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"Mas você não é a mãe" e outras frases que as madrastas cansaram de ouvir

Bruna e Laila fazem sucesso nas redes sociais falando sobre a relação entre enteada e madrasta - Acervo pessoal
Bruna e Laila fazem sucesso nas redes sociais falando sobre a relação entre enteada e madrasta Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

03/07/2021 04h00

Se existe uma figura familiar que carrega um tom pejorativo, essa figura é a da madrasta: como nas cenas clássicas de Cinderela, muitas vezes elas são representadas como mulheres que disputam a atenção do pai com as crianças ou querem impor suas vontades dentro do ambiente familiar.

Graças a esse estereótipo, muitas mulheres, quando embarcam em uma nova relação, passam por situações constrangedoras ou escutam frases consideradas desrespeitosas. A seguir, Thaisa, Bruna e Kamyla relembram experiências pelas quais já passaram:

"Você nem é a mãe, está se achando"

Thaisa casou pouco tempo antes de o enteado nascer - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Thaisa casou pouco tempo antes de o enteado nascer
Imagem: Acervo pessoal

"Minha história é bastante curiosa: na época em que conheci meu atual companheiro, ele havia descoberto há pouco tempo sobre a gravidez de outra mulher. Logo no primeiro encontro, me mostrou a troca de mensagens entre eles e explicou que nunca tiveram um relacionamento amoroso, eram apenas ficantes. Esse fato me deixou mais tranquila: pensei que, sem um histórico, seria mais fácil lidar com a situação, caso o namoro engatasse. De fato, ele engatou. O sentimento entre nós foi tão forte que nos casamos pouco antes do nascimento do bebê.

Algumas pessoas próximas perguntavam se eu estava ficando louca. Diziam que era como se já estivesse começando a minha história diante de um problema. Porém, era difícil entender essas falas me desencorajando, porque nunca encarei desse jeito. Sei bem a importância de um pai não apenas cumprir com as obrigações financeiras, mas também participar ativamente da criação do filho. Além disso, já me sentia conectada com a criança antes mesmo de ela nascer. Jamais com o intuito de tomar o lugar da mãe, mas como alguém que amaria e cuidaria dela com a mesma intensidade que amo e quero o bem do meu marido.

A pior frase que já escutei veio de uma pessoa conhecida, quando ela ofereceu um pirulito para o bebê e eu disse que ele não ainda comia açúcar, porque era muito novo. Ela respondeu: 'Mas você nem é a mãe, está se achando'. Só expliquei que aquela era uma recomendação materna e que eu iria manter. Quatro anos depois, sigo tendo essa relação de carinho e respeito com a criança". Thaisa Moreira, 27 anos, psicanalista, de Franco da Rocha (SP)

"Filho dos outros não é comigo"

Bruna fala sobre ser madrasta no TikTok  - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Bruna fala sobre ser madrasta no TikTok
Imagem: Acervo pessoal

"Conheci o pai da Laila aos 18 anos. Na época, ele me avisou que tinha uma filha de 9 anos e que a relação com a mãe era boa, mas restrita aos assuntos da filha. Hoje vejo que fui bastante madura em entender que aquilo tinha acontecido no passado e que estávamos voltados para construir um futuro juntos. As pessoas, no entanto, pareciam não compreender muito bem isso.

Elas perguntavam se não era uma situação estranha, tinham curiosidade de saber se ela morava conosco e, quando eu dizia que não, aí sim diziam: 'Ah, então tudo bem, deve ser tranquilo'. Muitas vezes ouvi também que 'Filho dos outros não é comigo'.

Não ligava para esses comentários. Fomos nos conhecendo aos poucos. Fiz um esforço para entender a linguagem dela, que na época era uma criança. Depois de me casar com o seu pai, ela nos visitava de 15 em 15 dias e eu fazia questão de colocar para tocar as músicas das quais ela mais gostava, de levá-la para dar uma volta, tomar um açaí. Com isso, acabamos nos tornando muito próximas. Depois do nascimento da minha filha, sua irmãzinha, a relação se estreitou mais ainda.

Hoje, Laila tem 16 anos e, há três anos, veio morar conosco — uma decisão tomada em conjunto com a família — e temos uma relação de bastante respeito, com alguns conflitos que se resolvem facilmente. Já estava desacostumada a ouvir frases constrangedoras, até começarmos a postar vídeos juntas no TikTok.

@brunaketlin_

É meme, a gente se gostou de cara mesmo! inspiração @robsonleliss ##humor ##meme ##family ##friends ##madrasta ##fy

? som original - dixx.luis

Na internet, muita gente se assusta ao ver que nos damos tão bem ou faz questão de relembrar que eu não sou a mãe, na tentativa de criar uma rivalidade entre mim e a mãe dela que jamais existiu". Bruna Ketlin, 28 anos, pedagoga, Heliópolis (BA)

"Esse amor todo? Deve ser forçado"

Kamyla se sentiu julgada por ter postado fotos com a enteada nas redes sociais - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Kamyla se sentiu julgada por ter postado fotos com a enteada nas redes sociais
Imagem: Acervo pessoal

"Tive alguns contatos com o meu namorado na infância e na adolescência, mas só começamos a nos interessar um pelo outro depois de nos encontrarmos em um churrasco de amigos em comum. Eu estava ainda machucada, depois de sair de um relacionamento abusivo, mas nossa aproximação foi natural e acabamos namorando. Eu já sabia que ele tinha uma filha, mas como a minha irmã tinha dois enteados e sempre achei a relação entre eles muito bonita, não pensei nisso como algo negativo.

No início, percebia que este era um assunto do qual ele evitava falar. No entanto, aos poucos fomos dialogando sobre a sua paternidade, o que gerou uma grande aproximação enquanto casal. Depois, fui apresentada a ela e me encantei com a sua personalidade, além de sentir a responsabilidade de saber que, dali para frente, as minhas ações também poderiam influenciar na sua índole, no seu caráter.

Sou bastante transparente, gosto de falar sobre as minhas experiências de vida nas redes sociais, e percebi que isso gerou um burburinho. Peguei gente dizendo, pelas minhas costas, que o amor que eu sinto por ela é forçado, me rotulando e dizendo que eu estava forçando a barra. Mas acredito que, por eu ter demonstrado segurança e felicidade com a sua presença desde sempre, as pessoas próximas logo entenderam o quanto a nossa aproximação nos faz bem". Kamyla Bernardes, 24 anos, veterinária, de Cuiabá (MT)

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