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Banda Didá, grupo de samba-reggae feminino, transforma luta em Carnaval

Didá Banda Feminina, primeiro grupo feminino de samba reggae - Reprodução Instagram
Didá Banda Feminina, primeiro grupo feminino de samba reggae Imagem: Reprodução Instagram

Júlia Flores

De Universa

16/02/2021 04h00

Quem ouve as batidas de samba reggae que ecoam no Pelourinho logo se encanta. O ritmo, popularizado pelos tambores do Olodum, é um símbolo cultural da capital da Bahia, Salvador. Por anos, a cena musical desse gênero era dominada apenas por homens, mas, desde 1993, um grupo de mulheres está mudando esse cenário - e a Anitta já percebeu isso.

A Banda Didá é um grupo de samba reggae formado exclusivamente por mulheres. Ela foi fundada pelo maestro Neguinho do Samba, um dos criadores do Olodum, em 1993. "Eu perguntei para o Neguinho do Samba por que não tinha mulheres no Olodum, eram apenas 3 meninas no meio de 100 homens. No final de 1992 ele formou uma turma só de garotas da comunidade do Pelourinho para aprender a tocar tambor. Aí o projeto foi ganhando proporção", relembra Adriana Portela, 50, maestrina e coordenadora da Didá.

No começo, os instrumentos usados pelo grupo eram emprestados do Olodum. "Deu algum problema, falaram que o Neguinho do Samba estava fazendo coisa errada, que trabalhar com mulher era só dor de cabeça. Foi a primeira vez que a Didá enfrentou o machismo", conta Adriana. Depois de quase 30 anos de resistência, hoje o projeto firmou suas raízes na cultura e na história brasileira, além de ter virado uma associação com endereço fixo, nas vielas do Pelourinho.

Atualmente, a Associação Educativa e Cultural Didá reúne de 80 a 100 participantes, a maioria delas vindas das comunidades carentes de Salvador, e está ao lado da casa que abriga o Olodum. Apesar da origem e das batidas semelhantes, comparar os dois grupos é deslegitimar a história de resistência da Didá, palavra que em ioruba significa "o poder da criação" - nome que fortalece o que essas mulheres vêm fazendo desde a década de 90, ao transformar luta em Carnaval.

Olodum feminino"

Além de Adriana, outra integrante que está no grupo desde a sua formação é Débora Souza, filha mais velha de Neguinho do Samba. Ela, que é musicista desde a adolescência, diz que herdou do pai a responsabilidade de manter o projeto de pé. "O machismo existe, o preconceito existe. Estamos há muito tempo na resistência para mostrar a nossa cultura, o nosso valor. É muito difícil, mas sabemos que temos que lutar", comenta.

A história da Didá e de Neguinho são indissociáveis. A sede do grupo foi comprada com o dinheiro de um "presente" que o cantor americano Paul Simon quis dar a Neguinho, em agradecimento ao que o ritmista fazia com o Olodum.

"Ele viajava e com os cachês que ganhava com o Olodum comprava chapas de alumínio. Foi assim que começamos a montar os nossos instrumentos, começamos a ter a nossa identidade. Logo em seguida, veio o Caetano Veloso pedindo para os meninos gravarem a percussão no projeto Tieta. O Neguinho falou: 'por que você não trabalha com mulheres? Tieta é uma mulher'. Caetano ficou assustado na época, 'mulher tocando tambor? Eu nunca vi'", conta ela.

Neguinho então chamou Caetano e Paula Lavigne para assistirem a uma apresentação e eles se encantaram com a banda. "Fizemos uma turnê com Caetano, Gal e Didá pelo Brasil em 1997. Foi nossa primeira aparição nacional", relembra Adriana.

De lá para cá, o projeto ganhou ainda mais notoriedade pelo Brasil e fora daqui. A Banda Didá já gravou com artistas como Anitta, Marília Mendonça, Daniela Mercury, Carlinhos Brown e até com a rapper americana Cardi B.

O grupo também participou da abertura da Copa do Mundo de 2014, tocando ao lado de Shakira. "São em momentos assim que a gente vê nossa importância. Somos a primeira banda feminina de samba-reggae. Tem várias mulheres que se inspiram na gente. É muito gratificante ver artistas como eles que reconhecem o que fazemos", comenta Débora, atual presidente do projeto.

Foi na abertura da Copa do Mundo, por sinal, que o grupo foi chamado em rede nacional de "Olodum feminino", comentário que não agradou as integrantes da Didá. "O Olodum é um grupo formado 80% de homens, nós somos formadas 100% por mulheres. A Didá não é o Olodum feminino, a Didá foi criada por um homem que fez parte do Olodum. Essa comparação faz com que nos sintamos desvalorizadas. Sou apaixonada pelo Olodum e o grupo tem a história dele, que é uma história que eu bato palmas, assim como para a história da Didá", diz a musicista.

"Didá desconstrói o que a sociedade machista construiu"

Carla está na Didá "desde a barriga da mãe" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carla está na Didá "desde a barriga da mãe"
Imagem: Arquivo pessoal

Debora é tia de Carla Andreza, baiana de 19 anos que também compõe a bateria da banda. "Estou na Didá desde a barriga de minha mãe, Andréa. No começo era algo que fazia por obrigação. Hoje eu toco porque foi a forma que eu encontrei de estar mais próxima do meu avô. A Didá acabou virando parte da minha vida, por causa do amor e carinho que tenho pelo meu avô, então é algo que foi florescendo dentro de mim. Não tinha para onde correr, está no sangue", afirma a percussionista.

Carla, neta de Neguinho do Samba, é percussionista na Didá - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Carla, neta de Neguinho do Samba, é percussionista na Didá
Imagem: Arquivo Pessoal

Carla é uma das principais entusiastas da banda e se orgulha do que ela representa para a história brasileira: "A Didá surgiu com o intuito de agregar as mulheres negras em um quadro no qual elas não se encontravam, que é o da música. Existe muito preconceito, acham que mulher não pode tocar e que o nosso lugar é em casa. Neguinho do Samba veio para provar que mulher consegue sim, basta querer", diz.

"Antigamente diziam que a mulher não podia carregar um instrumento, porque, teoricamente, por termos útero, não aguentaríamos esse peso. Hoje na Didá a gente toca, a gente dança, a gente pula tudo isso com o instrumento na cintura", afirma. "A Banda Didá desconstrói tudo o que a sociedade machista construiu."

Primeiro ano sem Carnaval

Desde 1993 a Didá faz apresentações no tradicional Carnaval de Salvador. Normalmente os desfiles acontecem na manhã do sábado e da segunda-feira. Esse ano, por conta da pandemia, é a primeira vez em quase 30 anos de história que o grupo não vai colocar o bloco na rua.

"Todos os artistas esperam a chegada do Carnaval para arrecadar dinheiro. É quando vamos para a rua mostrar nosso trabalho e cultura. Em 2021, não teremos esse momento, 2020 foi um ano muito desafiador. Conseguimos fazer algumas aulas online, arrecadar dinheiro para manter a instituição com a ajuda de alunos estrangeiros", fala Débora, que também reclamou da falta de amparo público com os artistas.

Integrantes da Banda Didá em gravação de live realizada durante a pandemia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Integrantes da Banda Didá em gravação de live realizada durante a pandemia
Imagem: Arquivo Pessoal

Já Adriana tem grandes expectativas para o futuro e aposta em uma festa revigorante no próximo ano. "O Carnaval de 2022 vai ser pura energia. Vamos reunir toda a vontade que acumulamos nesse ano. Vamos rezar para que realmente a gente consiga uma solução para essa pandemia", planeja a maestrina.

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