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"Quem é a mãe de verdade?": preconceitos que lésbicas ouvem ao ter filhos

Marcela e Melanie são mães dos gêmeos Bernardo e Iolanda, de dois anos - Reprodução/Instagram
Marcela e Melanie são mães dos gêmeos Bernardo e Iolanda, de dois anos Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

15/02/2021 04h00

"Quem é a mãe de verdade?" e "como isso aconteceu?" são perguntas que um casal hétero dificilmente ouviria ao chegar com os filhos a um hospital ou a encontrar vizinhos no elevador. Para mães lésbicas, no entanto, esses comentários são verdadeiros clássicos.

Universa ouviu três casais de mulheres com filhos entre três meses e dois anos, que viveram episódios de lesbofobia ainda durante a gravidez, na maternidade e na hora de escolher a primeira escolinha da criança. Na internet, elas contam, o preconceito também não dá trégua.

"Quem é a mãe de verdade?"

O meio médico é um dos lugares onde eu mais ouço palavras de lesbofobia, no sentido de não validar a dupla maternidade. Para muitos lugares, médicos e hospitais, existe apenas uma mãe, normalmente a que gestou e pariu. No hospital onde a gente fez o parto, por exemplo, tive que usar uma pulseirinha de silicone escrito "sou papai". Essa pulseira dá livre acesso a todos os espaços da maternidade, quarto, internação, enfim, enquanto você está lá dentro.

"O meio médico é um dos lugares onde eu mais ouço palavras de lesbofobia", conta Marcela - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"O meio médico é um dos lugares onde eu mais ouço palavras de lesbofobia", conta Marcela
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a enfermeira nos deu essa pulseira, ela disse que estava constrangida e que, se eu não quisesse usar a pulseira, ela poderia passar um rádio para os seguranças pedindo que me liberassem. Mas a Mel estava grávida de gêmeos, ia fazer uma cesárea, a gente passaria pelo menos uns três dias lá, eu não queria nenhum tipo de confusão, nada que me impedisse de entrar ou sair a qualquer momento, então topei usar a pulseirinha, mas com uma raiva do caramba. E esse é um problema antigo nesse hospital: conheço mães de bebês de poucos meses e até de crianças de 6, 7 anos, que passaram pela mesma situação nesta mesma maternidade.

Muitas outras situações de lesbofobia, apagamento da nossa maternidade, aconteceram na internet. Um dos comentários mais clássicos é em relação ao doador. "Ah, na hora de criar diz que não precisa de pai, mas na hora de fazer precisou né", e outras coisas do tipo. A ausência da figura masculina na nossa família incomoda bastante. E tem aquela coisa de conversa de elevador: a gente entra com os gêmeos, as pessoas perguntam se são irmãos, nós respondemos que sim, perguntam quem é a mãe, nós contamos que somos casadas e eles têm duas mães, aí vem o clássico: "Mas quem é a mãe de verdade?". Já deu né? Mas acho que vai demorar muitos anos para que as pessoas quebrem esse conceito de que mãe de verdade é quem pariu, infelizmente.

Marcela Tiboni, casada com Melanie Graile e mãe dos gêmeos Bernardo e Iolanda, de 2 anos

"Como isso aconteceu?"

Bruna bruna e raul - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Me questiono se alguém chega para um casal hétero e pergunta 'como isso aconteceu?'", fala Bruna
Imagem: Arquivo pessoal

Eu já estava bem gravidona, acho que com umas 30 semanas. Tem uma pracinha aqui perto de casa onde vamos com nossos dois cachorros, é o nosso passeio na quarentena. Nesse dia, a praça estava cheia, ficamos um pouco mais afastadas e esse cara, que eu nunca tinha visto, nem sabia quem era, reconheceu a Bruna, minha companheira. Aí foi aquela coisa de 'oi, tudo bem, quanto tempo'. Eu estou com a Bruna há cinco anos, então fazia pelo menos esse tempo que eles não se viam. Ela falou: "Essa aqui é a Bruna, minha mulher, e esse é o Raul, meu filho", apontando para a minha barriga. Ele fez uma cara de espanto e perguntou: "Como isso aconteceu?".

Bruna me olhou, eu fiquei com cara de bunda, e respondi: fertilização. Ele seguiu sem vergonha nenhuma, perguntando: "Seu óvulo?", "doador anônimo?". No final, olhou para a Bruna com cara de "não é seu filho coisa nenhuma". Ainda bem que não falou, mas nitidamente pensou. Nos sentimos tão invadidas.

Fiquei me perguntando se alguém chega para um casal hétero e pergunta "como isso aconteceu? Seu marido gozou dentro? Vocês estavam sem camisinha?", e ainda terminasse questionando o direito de pai ou mãe.

Bruna Thimotheo, casada com Bruna Bressani e mãe de Raul, de 4 meses

"Se importa em ser tratada como tia?"

Thais Eliana e Adah - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Thais e Eliana desistiram de colocar a filha Adah na creche depois que uma diretora foi preconceituosa
Imagem: Arquivo pessoal

Quando nossa filha tinha três meses, eu voltei a trabalhar e precisava deixá-la em uma creche. Fui sozinha visitar uma das escolinhas, porque era perto de onde eu trabalho e só queria fazer orçamento, mas logo voltei com a minha esposa e a nossa filha para que elas também conhecessem a creche. Logo de cara, a mesma moça que me atendeu da primeira vez soltou: "Que legal, trouxe a vovó pra conhecer". E minha esposa logo respondeu: "Não, eu sou a mãe da Adah". Ela ficou sem graça e chamou a responsável pela creche, que nos disse que não tinha costume de receber famílias como a nossa na escola. Naquele momento, já não queríamos mais ficar ali.

A diretora falou que, por não ter "famílias assim", os funcionários e as crianças poderiam ficar confusas com uma criança que tem duas mães. E ainda perguntou se minha esposa se incomodaria de ser tratada como tia da nossa filha.

Isso nos chocou bastante. Na época, nos sentimos muito mal, nunca imaginamos passar por isso. Neste dia, desisti de colocá-la na creche e decidi sair do trabalho para cuidar da Adah em casa. Depois veio a pandemia e não procuramos mais. Hoje ela tem um ano e seis meses.

Quando eu estava grávida, as pessoas não acreditavam, ficavam confusas, por eu ser sapatão, vestir roupas largas. Uma vez, fomos a uma loja para comprar móveis para o quartinho dela, e a vendedora perguntou se era menino ou menina, e depois chamou outras duas colegas para comentar sobre a minha gravidez. Ouvi ela tirando onda, insinuando que eu tinha tido uma 'noitada' com um homem para engravidar. Minha esposa quase deu na cara da vendedora.

Depois que a Adah nasceu, por várias vezes me confundiram com a babá, porque eu sou negra e minha filha é branca. As pessoas ainda têm a cara de pau de dizer que não têm costume ou que não sabem que existem famílias de duas mães. Não sou a primeira e muito menos a última mulher lésbica a formar uma família.

Thais Britto, casada com Eliana Britto e mãe de Adah, de um ano e seis meses

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