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Mães e filhos

Mãe Não Julga: a alimentação do seu filho é restritiva ou flexível?

Ilustração para coluna mãe não julga - alimentação - Estúdio Sarambi/UOL
Ilustração para coluna mãe não julga - alimentação Imagem: Estúdio Sarambi/UOL

Manuela Aquino

Colaboração para Universa

27/07/2020 04h00

A alimentação dos filhos pode ser um dos assuntos mais polêmicos em uma roda de mães. Tem a que torce o nariz se ouve o "cleck" quando a tampa de uma papinha pronta é girada ou que levanta os olhos quando alguém abre a marmita com os palitinhos de legumes no meio da festa. Há mães que nem olham o cardápio da escola e há outras que reclamam com a diretora por não haver alimentação orgânica.

"Mãe não julga" é uma seção de Universa, criada para compartilhar histórias de mães que optaram por caminhos muito diferentes em determinados aspectos da criação dos filhos. Para mostrar que na maternidade não há regras, há caminhos.

No meio de discussões acaloradas e comentários sobre o que vai no prato do outro, é bom sempre lembrar que alimentação diz muito sobre a dinâmica de uma família, como foi a relação dos pais e avós com o que ia à mesa, a rotina diárias. Por isso conversamos com duas mães com diferentes relações no que diz respeito à alimentação dos filhos. Tatiana Fanti, 36 anos, busca uma alimentação saudável mas não proíbe os filhos de comerem industrializados ou comidas prontas, e Patricia Pena de Oliveira Campos, 40 anos, que há um ano virou vegana e prioriza uma alimentação natural aos filhos.

"O equilíbrio para mim está em usar recursos naturais e industrializados sem problemas"

"Minha alimentação em boa parte da minha vida foi desregrada. Quando era pequena, dava trabalho para comer algo saudável. Por mim, eu viveria de danoninho e cebolitos. Fui desenvolvendo o paladar enquanto cresci. Hoje, adulta, como melhor, mas tenho algumas restrições: não gosto de frutos do mar, de jeito nenhum. Eu cresci com a sensação de que a hora da comida não era algo legal, foi traumatizante pois meus pais ficavam preocupados por eu não comer, era uma tortura para mim. Quando minha filha Maria Eduarda nasceu, coloquei na cabeça que não queria que as refeições tivessem para ela a mesma lembrança que eu tinha.

Fiz introdução alimentar quando ela tinha de quatro a cinco meses porque eu precisei voltar a trabalhar e ela ficava com uma babá. Fazia questão de cozinhar para ela e deixar congelada para o almoço. O jantar eu mesma fazia e dava. Tudo bem saudável e caseiro. Quando ela tinha 8 meses, me separei do pai dela e até os seis anos fomos somente nós duas e eu sempre tive uma rotina puxada por conta do trabalho. Ela passou a comer na escola, que tem cardápio balanceado.

A partir dos quatro anos, a Maria Eduarda passou a impor mais as vontades dela. Eu também não como muita coisa e isso acabou influenciando. A gente comia muito frango grelhado, almôndega, mas pouca variedade de nutrientes. Não comia espinafre, berinjela, brócolis, por exemplo. Ela cresceu saudável mas comendo pouca coisa. Quando ela passou a levar lanche na escola, decidi que iria colocar bolacha, bolo pois tinha que ser lanche típico de escola, poxa. E ela cresceu comendo muito bem em casa e porcarias fora. Tenho muita sorte de todos os exames dela estarem em ótimos apesar da alimentação - hoje, aos 12 anos, se deixar ela só come nuggets e macarrão.

Com meu segundo filho, Arthur, de 9 meses, foi diferente. Mudei para a Alemanha no começo do ano pois meu marido, Wagner, foi transferido para cá. Tive a preocupação que tive era equilibrar mais os nutrientes. Aqui o orgânico é mais acessível, com pouca diferença no preço, e priorizo o mais saudável. Mas eu dou papinha pronta, por exemplo.

Com a Maria Eduarda eu fazia o meu dia e meu fim de semana de acordo com a papinha, que tinha que ser caseira, que não podia azedar, era difícil. Quero poder sair e não ficar preocupada se vai estragar, levar geladeirinha. E diferente da irmã, ele come uns chips naturais de milho para bebê, um snack saudável, mas que tem conservante. Uso os recursos os mais saudáveis possíveis, mas não preciso que tudo seja natural, sem uma gota de conservante. Temos que nos adaptar à nossa realidade e ter praticidade também. O equilíbrio para mim está em usar recursos naturais e industrializados sem problema. Acho que o mais importante é focar na variedade, como estou fazendo agora"

Tatiana Fanti, 36 anos, relações públicas, Wolfsburg, Alemanha. Mãe de Maria Eduarda (12 anos) e Arthur (9 meses)

"Acredito que a dieta vegana seja a melhor para uma criança"

"Parei de comer carne vermelha em 2015, mas sem consciência da causa ambiental, dos animais e sobre meu próprio corpo. A mudança foi parte de uma sugestão de uma nutricionista que visitei por conta de exercícios físicos. Comecei a pesquisar sobre vegetarianismo e virei vegana com o tempo. Conversei com meu marido, Renato, e concordamos em não comer nada de origem animal em casa mas que fora eles poderiam comprar. Na época meu filho Raul, de 7 anos, tinha dois e comia carne e leite normalmente. Primeiro tirei do cardápio de casa as carnes, depois parei de comprar leite de vaca e laticínios.

Ele aceitou numa boa, eu explicava para ele com cuidado a origem da carne e porque a decisão de não comprar mais O leite, que ele gostava, a gente substitui por água ou suco. Com a dieta vegana em casa foi perceptível ver que meu filho parou de ter problemas nas vias respiratórias, como pequenos resfriados e nariz escorrendo. Mas como ele já era onívoro e gostava de carne, deixei ele continuar comendo na escola e também fora, em festas ou na casa dos avós. A frase que ele fala hoje é aqui: 'mamãe, sinto duas coisas quando como carne, sinto alegria porque gosto mas tristeza pelos animais'. Mas ele curte e preciso respeitar.

Quando engravidei do segundo filho, Dante, de 2 anos e quatro meses, eu era ovolactovegetariana mas a maior parte do tempo fazia dieta vegana. Ele nasceu em 2018 e eu sabia que ele seria vegano, pois sei que é a melhor dieta para uma criança. Na introdução alimentar dele segui o método de deixar a criança explorar o alimento com as mãos, feijão, cenoura, brócolis, tudo com pouquíssimo sal.

Hoje meu marido e meu filho mais velho são onívoros e eu e o mais novo, veganos. Quando vamos em algum lugar, festinha ou casa de alguém, levo bolinho de banana, fruta, suco, sempre tenho uma marmitinha. E como evitamos frituras e industrializados, em uma festa o que sobra para nós é batata e mandioca.

Eu acredito muito na energia dos alimentos e que se você se alimenta de dor, ela vem de alguma forma para seu corpo. O que faço com o Raul e o Dante é ensinar que os animais são nossos amigos que não precisamos usá-los nem na comida, nem no zoológico Tento fazer a conscientização de maneira lúdica, mostrando desenhos, falo de uma forma leve e que eles entendam que há muitas formas de maltrato e que não precisamos disso para sermos felizes. Vou continuar orientando meus filhos de todas as formas possíveis. Se mesmo assim ele quiserem comer carne, não vou proibir. Tenho que trabalhar muito isso dentro de mim porque a sociedade vai em direção contrária ao que acredito."

Patrícia Pena de Oliveira Campos, 40 anos, engenheira civil e designer de interiores, Belo Horizonte (MG). Mãe do Raul (7 anos) e do Dante (2)

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