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"No sigilo": elas relatam propostas gordofóbicas que receberam de parceiros

Gleice relata que muitos homens agem, nas redes sociais, como se ela estivesse "se insinuando" - Acervo pessoal
Gleice relata que muitos homens agem, nas redes sociais, como se ela estivesse "se insinuando" Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

30/04/2021 04h00

"O que acha de a gente se conhecer no motel?": recentemente, a influenciadora Dani Lima, que usa suas redes para falar sobre autoestima e gordofobia, postou no Instagram um vídeo sobre as propostas amorosas que costumava receber na época em que era solteira. Muitas delas vinham carregadas de fetichismo, como a ideia de que "as gordinhas são boas de cama" — enquanto outras tinham a ver com manter o envolvimento escondido, deixar a relação "no sigilo".

A publicação gerou comentários de quem já passou por experiências semelhantes. A Universa, três seguidoras de Dani resgatam suas histórias:

"Se você é gorda e demonstra que gosta do seu corpo, acham que você está se oferecendo"

Gleice se decepcionou com um ídolo depois de receber um nude não solicitado pelo Instagram - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Gleice se decepcionou com um ídolo depois de receber um nude não solicitado pelo Instagram
Imagem: Acervo pessoal

"Sou negra, gorda, me sinto bem com meu corpo e demonstro isso nas redes sociais. Alguns homens, no entanto, são incapazes de entender essa boa relação e acham que estou me oferecendo. Eles já chegam com terceiras intenções. Cansei de passar pela situação de ser chamada direto para o motel, nunca para o barzinho ou um cinema. Um outro exemplo aconteceu há pouco tempo: quando era mais nova, costumava frequentar a igreja e tinha um ídolo famoso no meio evangélico. Um dia, já mais afastada da igreja, respondi a uma publicação dele no Instagram e recebi de volta um nude não solicitado, sem que tivéssemos trocado nenhuma palavra. Logo em seguida, veio uma mensagem com uma proposta para um encontro sexual. Bloqueei na mesma hora e perdi o encanto." Gleice Gomes, 37 anos, auxiliar de enfermagem, de São Paulo

"O interesse está em provar, como se fosse uma experiência nova"

Larissa perdeu o interesse depois de perceber que se tratava de um fetiche - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Larissa perdeu o interesse depois de perceber que se tratava de um fetiche
Imagem: Acervo pessoal

"Hoje em dia sou casada, mas na época em que estava solteira me lembro de conversar com um rapaz de uma cidade vizinha pelo WhatsApp. Ele não demorou até lançar um papinho de que queria ficar com uma mulher que tivesse o corpo maior. A partir dali já fui perdendo o interesse, mas continuei dando corda para ver até onde ele iria chegar. Perguntei o porquê da curiosidade e ele me disse que elas deviam ser mais quente, que deveriam 'aguentar mais tempo' e várias frases desse tipo. O interesse de alguns homens é justamente esse: provar, como se fosse algo diferente, quando na verdade é uma relação entre duas pessoas, como outra qualquer". Larissa Feitosa, 26 anos, consultora de atendimento, Jaboatão dos Guararapes (PE)

"Mulheres são mais sutis, mas também têm preconceitos"

Edmara é bissexual e acredita que a gordofobia é mais sutil entre as mulheres - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Edmara é bissexual e acredita que a gordofobia é mais sutil entre as mulheres
Imagem: Acervo pessoal

"Sou bissexual e desisti de usar o Tinder para conhecer homens: lá, quase todas as abordagens eram diretamente sexuais. Sei que é em função da minha imagem porque converso bastante com a minha irmã sobre isso. Ela é magra e loira e a maioria das mensagens que recebe são carinhosas: 'Oi, linda, tudo bem?', 'Como foi seu dia hoje?', enquanto comigo costumavam ser de muito baixo nível. Mesmo nos encontros, é um preconceito bastante escancarado: um dia, topei ir a um restaurante e, quando saímos em direção ao carro, o rapaz com quem estava encontrou um conhecido. Ele não me apresentou, não me olhou, simplesmente fingiu que eu não estava ali.

Entre as mulheres esse pensamento também existe, mas é mais velado. Como muitas preferem manter as coisas em segredo pelo medo de serem julgadas, é fácil se camuflar no começo. Durante a quarentena, iniciei um relacionamento com uma mulher e durante dois meses, nos víamos quase todos os finais de semana, sempre dentro de casa. Conforme as restrições foram se flexibilizando e o comércio reabrindo, sugeri outros passeios, mas ouvi que ela não queria nada sério. Um mês depois, vi que estava de mãos dadas com a nova namorada — que é magra — no shopping". Edmara Vieira, 36 anos, social media, Lodrina (PR)

Perigos de um pensamento enraizado

A psicóloga Vanessa Tomasini comenta que a queixa da fetichização é bastante comum entre as mulheres gordas. "É um pensamento sustentado na ideia de 'ter onde pegar' e no mito de que elas teriam uma forma mais liberal de se apresentar no sexo", explica. O que contribui para que esse tipo de episódio seja traumático é que, apesar de serem alvo do desejo sexual, muitas delas não são assumidas nas relações. "Geralmente os homens preferem estabelecer um relacionamento público com aquelas que se aproximam mais do padrão, ou seja, são mais magras", completa.

Além de ser ruim para a construção da autoestima, o perigo desse ciclo está no abuso. "Não é raro encontrar mulheres que, em razão desse pensamento, se submetem a relacionamentos abusivos. Uma vez que encontram um parceiro que assuma a relação, muitas têm medo do rompimento e não sabem identificar os limites de um envolvimento saudável", alerta a psicóloga.

Combate à gordofobia deveria ser uma luta coletiva

De acordo com Vanessa, romper com o estigma sobre o corpo gordo não é uma tarefa simples, mas é dever de todos. Uma das conquistas importantes que vêm sendo atingidas é a maior representatividade de corpos na mídia e nas propagandas — mas este não é o único caminho. "Uma das alternativas possíveis para acabar com esse tipo de preconceito é a defesa empática", explica. Viu uma mulher sendo alvo de comentários inapropriados? Comente e defenda. "O mesmo vale para o que acontece fora da internet: se conhecer alguém que age desrespeitosamente com o outro em função do corpo, vale a pena dar um toque na pessoa", diz. Quanto mais pessoas atentas a esse tipo de situação, menos chances elas terão de acontecer.

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