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Ela conecta família com paciente que será intubado: "Falam muito eu te amo"

A psicóloga Ingrid Meneghetti com seu tablet, pelo qual faz videochamadas na UTI de covid - Reprodução
A psicóloga Ingrid Meneghetti com seu tablet, pelo qual faz videochamadas na UTI de covid Imagem: Reprodução

Camila Brandalise

De Universa

28/05/2021 04h00

O que você diria a uma pessoa que ama se fosse a última vez que conversassem? A psicóloga Ingrid Rosi Meneghetti, de 28 anos, ouve, diariamente, frases que responderiam a essa pergunta. "Faço uma chamada de vídeo entre a família e o paciente um pouco antes da sedação para intubação. É rápido, dois a três minutos. O que mais dizem é 'vai ficar tudo bem' e 'eu te amo'", conta Ingrid, responsável por fazer esse contato dentro de uma UTI de covid de um hospital de Cariacica (ES) desde abril do ano passado.

Por parte do paciente, as preocupações costumam ser também práticas. "Dizem as senhas de banco, do cartão de crédito. Também pedem que cuidem uns dos outros. Muitos não conseguem falar muito, então só balançam a cabeça, fazendo sinal de joinha e choram", relata a profissional. "Tem muita emoção, mas vejo que as pessoas se seguram muito, tentam ser fortes. Eles choram e dá para ver que há muito medo de que seja a última vez que se vejam."

Mensagens de familiares a internados com covid - psicóloga Ingrid Meneguetti - Reprodução - Reprodução
Mensagens enviadas por familiares de pacientes
Imagem: Reprodução

O expediente de Ingrid inclui também chamadas de vídeo diárias com familiares de demais pacientes internados, além de auxílio psicológico para as pessoas dos dois lados da tela, antes e depois desse contato.

"Tem vezes, por exemplo, que o paciente só responde 'tudo bem' para as perguntas de quem liga, mas, quando desliga, começa a chorar muito. É uma pessoa que precisa de ajuda, e isso não se resume a uma ligação", afirma.

"Família fica desesperada. Às vezes, quem acalma é o paciente"

Ingrid conta que, nos primeiros dias de internação, é o paciente que costuma acalmar a família. "Para quem está fora, é um processo desconhecido, é só uma ligação do médico por dia, não tem visita, nada. Já a pessoa internada vê como funciona, percebe o cuidado que tem e se acalma um pouco. Então o parente diz: 'Não fiquei nervoso', e o doente diz: 'Mas eu não estou'."

A rotina das videochamadas vai das 9h às 15h. Atualmente são 30 internados na UTI, e ela passa por todos para fazer as ligações, que duram entre cinco e dez minutos. Depois há uma conversa com os pacientes que estão acordados para saber como está e se precisa de alguma ajuda. Quando chega alguém, ela primeiramente se apresenta e explica como seu trabalho funciona.

A peregrinação pelos leitos só é interrompida se houver uma chamada médica para uma ligação de emergência a família de pacientes prestes a serem intubados.

"Sedados escutam áudio e se lembram de mensagens ao acordarem"

As chamadas de vídeo só não são realizadas com pacientes sedados. "Seguimos uma cartilha de orientações para visitas virtuais. Nesses casos, ver a pessoa intubada não é recomendado", explica. "Então, peço que me enviem áudios. E eu sempre toco as mensagens. Já teve paciente que acordou da sedação e disse que se lembrava da irmã falando com ele, dizendo para aguentar firme."

Orações, músicas, mensagens positivas, notícias sobre nascimentos na família são alguns dos áudios que toca para os doentes que cuida.

"Ouvir uma voz familiar pode deixá-los mais tranquilos. Vejo isso acontecer no momento em que começamos a tirar a sedação para fazer a extubação. Ficam agitados, aí toco o áudio para se tranquilizarem", diz.

A psicóloga Ingrid Meneghetti - Reprodução - Reprodução
A psicóloga Ingrid Meneguetti
Imagem: Reprodução

"Também pode ser um reforço para reagirem. Teve um paciente que estava extubado mas não conseguia abrir os olhos. Toquei o áudio da irmã e perguntei se ele queria vê-la. Fez que sim com a cabeça e eu disse: 'Mas tem que abrir os olhos'. Ele abriu e eu liguei para ele falar com ela."

"O maior medo de todos é ser intubado"

Ingrid diz que um dos momentos mais delicados do trabalho é ouvir dos pacientes uma pergunta frequente: "Eu vou morrer?"

"Acontece muito quando vão ser intubados. E nessa hora não posso desanimar, mas também não posso criar expectativa e dizer que vai dar tudo certo porque, se essa pessoa piorar, perco sua confiança. Mas posso dar um conforto e dizer, por exemplo, que a maioria dos pacientes que entram na UTI recebem alta, o que é verdade."

Mesmo preparada para o atendimento e com mais de um ano de experiência em UTI de covid — praticamente todo o tempo de pandemia —, a psicóloga diz terminar o turno "atordoada". "É muita coisa que a gente vê. Hoje tenho aqui três pacientes internados, o pai deles morreu na semana passada, outra irmã está em outro hospital. São situações que no ano passado a gente não vivia e está enfrentando agora. Nunca imaginei que teria uma família inteira internada."

Ela também fala da ligação que acaba desenvolvendo com familiares dos pacientes. "Fico conhecendo a família inteira, o cachorro, peço para mandar vídeo do gato, do passarinho, eles sentem saudade." A psicóloga relembra uma situação inusitada. "Teve uma vez que a equipe inteira acompanhou uma cadela parindo. Deixa a situação um pouco mais leve."

Infectada pelo vírus em dezembro, Ingrid diz que já se imaginou no lugar de quem tem uma possível última conversa com quem ama quando os pais também pegaram covid, no mesmo período que ela, mas não chegaram a ser internados. "Mas não consigo pensar no que diria para eles. Se eu parar para imaginar isso, sei que vou sofrer."

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