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Elas estão cansadas dos dates furados de apps: "uso só pra inflar o ego"

Victoria diz que está cansada de conhecer pessoas presencialmente e se frustrar - arquivo pessoal
Victoria diz que está cansada de conhecer pessoas presencialmente e se frustrar Imagem: arquivo pessoal

Tina Borba

Colaboração para Universa

16/07/2021 04h00

Quando o Tinder e outros aplicativos de relacionamento chegaram ao Brasil, em 2013, rapidamente viraram um sucesso. Era uma forma fácil e rápida de conectar pessoas que tinham interesses parecidos, estavam próximas, mas nunca tinham se encontrado antes. Essas pessoas se conheciam pessoalmente, às vezes namoravam e até casavam.

Porém, quase uma década depois, as coisas estão um pouco diferentes. Seja pela pandemia, que nos forçou a ficar mais isolados, seja pelos próprios modelos de relacionamentos que estão se transformando, muitas mulheres dizem estar dando mais matches, mas tendo mais dificuldade de realmente se conectar a nível emocional com alguém. A seguir, Universa investiga esse fenômeno.

Relações estão mudando, mas nada ainda está claro

Uma das teorias da psicóloga, sexóloga e especialista em terapia de casal Bruna Coelho de Belo Horizonte (MG), é que o modo como as pessoas estão se conectando está mudando e essa comunicação ainda não está feita claramente. "Nesse momento a tecnologia entra como um recurso, que conforme é utilizado, pode aproximar. Mas é preciso comunicar as expectativas de forma clara, para perceber que perfil se encaixa nas suas necessidades" pontua.

Victoria diz que não é muito de encontros. - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Victoria diz que não é muito de encontros.
Imagem: arquivo pessoal

Exemplo disso é a experiência da gaúcha Victoria Paz, 21 anos. A estudante conta que não é muito de encontros. Ela diz que às vezes abre o aplicativo só para flertar e elevar o ego, e se diz cansada de conhecer pessoas presencialmente. "Eu acho muito desgastante. Estou em casa bem tranquila, aí a pessoa me convida pra ir ao cinema, tenho que me arrumar umas duas horas antes, fazer cabelo, ir lá ver a pessoa, quando vê é um encontro horrível, a pessoa é chata, ou a não era aquilo que eu esperava", conta. "Aí penso que gastei um dinheiro e poderia ter ficado em casa, pedir uma comidinha, tomar uma cervejinha e assistir um reality bem tranquila", argumenta ela, que também esclarece que durante a pandemia redobrou os cuidados e não saiu com ninguém que conheceu pelos aplicativos, pois mora com os pais.

Victoria diz que gosta muito de conversar, por isso já usou vários aplicativos, até mesmo um para conhecer coreanos no tempo em que gostava de k-pop. Ultimamente, ela tem usado o Tinder pra conhecer pessoas, mas sem a premissa de encontrar pessoalmente. "Não sou muito do encontro, antes da pandemia eu até saía bastante, mas nos últimos tempos desanimei. Já tem quase 2 anos que não saio com ninguém de aplicativo". Victoria comenta ainda que nem sempre sobra espaço e energia para investir em um relacionamento com outras pessoas, especialmente pela internet. "Às vezes não consigo dar tanta atenção assim porque não quero ficar tanto no celular".

Carolina Montiel, Porto Alegre (RS), tem 31 anos e é cientista social. Ela diz que  - aquivo pessoal - aquivo pessoal
Carolina, que afirma já ter recebido comentários racistas no Tinder, começou a se divertir mais depois ativar a função para conhecer pessoas de fora do país, mesmo sem a possibilidade de encontro real
Imagem: aquivo pessoal

Carolina Montiel, Porto Alegre (RS), tem 31 anos e é cientista social e prefere não mostrar o rosto. Ela diz que depois que começou a ativar nos aplicativos a função para conhecer pessoas de fora do país, tem se divertido mais. "Não vejo homem estrangeiro como a salvação da lavoura, mas consigo ter um diálogo melhor", afirma. Carol destaca a principal ponto positivo nessas novas conversas: "Sou uma mulher negra e fui percebendo as diferenças nas interações que as minhas amigas relatavam e em como acontecia comigo. Eu continuo sendo uma mulher negra fora do Brasil, mas sinto que tenho uma abertura maior", ela relata ainda que, desde que começou a dar matches fora do país, consegue contar nos dedos as coisas preconceituosas que ouviu.

Ela usa os aplicativos há quase 10 anos e se diz incomodada com uma parte dos homens que encara o relacionamento via aplicativo. "Não dá pra generalizar, mas alguns usam o app como um grande buffet. E entendem que quem está naquele aplicativo topa as mesmas regras".

Comunicação clara evita decepções

As regras não formais do uso dos apps e as novas possibilidades de uso também podem ajudar a evitar decepções. A possibilidade de desvincular o encontro presencial da interação virtual, por exemplo, parece estar ganhando muitos adeptos. Dados divulgados recentemente pelo Tinder mostram que seus usuários têm feito 40% mais chamadas de vídeo pelo app como alternativa ao encontro presencial.

A psicóloga Juliana Azevedo, especialista em psicoterapia psicanalítica de adultos explica um dos possíveis motivos. "As redes sociais nos dão muitas formas de se esconder, só mostrar o que a gente quer. E quando o outro vê o que a gente não colocou ali é que dá o desencontro. Se está longe de mim, daí eu não preciso me preocupar em me expor, em ficar num lugar de vulnerabilidade", ela aponta ainda que geralmente as nossas expectativas são frustradas pois imaginamos uma pessoa com base em poucos elementos. Finalmente, quando a conhecemos notamos diferenças e nem sempre lidamos bem com isso.

Juliana relata que a maior parte dos seus pacientes tem entre 18 e 27 anos, e que a maioria deles traz em seus relatos o uso dos aplicativos, mas poucos viram relacionamento. O que corrobora os dados apresentados pelo Tinder, de que os matches aumentaram em 42% e as conversar ficaram 32% mais longas. "As pessoas estão mais carentes, se prendem mais as outras, mas não levam isso pra frente como um relacionamento de fato" explica Juliana.

Apesar da carência, cada um tem um uso e uma expectativa ao entrar nos aplicativos. "Eu uso mais por diversão, socialização. Até porque eu entendo a relação como uma consequência de conhecer alguém com quem deseja algo a mais. E isso deixou a função do aplicativo mais leve pra mim. Deixei de usar como único canal e não me fecha para outras interações", diz Carolina.

A sexóloga Bruna dá uma dica boa pra quem quer se dar bem nos aplicativos, seja qual for o objetivo: comunique de forma clara o que você deseja. "Cheque os objetivos e coloque os limites que são importantes pra você. Quando você sabe o que está procurando, qual o tipo de pessoa que te agrada, quais coisas você aceita e quais coisas não aceita, você consegue comunicar melhor independentemente do meio" finaliza ela.

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