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Dating déjà vu: por que nos apaixonamos pelo mesmo tipo de crush?

A atriz Marina Ruy Barbosa e o ex, Alexandre Negrão - Reprodução/Instagram
A atriz Marina Ruy Barbosa e o ex, Alexandre Negrão Imagem: Reprodução/Instagram

Júlia Flores

De Universa

24/01/2021 04h00

Muita gente reparou na semelhança física entre o deputado Guilherme Mussi, que - especula-se - seria o novo namorado de Marina Ruy Barbosa, com o ex-marido da atriz, o empresário Alexandre Negrão. Se é boato ou não, ninguém poderia julgar Marina. Sentir atração por pessoas muito parecidas é mais comum do que se imagina e tem até explicação científica para isso. É o dating déjà vu - um termo meio inglês, meio em francês que poderia ser traduzido para "encontro que já aconteceu antes".

Guilherme Mussi, Marina Ruy Barbosa e  Xandinho Negrão - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Parece, mas não é: Marina entre Guilherme e Alexandre.
Imagem: Reprodução / Instagram

A psicanalista Maria Homem diz que, em qualquer relação, existe uma repetição de padrões e é normal que busquemos sempre a mesma forma de nos conectar. E essa repetição pode ser na semelhança física ou no tipo de comportamento que os parceiros que escolhemos têm. A psicanalista explica.

Colocamos os outros em lugares pré-desenhados no nosso inconsciente. Não sabemos exatamente quais são as tramas que regem nossa vida, mas sempre há um dating déjà vu. Às vezes, você pode mudar do loiro para o moreno, do alto para o baixo, do rico para o pobre. Mas sempre tem algo da posição subjetiva que a gente tende a repetir

No entanto, as consequências de se prender a um mesmo padrão de crush podem ser drásticas e trazer sofrimento.

Freud explica

Natália Teruel conta que descobriu, depois de muita análise, que tende a repetir um padrão de crush  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Natália Teruel conta que descobriu, depois de muita análise, que tende a repetir um padrão de crush
Imagem: Arquivo pessoal

Natália Teruel, 24 anos, é uma cientista brasileira que mora em Montreal, no Canadá, onde conclui seu doutorado. Ela conta que, graças à terapia, descobriu que buscava nos parceiros amorosos o reconhecimento que não recebia do pai.

"Sempre tive uma necessidade de ser boa o suficiente para que o meu pai falasse: 'Nossa, o que você fez é f*da'. Essa validação nunca veio, por mais que eu me esforçasse. De certa forma, isso me motiva a tentar ser melhor o tempo todo, ir atrás de desafios maiores, porque isso pode impressionar o meu pai", conta a cientista.

O que isso tem a ver com dating déjà vu? Natália, que já teve dois namoros sérios, explica.

Na minha vida amorosa sempre que me envolvo com alguém que me idolatra muito, meu interesse por ele passa rápido. Tendo a ficar mais tempo com quem não me valoriza, com quem sofro bastante. Parece que só fico ok de sair de um relacionamento quando me sinto validada. Aí como esses caras nunca me validam, é difícil me desapegar

A psicanalista Maria Homem cita Freud para explicar esse tipo de comportamento. "Muitas vezes quando entramos em um relacionamento, a gente acha que está em um novo amor. Mas, ao paramos para observar, escutar e analisar, percebemos que estamos seguindo uma matriz, que foi desenhada lá atrás, na infância. Nessas relações déjà vu você revive pontos de angústia, sofrimento, de eventual quebra narcísica, de pacto de coisas antigas", detalha.

Para a psicanalista, nós seguimos o ciclo de recordar, repetir e elaborar. Resumidamente, estamos fadados a viver o dating déjà vu até que consigamos "elaborar" um jeito de escapar dele, com autoconsciência e análise.

Natália está ciente disso, mas diz ter encontrado um jeito próprio de lidar. "A terapia é um jeito certo de quebrar qualquer tipo de comportamento destrutivo, mas eu já tentei algumas vezes insistir em relacionamentos que fossem mais saudáveis e que eu me sentisse mais apreciada, mas não parece que é algo que está sobre o meu controle", afirma a cientista. "O que eu estou tentando fazer é me relacionar com pessoas que não me validem tanto, pra que essa motivação pessoal de continuar evoluindo ainda exista, mas que eu veja essa relação mais para um sentido de motivação do que de crítica".

Moreno, alto, bonito e sensual

Maju e o atual namorado. Ela assume que procura um padrão estético nos parceiros - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maju e o atual namorado. Ela assume que procura um padrão estético nos parceiros
Imagem: Arquivo pessoal

E quanto à atração por padrões físicos? A advogada Maria Júlia, 24, tem uma história engraçada sobre o assunto. Ela conta que sempre se envolve com homens de barba, nariz grande, altos, atléticos. O "tipo árabe", como ela resume. "Busco pessoas com essas qualidades físicas, elas me chamam mais atenção. Não sei se não consigo me envolver com alguém fora desse padrão, mas todos com que eu já me envolvi emocionalmente tinham esse tipo físico", explica.

Maria Júlia já teve quatro relacionamentos sérios - só um deles era "menos parecido" com os outros namorados. Certa vez, essa repetição de padrões rendeu até uma situação meio embaraçosa. Ela conta que, quando estudava em Franca e morava em Ribeirão Preto, todos os dias ia de ônibus para a cidade vizinha. "Havia uma menina nesse ônibus que era amiga tanto minha quanto do meu ex. Então ela via a gente todos os dias. Ela saiu da faculdade e nós perdemos o contato. Depois de uns meses, lá por agosto eu terminei com o meu ex mas ela não ficou sabendo", recorda.

No carnaval, eu já estava saindo com outra pessoa e publiquei uma foto com esse cara no Instagram. Aí essa amiga comentou no post: 'João e Maju, sempre lindos <3'. Mas na foto não era o João, era o Lucas, meu atual. Até apaguei o comentário

Ao contrário de Natália, Maria Júlia alega correr de relacionamentos que a façam sofrer. "Me concentro em buscar diferentes padrões comportamentais, que é uma coisa que trabalho na terapia, inclusive. Procuro pessoas com diferentes características de personalidade, não físicas. Só que eu acho mais difícil quebrar esse padrão físico do que o padrão de personalidade. Querendo ou não, o que primeiro chama atenção é a aparência".

Até os algoritmos jogam contra a gente

Seja física ou emocionalmente, nós tendemos a repetir padrões. Talvez, fugir da atração por pessoas com características estéticas parecidas seja algo difícil nos dias de hoje. Até os aplicativos de relacionamento já tendem a nos empurrar para o mesmo "tipo de pessoa".

David Vermeulen, fundador e CEO do aplicativo de relacionamentos Inner Circle, explica que o app funciona como uma janela de opções em que os usuários dão match em outras pessoas com base em interesses e hobbies parecidos. Existe, também, uma combinação de algoritmos que facilita o encontro de desconhecidos com objetivos em comum.

Segundo David, uma pesquisa do app mostrou que, na verdade, os opostos raramente se atraem. O estudo foi feito com 3.877 solteiros no Brasil e descobriu que quase 70% deles consideram que compartilhar o mesmo estilo de vida e visão de mundo é o principal atributo para uma combinação perfeita.

"Você não precisa ouvir exatamente a mesma música que seu parceiro ou ter os mesmos hobbies, mas é importante estar no mesmo comprimento de onda em muitas coisas. Nós também sabemos que, coisas como ter as mesmas opiniões políticas ou querer viver um estilo de vida semelhantes, são características realmente importantes", conta o empresário.

É curioso pensar que, ao mesmo tempo em que aplicativos de relacionamento aumentam o nosso leque de opções de encontrar novas pessoas, eles também nos levam para o mesmo caminho do dating déjà vu.

Para sair dessa repetição, é preciso consciência. "Esse é o único caminho. Quando o outro aparece com aquele velho papo que você já reconhece, você se analisa e percebe que está cometendo o mesmo erro. Até que uma hora você passa a se interessar por outro tipo de gente, de gente que está em outro lugar em relação à vida e a você", encoraja a psicanalista.

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