículos de duas rodas exclusivos, retrôs, customizados. Hoje, a Casa La Frida abriga também um serviço de aluguel de bicicletas,

Lívia diz que os produtos são pensados para todos os tipos de corpos. "Construímos as bicicletas dentro da identidade dos nossos corpos. Que corpos são esses? Observando, você vai percebendo que os produtos convencionais são para o homem branco", diz.
Os veículos de duas rodas são chamados de Bicipr3ta e variam de R$ 448 (infantil) a R$ 2.990 (com corpo de bambu). Agora, com a entrada do capacete para pessoas com cabelos crespos em um mercado mais amplo, a perspectiva é de expansão para 2022.

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