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Paraense que vendia chip nas ruas de Belém é nova aposta do mundo da moda

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Imagem: Divulgação

Mariana Costa

Colaboração para Universa

18/09/2020 04h00

Do trabalho de vendedora nas ruas de Belém para a capa de uma das revistas de moda mais importantes do mundo, Emilly Nunes, 21, viu em poucos meses o que era um sonho de menina torna-se realidade. A jovem paraense vendia chip de celular e fazia pequenos trabalhos para marcas locais quando, em janeiro deste ano, uma foto sua foi parar nas mãos de um olheiro. Cinco meses depois, sua vida mudou completamente, em meio à pandemia. Contratada por uma grande agência, mudou-se para São Paulo, fez ensaios para grandes marcas e já estampou duas vezes a capa da Vogue.

"Participei de um desfile para um shopping da cidade, alguém fez uma foto minha e mandou pro Vivaldo [Marques, agente]. Ele já vinha me seguindo no Instagram, mas depois disso falou que queria trabalhar contigo e me apresentar para as agências. Foi tudo muito rápido", lembra Emilly.

Logo depois, veio o convite para o ensaio da coleção de inverno da Lenny Niemeyer. "Parecia ainda algo muito distante, mas quando fiz a campanha da Lenny a ficha caiu", conta a jovem modelo, que diz ter se sentido muito à vontade em sua primeira experiência fotografando para uma grande marca.

Sua beleza marajoara chamou a atenção e logo ela foi contratada pela Way Model, agência responsável pela carreira de grandes modelos, como Carol Trentini, Alessandra Ambrósio, Sasha Meneghel e Michele Alves. Em 20 dias, assinou contrato e mudou-se para São Paulo "de mala e cuia, só não trouxe o açaí".

Dois meses depois, estampou as páginas da Vogue Brasil em maio e novamente em setembro, em uma edição especial sobre os povos da Amazônia. "As meninas de Belém não têm tanta oportunidade, as poucas que despontaram são contadas. Tem a Carol Ribeiro, a Tayná Carvalho e agora eu", explica a jovem modelo.

Ela alimentava o sonho de ser modelo

Emilly nasceu em Belém, mas foi criada com a ajuda das avós em Soure, na Ilha do Marajó. Cresceu pegando açaí, cupuaçu e manga, ajudando na pesca e vendo as avós fazendo farinha e extraindo óleos naturais, como andiroba e coco. Cristina, 87, sua avó paterna, é descendente dos aruans, etnia que até hoje resiste no estado de Rondônia.

Filha mais velha de quatro irmãos, começou a trabalhar aos 19 anos para ajudar a mãe, Leidiane. "Queria ajudar em casa e não ver só minha mãe trabalhando. Tudo que viesse, eu estava aceitando", lembra. Seu primeiro emprego foi como operadora de caixa de um supermercado, onde trabalhou durante um ano. Depois, foi com a mãe vender chip de uma operadora de celular nas ruas de Belém.

Para atrair os clientes, anunciava o produto no grito e era boa nisso, batia com facilidade a meta diária. Ficou oito meses nesse trabalho até ser descoberta e alavancada para um universo completamente diferente, mas que sempre esteve presente nos seus sonhos: a moda.

"Minha mãe participava de concursos de beleza, ela é o meu maior espelho. Assistia aos desfiles e ficava apaixonada. Conforme fui crescendo, a vontade foi ficando maior. Aos 9 anos, não queria ganhar tênis, chorava porque já queria usar salto", diverte-se lembrando do episódio em que convenceu o pai a fazer sua vontade.

O trabalho nas ruas a ajudou a vencer a timidez e a tornar-se mais despachada. Emilly, que nunca tinha saído do seu estado, está morando sozinha em São Paulo.

No começo, dividia a moradia com outras meninas, mas teve que voltar para Belém por conta da pandemia. "Quando cheguei, fiquei na casa das modelos e conheci várias meninas. Foi muito legal. Em março veio a pandemia e eu tive que voltar para Belém. mas dentro do meu coração eu sabia que nada ia acabar do nada", conta Emilly, que parece dividir-se entre o encantamento de quem realiza um sonho e a determinação de quem sempre soube o que queria.

"Nunca tive problema de autoestima, sempre me achei linda. As pessoas falavam que eu parecia com a Naomi [Campbell] e eu me inspirava muito nela. Também me espelhava na Alessandra Ambrósio, Adriana Lima e Carol Trentini, seguia todas elas no Instagram. Acho que isso também me ajudou um pouco", reflete.

A pandemia desacelerou um pouco os planos, mas Emilly, que nunca viajou para o exterior, já tirou o passaporte e aproveita para estudar inglês. Da última volta pra casa, trouxe na bagagem o óleo de coco extraído pela avó para hidratar os cabelos e seu muiraquitã, um amuleto em forma de sapinho que guarda lendas de mulheres indígenas guerreiras que viviam isoladas às margens do Rio Amazonas. No coração, muita saudade da família, do irmão recém-nascido, da farinha, do peixe e do açaí. "Não critico, nem julgo, mas o açaí que comem aqui nem experimento", diverte-se.

A beleza de Emilly ganha destaque em meio a um movimento crescente que cobra das marcas mais representatividade no mundo da moda, na frente e por trás das lentes. "Tenho me interessado a acompanhar e saber mais sobre as coisas para poder ajudar de alguma forma. Vejo que agora tenho como dar voz a outras pessoas, principalmente pro meu povo", planeja.

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