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Vergonha do corpo no sexo: como desencanar dessa ideia machista?

Natalia Pinheiro

Colaboração para Universa

04/04/2021 04h00

A primeira vez que Bárbara* ficou a sós com o seu primeiro namorado, ela sentiu medo. Os toques começaram a ficar mais íntimos e veio o bloqueio: "eu não tive coragem de tirar a camiseta por vergonha da minha barriga". A estudante de medicina de 20 anos relata que essa situação aconteceu mais de uma vez por conta do desconforto que sentia com o próprio corpo: "nunca consegui ficar totalmente sem roupa perto dele", conta. Essa dificuldade em se sentir bem com o próprio corpo começou cedo para a Bárbara, ainda na adolescência, e continua sendo uma questão de autoestima e, muitas vezes, insatisfação.

De onde vem esse sentimento comum entre as mulheres? A psicanalista e professora do curso de Psicologia da PUC/PR Ana Suy Sesarino Kuss aponta uma razão: "A imagem que as mulheres visualizam, de quem elas deveriam ser, é uma imagem problemática porque parte de um ideal inexistente".

As inseguranças que a pornografia traz para as mulheres também estão relacionadas à performance que esse conteúdo dissemina. Os padrões inalcançáveis de gemidos e posições são algumas das exigências atribuídas às mulheres que se somam a uma estética que também não condiz com a realidade.

O peso do padrão de beleza incansável

Apesar de um ideal de beleza ainda propagado de mulheres muito magras, brancas, altas e de traços finos, existe a maioria da população feminina brasileira que não se encaixa ali. A psicanalista cita um estudo que leu recentemente sobre as medidas da boneca Barbie e como não seria possível uma pessoa real, com a mesma proporção, simplesmente andar. Por outro lado, são várias as notícias de mulheres que fizeram cirurgias plásticas para se parecerem com a boneca e também o seu parceiro, o Ken.

A abertura para o diálogo e o acesso à informação são pontos que Ana Suy considera importantes quando falamos da autoestima da mulher e a sua relação com o corpo, mas lembra também que a cultura impacta a maneira como o corpo será observado e reflete diretamente nas nossas relações: "Apesar das mulheres já serem donas dos próprios corpos de um modo radicalmente diferente de cem anos atrás, nós não curamos tudo isso de um dia para o outro".

Quando incluímos as mulheres negras na conversa, o questionamento do padrão intangível é ainda maior. "O reconhecimento do ponto de partida é fundamental para uma troca sustentável, saudável e respeitosa para nós", diz Caroline Amanda, fundadora do perfil Yoni das Pretas, que foca em para despertar a consciência sexual de mulheres negras.

Caroline Amanda, fundadora do perfil Yoni das Pretas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A terapeuta menstrual e pesquisadora Caroline Amanda, fundadora do perfil Yoni das Pretas: "mulheres se prendem ao agrado do outro":
Imagem: Arquivo pessoal

Como terapeuta menstrual e consultora em educação e saúde sexual pela ABRASEX, Caroline enxerga essa questão de uma forma bem diferente - e mais voltada para nós mesmas. O sexo e a preparação para ele já virou motivo para muitas mulheres olharem para as suas vulvas, segundo Caroline. Porém, essa maneira de lidar com o corpo revela o quanto as mulheres se prendem ao agrado do outro. O desafio está, portanto, em uma sexualidade que seja para nós mesmas.

"Todas as mulheres, cada uma com a sua interseccionalidade possível, foram ensinadas que a sexualidade é para servir. Parece que ela é obrigada a raspar, depilar, estar lubrificada e preparada para esse momento, para o seu companheiro ou sua companheira.

Como ressignificar a sexualidade e a relação com o corpo

A aceitação do próprio corpo não acontece como mágica e as experiências muitas vezes são doloridas. Caroline Amanda, por exemplo, chama a atenção para a série de invisibilizações passadas por ela e outras mulheres negras para poderem acessar a própria intimidade: "Existe uma vulva padrão e essa não é a vulva de anatomias afrodescendentes". No Yoni das Pretas, ela constrói um espaço de identificação, conforto e segurança: "Eu sinto que essa interação me cura. Por isso que a frase da Yoni das Pretas é "Eu me curo te curando e eu te curo me curando" - porque é sempre assim".

Caroline, que é terapeuta menstrual, diz que um passo importante para perder a vergonha do corpo é se conectar consigo mesma e entender a dimensão cíclica da própria sexualidade, percebendo as alterações, potências e preferências do corpo e da mente ao longo de todo o ciclo menstrual. O autoconhecimento e o autocuidado são chaves para o processo, mas pede das mulheres um entendimento mais amplo e profundo do contexto coletivo.

Diante de tantos obstáculos e impeditivos, como se sentir melhor consigo mesma? A sexualidade vista por um olhar mais positivo coloca o autoconhecimento em um patamar poderoso, mas ainda tem mais a ser feito, segundo Caroline. "Primeiro, é agradecer às mulheres que nos trouxeram até aqui. Agradecer pela oportunidade de estar podendo reconstruir uma nova narrativa sobre nós mesmas".

No caso das mulheres negras, esses padrões são ainda mais distantes de suas realidades, como explica a fundadora do Yoni das Pretas. Assim, a sociedade vai criando uma expectativa em volta das mulheres que nunca poderá ser alcançada.

Há também a importância de construir coletivamente um olhar diferente aos corpos e à sexualidade da mulher, segundo Caroline. Sem isso, a responsabilidade torna-se individual para cada mulher, o que ela considera até mesmo nocivo. "Estar à vontade com uma sexualidade é também se situar no tempo espaço. Isso faz a gente se entender. Eu acho que a liberdade sexual está sendo construída coletivamente e aplicada intimamente".

* A entrevistada pediu para que o seu nome fosse alterado.

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